Pequenos prazeres da vida.

Á certas coisas que por mais insignificantes que possam ser alteram por completo a minha disposição, umas para melhor outras para pior, e como tal, aqui revelo alguns daqueles que considero... os meus pequenos prazeres da vida.

- Ligar a televisão no exacto momento em que começa a minha série preferida

- Começar no instante seguinte outro episódio na minha serie preferida quando acaba o 1º

- Acordar num domingo de manhã de barriga para cima, com uma enorme sensação de leveza no peito como se fosse capaz de inspirar todo o ar do mundo com o sol a entrar por debaixo da persiana meio aberta.

- Uma noite de DVD com a sala repleta de amigos esponjados pelo chão.

- Uma noite de verão passada na praia de volta duma fogueira improvisada rodeado dos meus irmãos e um radio rouco a tocar Sublime

- Beber Coca-Cola pela garrafa ás escondidas enquanto a minha mãe grita da sala "Zé!!! Ñ bebas a Coca.Cola pela garrafa!"

- O silencio de cortar á faca numa sala de cinema cheia de gente que deixa o rolar da película no projector entoar pela sala!

- Uma tarde de churrasco com os amigos de volta da piscina.

- Comer uma pizza familiar á mão ...e beber mais coca.cola pela garrafa!

- Chorar de emoção no fim de um filme

- Um candeeiro de rua apagado, acender no exacto momento em que passo por debaixo dele.

- Dois pardais a "namorarem" no parapeito da minha janela

- A emoção da véspera de um dia importante.

- Acordar 1 minuto antes do despertador tocar...

- O buzinar dos carros dos meus amigos que me vêem buscar para um café num entediante sábado á tarde.

...

.... aqui deixo espaço para os vossos pequenos prazeres.

Chuva de dor sobre o bairro.

Sempre ouve um tipo de loja que me intrigou em particular, as "Drogarias", típicas de qualquer bairro, sempre achei incrível como conseguem ter tudo aquilo que nos possamos lembrar encafuado num qualquer canto duma loja minúscula, e não só por isso ... intriga como é que é possível alguém sobreviver á custa duma drogaria.

O meu bairro não é excepção, e como tal, lá tínhamos nós a drogaria do Snr Marcelino, e como qualquer outra drogaria suponho que tivesse guardado por detrás do balcão tudo aquilo que tinha sido inventado desde o inicio dos tempos, desde abajours, a desentupidores de canos, de piásás a dobradiças de portas, de vassouras a brinquedos e um ou outro bibelô, a drogaria do snr Marcelino era o paraíso das nossas invenções. Desde o tempo das corridas de carrinhos na lancil do passeio e mais tarde ás corridas de skate pela rua abaixo até ás garrafas de acido muriático para as nossas "home.made bombs" ... incrível como de tudo aquilo que me lembro de ir comprar á loja do snr Marcelino nunca me lembro de pagar nada, desde o bocado de cana e as folhas das listas telefónicas para os nossos canudos e respectivas munições a meia dúzia de parafusos para os carrinhos de rolamentos, nunca queria que nós pagássemos e menosprezava a nossa comprar com um sorriso nos lábios e um ... "Vá... leva lá isso que não custa nada!"

E o facto de nunca pagarmos nada ainda me deixa mais curioso, como é que alguém passa a vida inteira a vender pregos, parafusos, e álcool desnaturado, a 2 escudos cada prego, ou a 4 escudos cada parafuso ... e 1 L de álcool desnaturado a 200escudos, e no meio disto tudo, nem sequer nos cobrava nada para as nossas brincadeiras, mas o que é certo é que moro ali á 22 anos, e o Snr Marcelino sempre lá esteve a pactuar com as nossas invenções a financiar o material, a rua não era a mesma sem ele nem sem a sua drogaria.

O Snr. Marcelino morreu hoje á hora de almoço num assalto á drogaria... eu não vou conseguir passar por aquela porta azul com os ferrinhos aos quadrados e não pensar nele, sempre partimos do principio que ele ia estar sempre lá, e dum momento para o outro pelo mais estúpido dos motivos desaparece da vida de todos nós.

A rua nunca há-de ser a mesma depois da tarde de hoje ... e eu também não.

Para o eterno cúmplice das nossas brincadeiras, o Snr. Marcelino (1938 - 2004).

... quem vêm e atravessa o rio.

Totalmente despropositado, hoje apetece-me falar do Porto, não sei nem o porque de me ir lembrar do Porto, mas vinda do nada uma súbita vontade de desabafo me impele a faze-lo, naquilo que será mais um post de improviso.

Foi por volta dos meus 16 anos, eu não tenho muito jeito em precisar alturas em anos, tanto uso expressões como "no outro dia" referindo-me a algo que ocorreu á 1 ou 2 anos atras, como tão facilmente digo "Á uns anos" sobre algo que aconteceu á meia dúzia de meses, mas neste caso concreto sei precisar porque foi quando tirei a licença de mota que se veio a mostrar fundamental neste capitulo do livro da minha vida.

Tinha internet á pouco tempo que as noites de conversa sempre me levaram para longe de casa, tão longe que acabei por começar a namorar com uma rapariga do Porto, todos os meu amigos me tentaram dissuadir, que eram impossível manter um relacionamento sério a uma distancia daquelas, mas o recorrente erro de julgar que comigo ia ser diferente fez-se notar e estava determinadissimo a fazer com que tudo desse certo.

Aparte da relação que apesar de ser em torno dela que a história gira, pouco ou nada importa para o caso, o que importa é que me rendi aos encantos que as idas me proporcionavam, com o namoro vieram novos amigos, novas ruas, novos sítios por onde passava que com o passar do tempo ficara a conhecer tão bem como se da minha casa de tratasse, sítios que sabia que nenhuns dos meus amigos conhecia e isso conferia-lhes uma espécie de misticismo como se fossem meus, onde ia para estar longe de todos aqueles com quem estava no dia-á-dia e que mesmo assim me fazia sentir em casa, o Porto foi quase que uma 2ª casa.

Apesar de ter mais para recordar pela negativa que propriamente positiva da relação que entretanto tinha, tudo aquele mundo tão diferente, desde as expressões á pronuncia, das ruas á maneira de encarar a vida, faziam-me sentir uma pessoa mais rica por experiênciar algo tão diferente daquilo a que estava habituado. Chegou a um ponto é que olhando para trás, disperso o fumo dos ciúmes, da paixão e tudo o mais que me cegava a vista na altura, consigo dizer que, o Porto, o novo grupo de amigos foram pilares que sustentaram a casa da minha relação ate muito depois das paredes ruírem.

Tudo me fascinava, desde ter começado a trabalhar como distribuidor de mota para ter verba para as viagens, desde meter-me no comboio ás sextas feiras ao fim de tarde numa viagem de inter-regional que por mais interminável que fosse, era passada na melhor das companhias com mais um ou outro "efémero" na minha vida, e a chegada... assim que o comboio chegava a Espinho que um nervoso miúdo me invadia, depois parávamos em Gaia já como antecipação da chegada.... e por fim, a imagem que tenho guardada na mente como uma polaroid, o passar pela ponte, e ver ao longe a cúpula do Palácio de Cristal, o Bom Sucesso, a Torre dos Clérigos... faziam nesse instante com que toda a viagem valesse a pena.

Muda o tempo ... e tudo muda, anos mais tarde, ainda guardo o Porto como a minha cidade de eleição, e os alfacinhas que me perdoem, mas tenho de admitir que nós "mouros" estamos a anos-luz da maneira de ver e estar na vida. Guardo ainda os amigos que lá tenho, uns já são pais e devo-lhes ainda uma visita ao rebento, outros vou falando quando posso e visitando-os menos que aquilo que eles mereciam, se retribuísse em visitas tudo aquilo que foram para mim, teria de me mudar para o Porto, pois não hão-de haver visitas suficientes para pagar na mesma moeda, espero que tenha neles um espaço guardado naquele sitio onde o esquecimento não chega, nos recônditos do coração, aonde os guardo a eles.

Sinto a falta de finais felizes

Idas ao cinema, é sem duvida um dos meus maiores prazeres. Sentado naquelas cadeira perdi conta das voltas que dei ao mundo, dos amores que tive, das aventuras que vivi e sim, das lagrimas que derramei enquanto afogava as mágoas num pacote de pipocas "Gigante" e uma Cola "Normal" e sem gelo! Desde idas ao espaço e ao fundo dos oceanos, do centro da terra a asteróides, desde marte a cada um dos continentes da Terra, desde o inicio dos tempos aos dias de hoje e mais além, desde a Terra Média a Hogwards passando pela Terra do Nunca, cada um destes sítios me reservou uma aventura, e durante a duração de cada um dos filmes nada mais me importa, vivo intensamente cada momento como se a minha vida dependesse disso.

Como qualquer um de nós, uns filmes marcaram-me mais que outros, mas aqueles que marcaram são mais que um filme, são uma lição de vida, uma maneira de estar ou ser, a perspectiva do mundo ou de algo pelos olhos de alguém que não os meus, posso com segurança dizer que para lá da cultura geral que tenho ao vê e a aquela que eles próprios contêm, vejo em cada filme retratos do quotidiano em que por mais fantástica seja a história que está á nossa frente, conseguimos encontrar sempre alguma coisa a que associamos a nos, uma frase que nos toca mais fundo, um personagem que nos faz lembrar alguém, um mundo que gostávamos para nós, uma vida que comparamos á nossa.

Eu sempre tive uma visão muito realista da realidade, e mesmo no mais romântico dos Happy End., eu achava que 2 meses depois de ter começado o "Viveram felizes para sempre" surgiria uma discussão sobre a tampa da sanita levantada que levaria ao divorcio, ou que como casal iam passar pelo mesmo problema que falei ontem e que aquele Para Sempre não era mais que uns meses de felicidade, mas sinto falta, sério que sinto falta de finais felizes, os finais que nos fazem deixar a sala com um sorriso nos lábios e um único pensamento em nós, "porque não pode tudo acabar assim?!" Mas até esses finais felizes têm vindo a desaparecer, e é mais comum lamentar a morte do herói que celebrar a união com a sua amada, não consigo deixar de pensar no "Favores em Cadeia", que mente macabra tem o realizador para matar o Haley Joel Osmond, que não obstante de ser uma criança, ainda passou a duração do filme a tentar mudar o mundo, o Titanic com o Leonardo DiCaprio lentamente a afundar-se nas gélidas águas do Atlântico, o American History X, As Pontes de Madisson County, o BraveHeart ou a Cidade dos Anjos... somos nós que estamos mais realistas, ou será que um final feliz é, neste mundo perverso, cada dia que passa um final mais utópico e distante da realidade?! Estarão os casais que vivem felizes para sempre em vias de extinção!?

Para as idas ao cinema, têm de estar cumpridas duas condições, têm de ser á ultima sessão disponível, ou seja sempre depois da meia-noite, e que nunca, mas nunca seja a sextas, sábados, ou vésperas de feriado, não por esses dias tarem reservados para borgas mas porque tal não é o prazer que tiramos de uma ida ao cinema que a única coisa que queremos ouvir na sala quando o Dolby Pro Logic não nos presenteia com fabulosos efeitos sonoros, é a suave musica do correr da película na maquina do projeccionista, o.k. o.k., tolero um mastigar de pipocas impossível de disfarçar, um tossir, um espirrar, ate mesmo um murmúrio para a cadeira do lado, mas repugno com todas as minhas forças aqueles que falam no cinema, não conseguem estar calados um instante que seja e pior que isso... aquilo que os encaminharia directamente para os portas do inferno sem passar pelo purgatório nem receber 2 mil escudos... Tocar ou atender um telemóvel. Esfolá-los vivos e banha-los com álcool não se aproxima sequer daquilo que considero uma pena aceitável para tão desprezível gente... e como podem ver, levo isto muito a peito, pelo que tenho tendência para me tornar conflituoso quando o tagarelar ultrapassa os limites do aceitável, e como tal, tanto para o nosso sossego, como para o bem da nossa integridade física, escolhemos ir quando há menos gente diminuindo assim a probabilidade de sermos incomodados. Por outro lado, se a sala está cheia e mesmo assim, o silencio durante as pausas dramáticas é de cortar á faca, uma sensação de alivio e bem estar invade-me e penso que há ainda quem, tal como eu, vai para o cinema entregar-se de corpo e alma para o filme, e para quem o rasgar do bilhete á entrada rasga tambem todos os laços que nos prendem á nossa vida e por aquelas 2 horas, nada mais importa, a não ser a próxima cena.

Mas não é só dos finais felizes que sinto falta, sinto falta de lugares marcados, sinto falta de um intervalo para explicar ou perceber aquela deixa que nos soou estranha e não vimos muito bem onde encaixa na história, aqueles 10 minutos para um re.fill á Coca.cola e o entoar do Tlingggg Tonggg que nos avisa que nos espera outro tanto de emoções. Fica a nota de agradecimento aos Cinemas Feira Nova no Barreiro, e as Galerias TwinTowers em Lisboa por manterem acesa a tradição e não abolirem o intervalo e ainda empregarem arrumadores que nos encaminham ate ao numero e fila do NOSSO lugar!

Cada vez mais é um balurdio ir ao cinema, mas se for este o modo de tornar as salas mais elitistas e fazer com que se tenha a certeza que quem lá está, está para ver um filme e não para outra coisa qualquer, têm então a minha condescendência para aumentar o preço dos bilhetes, as pipocas e as colas.

Mas tudo isto se deve á ida de hoje ao cinema com o sempre fiel grupo de amigos, o filme eleito foi "O Ultimo Samurai" e falo por todos quando digo que está magnifico ao ponto de merecer um aplauso durante o rolar dos créditos.

A tentação da diferença

Tenho sempre tremenda dificuldade em escolher um Title para os meus post, não sei por onde começar e muito menos onde vai acabar com os garantidos rodeios que sei que os meus textos acabam sempre por ter, apago parágrafos inteiros, corto, colo, copio e edito um sem numero de vezes ate achar que estão compreensíveis.

Não á maneira de dar volta ao assunto e dado tal vou saltar a parte dos floreados e focar no cerne da questão.

Nunca estamos contentes, e acho bem que assim seja, a infinda busca por algo melhor é algo que nos leva mais longe, exige de nós e nos faz transpor obstáculos com o fim de atingir os nossos objectivos e conseguir aquilo que tanto queríamos, mas é aqui que este circulo vicioso começa, assim que temos aquilo que tanto desejávamos, passamos a querer outra coisa qualquer, e lá voltamos nós ao inicio desta insasíavel corrida em busca do que queremos, quando na maioria das vezes, aquilo que queremos nem sempre vai ao encontro daquilo que precisamos ou mesmo do que é melhor para nós.

Recordo as conversas entre o grupo de amigos, única e exclusivamente composto por rapazes quando o assunto era raparigas, e as confissões deles em tom de queixume de como estavam fartos dos olhares provocantes, das trocas de msg's de telemóvel inconsequentes e relacionamentos com raparigas que tinham um fim anunciado á partida tanta não era a certeza que não era nada daquilo que ambicionavam para nós. Falávamos em como queríamos, e o termo era ... ACENTAR! Algo de concreto que soubéssemos que fosse durar para sempre, alguém com quem nos sentíssemos realizados e cujo seu esplendor viria por termo a esta busca desenfreada por algo melhor que durava ... bem... vejamos ... mais dia menos dia ... desde a puberdade!

Pois bem ... á que ter muito cuidado com aquilo que desejamos, porque por vezes ... só por vezes, aquilo que desejamos torna-se realidade e muitos dos então "pseudo.playboy's" que éramos, arranjaram namoradas, relacionamentos estáveis, sérios, apresentações á família da namorada oficial, almoços de domingo na casa dos sogros, e, a quimera chegava ao fim, com aquilo que pensávamos ser, uma missão cumprida, um relacionamento sério e promissor!

Mas a natureza humana fala mais alto, e com passar dos meses, dos anos, a rotina, e o enfraquecer da chama do namoro que tão intensamente ardia ao inicio, faz-nos recordar a vida boémia que levávamos, os tempos de liberdade, em que podíamos muito bem fazer o que nos apetecia sem pensar em consequências nem em magoar 3ª's, e é então que o pensamento nos invade, e esta é a maior duvida que nos assombra, e acredito piamente que vagueie tambem por todos aqueles que se vêem numa relação á muito tempo, duvida essa que trás anexada um "Tenho que tentar", "Tenho de descobrir" que encaminha o namoro para períodos mais conturbados, e a duvida é ... será que ainda sou capaz?!

Será que consigo ainda parecer interessante aos olhos de alguém que nunca me viu na vida, será que a minha aparência, o meu charme são ainda suficientes para convencer alguém que não me conhece a aceitar um convite meu para um café, será que consigo ainda ser olhado com desejo por alguém que só me vê passar, ou será que todos aqueles sentidos que tão apurados tínhamos antes de namorar e que faziam com que nos destacássemos se esvaneceram e que a nossa tão longa ausência do relvado neste jogo de sedução nos tornou banais e ultrapassados? ... e pior ainda, como conseguir descobrir sem quebrar o mais sagrado principio da lealdade?! Será que o facto de outras raparigas nos chamarem á atenção deve-se ao facto de estas serem, mais giras, mais bem feitas ou mais vistosas que a nossa namorada ou... a tentação está na diferença?

E por mais absurda que a frase pareça, acho que explica melhor que qualquer coisa que possa escrever.

"Podemos adorar massa, comer massa todos os dias, ela fornece-nos todos os nutrientes que necessitamos para viver saudáveis, a massa tem tudo aquilo que nós faz falta, mas um dia acordamos... e apetece-nos arroz!"

É sem duvida complicadíssimo, e demasiadamente ténue a linha que separa o "aceitável" do "injusto" na busca dessa resposta, e como acho por exemplo aceitável um café com uma amiga com quem sempre se teve uma cumplicidade que nunca levou a lado nenhum, e como acho injusto para a pessoa com que ainda temos um relacionamento, estarmos a criar, fomentar ou alimentar expectativas de algo mais em alguém que sabemos sempre ter tido um fraquinho por nós.

Infelizmente, ou não, esta duvida tem assombrado todos aqueles do grupo de amigos que se encontram em relacionamentos mais sérios, uns á mais, outros á menos tempo, uns com namoros de messes, outros de anos, resta-me esperar que encontrem todos uma solução para este problema que enquanto universal, tem respostas tão singulares para cada um de nós... e que, duma maneira ou de outra a resposta que eles encontrem, me ajude, a descobrir a resposta para este problema que tambem a mim assombra.

P.S. - (10 de Janeiro) És como um irmão Maurício! Que os nossos caminhos nunca nos separem e que estejamos ambos cá para, durante muitos anos comemorar os aniversários um do outro. Muitos parabéns, meu irmão!

Banda sonora duma vida

-Zé, baixa a musica!

É provavelmente a frase que mais vezes entoa nas paredes desta casa. não sei cantar, não sei tocar, não sei compor nem ler uma pauta, e visto que nada sei fazer para contribuir na criação de novas musicas, limito-me a ouvi-las, vezes e vezes sem conta. Perco conta ao numero de vezes que consigo ouvir a mesma musica, mas podem passar horas ate deixar o WinAmp saltar para a faixa seguinte da minha ecléctica playlist, e a mesma musica pode habitar a playlist durante semanas ate outra qualquer melodia vir tomar o seu lugar numa lista em constante mutação tentando acompanhar o meu estado de espirito.

É sem duvida uma história de amor, que dura á anos, numa relação em que confesso ser o único beneficiário visto que ela nada recebe em troca pela companhia que me faz noite após noite, dia após dia, pelo alimento para a alma que só ela consegue providenciar, pelo melhor "Eu" em que ela me torna, e por tantas e tantas vezes trazer, na voz de outros, as palavras que descrevem tão bem aquilo que sinto e julgava ate então impronunciável!

É impossível fazer uma estimativa do numero de "lyrics" que guardo em mim, num canto da mente onde há sempre lugar para mais uma, desde os tempos de criança em que Roberto Carlos era banda sonora das tardes de fim de semana, dos Roxette dos 14 anos a Green Day nos "sweet 16", ás noites de melancolia na companhia de Rui Veloso ou Mafalda Veiga, as idas á praia com Sublime, Sugar Ray e Smash Mouth a tocar de fundo, desde Tom Waits a Aretha Franklin, de Frank Sinatra a Pedro Abrunhosa passando por Matchbox 20, 3 Doors Down ou Goo Goo Dolls, de Pearl Jam a Lauryn Hill, Tracy Chapman, Portishead, Otis Reading e Van Morrison... a lista... "goes on forever" e cada um deles tem sempre uma palavra sábia e amiga para me segredar ao ouvido, foram todos eles, e ela, a musica, que me ajudaram sempre a levantar quando me encontravam esponjado no chão, derivado de amigos, amores e o consequente coração despedaçado. Não sou esquisito e qualquer musica melódica com uma mensagem forte me seduz, por outro lado, repugno todos os tipos de metal e musica feita por bandas pré-frabricadas com o único objectivo de fazer dinheiro, as vulgo Boys & Girls Bands.

E apesar de ser incompreensível para a maioria dos meus amigos como é possível gostar das musicas que oiço, perdoem-me o egocentrismo, mas eles não sabem do que falam e/ou não ouvem a musica como eu a oiço. Hei-de arranjar maneira de fazer uma lista das minhas musicas e de as por de algum modo no meu blog, escolhidas randomly para que tenham sempre algo novo para ouvir, ate lá ... posso-vos adiantar que as minhas noites tem sido passadas ao som de Dave Matthews Band e de musicas como #41, Lover Lay Down, Crush, Cry Freedom, Crash Into Me, Space Between, etc etc etc...

Os efemeros da minha vida

O arrepio que me sobe pelas costas á medida que penso no que escrever faz-me adivinhar que este há-de ser mais um daqueles desabafos psicológicos em que o ultimo ponto final há-de ser lacrado com uma ou outra lágrima.

Quem são eles... pois ai está a beleza de tudo isto, nem eu sei, mas consigo-vos dizer quem foram, foram personagens por quem me cruzei nos sinuosos caminhos que a minha vida tem desbravado, e embora a personagem nunca fosse a mesma, o ponto de encontro ñ mudava, a pousada da juventude do Porto.

Dirigia-me para o meu quarto cuja chave me tinha sido dada na recepção, com a nota de que ... "Já lá está alguém hospedado" e assim que descia as escadas passava pela cozinha e via um grupo de desconhecidos que se percebia logo á 1ª vista que cada um era oriundo de um pais diferente, mas nada disso e importava e vê-los a rir, enquanto qualquer invenção queimava em cima do fogão. Deixava as malas no quarto e tirava logo as 1ªs ilações daquele que ia ser... o próximo efémero na minha vida.

Tudo me dava pistas, a roupa espalhada na cama, a cama feita ou por fazer, a mala, as botas de cano alto encostadas no canto do quarto ou as botas de biqueira de aço, o livro aberto em cima da cama... tudo me ajudava a perceber e conhecer com quem ia partilhar o beliche. Voltava á cozinha e apenas um "Oi" ou "Hello" era o suficiente para me tornar aquele amigo de longa data que tão felizes estamos por voltar a ver. A noite acabava normalmente no bar da pousada junto á recepção, e com o peso de toda uma nação as costas, os mundiais de snooker com participantes dos mais inóspitos cantos da Terra, e os ñ menos famosos jogos de pares "Portugal Vs. Resto do mundo" em que a selecção da qual fazia parte media forças contra um Brasileiro e um Israelita, a mesa de snooker era sem a menor sombra das duvidas o melhor palco de uma óptima "amizade diplomática" com o estrangeiro.

A noite ñ parava para nos ver divertir, e a expressão na cara quando se olhava para o relógio era sempre de espanto em como o tempo correu enquanto cada um contava histórias sobre o seu lado do mundo. Recolhia-mos aos quartos e aquele apertar de mão no corredor antes de cada um entrar no seu quarto era o mais sentido dos reconhecimentos, um despedir que levava em si um "Muitíssimo obrigado por teres aparecido na minha vida e por me fazeres ver as coisas de maneira tão diferente." e ao mesmo tempo um adeus de quem sabe que ñ se voltará a ver nunca mais. E desapareciam tão depressa como tinham entrando do meu circulo de amigos.

De todas esses meus "efémeros" recordo com particular nostalgia do Patrick... é das poucas coisas que sei dele, sei que é de Viseu e que estava no Porto porque tinha na manhã seguinte a entrevista final nos "Securitas". Eu e um amigo meu chegámos á pousada já a tardes horas e fomos directos para o quarto, o meu amigo resolveu abrir as persianas para ir á varanda fumar um cigarro, o correr dos estoures acordou o Patrick que dormia descansado numa das camas dos beliches e o nosso pedido de desculpas foi respondido com um "Agora que já me acordaram, têm de me aturar." e juntou-se a nós na varanda numa troca de histórias que durou ate o nascer do dia, altura em que o cansaço falou mais alto e eu e o meu amigo demos o braço a torcer e caímos estafados em cima das camas. O Patrick esse, foi-se despachar pois tinha passado a noite da véspera da mais importante reunião da vida dele ate á data, na conversa com dois "efémeros" na vida dele que dormiam agora profundamente.

Quando acordámos o Patrick á muito que tinha saído mas uma folha dobrada em dois pousava em cima da cómoda do quarto lá dentro dizia ...

"Rapazes, foi um prazer conhecer-vos, continuem assim e tenham uma óptima vida! Curtam SEMPRE! Ass: Patrick"

Guardo ainda hoje esse papel... e espero que o Patrick, esteja ele onde estiver que tenha em dobro de tudo aquilo que desejou para nós! E para ele, aquele abraço!

Morte Evolutiva

A expressão foi-me apresentada num qualquer programa do National Geographic Channel, que tratava do desaparecimento das espécies, se a memória ñ me falha, tratava do desaparecimento dos Austrolopitecos e a que se deveu o seu desaparecimento, visto ñ serem antecessores dos Homo Sapiens nem dos Homo Sapeins Sapiens dos quais descendemos. Este fenómeno foi designado como "Morte Evolutiva" e acontece sempre que a existência de determinada espécie deixa de fazer sentido, esta tende a desaparecer.

Este fenómeno por mais bizarra que a associação possa ser, remete-me para o meu grupo de amigos. Recordo com nostalgia os tempos dos 18 anos em que a escola era a nossa única preocupação, ou era suposto ser, em que depois daquelas 5h diárias tínhamos todo o tempo do mundo uns para os outros. Desde horas no café a partilhar as mais idiotas teorias, que iam desde a invenção de Manteiga em Roll-On a frases que nunca olvidarei como "Quem diz que um orgasmo é a melhor sensação do mundo, nunca teve aflito para ir á casa-de-banho!". Sinto falta da nossa disponibilidade de outrora, das tardes passadas na casa do Puto Hélder em torneios de FIFA 96, os jogos de futebol com balizas improvisas entre carros e a 1ª lata que encontrássemos a desempenhar o papel de bola. Época em que telemóveis eram ficção cientifica e muito sinceramente, ñ faziam a menor falta, mesmo as campainhas dos prédios eram supérfluas e todos os nossos amigos estavam á distancia de um grito á janela para o desespero dos mais velhos.

Mas o secundário acaba e é então que tudo descamba, uns partem para a universidade, outros ficam para trás a melhorar uma qualquer nota que o impede de entrar onde que, outros arranjam trabalho, outros partem para cursos profissionais e sem que nada possamos fazer para contrariar o rumo das coisas, afastamo-nos e tudo deixa de ser como era. O café palco das nossas tardes dá lugar a outro grupo de amigos que ocupa o NOSSO cantinho na NOSSA mesa.

Falamos pela net, trocamos msg's, telefonamo-nos, combinamos idas ao cinema ou ao café, mas á sempre alguém que ñ pode, ou porque ñ atende o telefone, ou ñ esta em casa, ou acorda cedo na manhã seguinte, e o que era outrora o grupo de amigos mais coeso do mundo, estilhaçasse em milhões de fragmentos num puzzle impossível de reconstruir... e lentamente esvanecemo-nos das vidas uns do outros, ñ por uma desavença ou qualquer birra parva, mas porque deixamos de ter lugar na vida daqueles que tanto nos dizem, sofremos todos assim de uma morte evolutiva que nenhum de nós dá conta ate ser tarde demais, e os amigos que tínhamos ao que parece ser um milhão de anos atras, ñ são mais que uma cara conhecida no meios dos transeuntes por quem passamos na rua. Alguém a quem sorrimos quando passamos e perguntamos em tom apressado "Então tudo bem?" mas que nem sequer esperamos para saber a resposta. Alguém cuja cara nos remete para uma época dourada da nossa juventude em que tudo era tão fácil e despreocupado... uma altura em que estava sempre tudo bem!

MAS Ñ A MIM!! Ñ AOS MEUS AMIGOS!! Nenhuma morte nos há-de separar, evolutiva, física ou qualquer outra. E havemos de marcar jantares, combinar idas ao cinema, comemorar passagens de ano a 1 de Maio no parque da cidade, ou juntarmo-nos todos á mesa do Farnel enquanto nos deliciamos com pães com chouriço e recordamos todas as aventuras por que passamos e aqueles que nos deixaram cedo demais, mas que continuam com um lugar guardado, e que sabemos que olham por nós, aqueles que mesmo ausentes, estarão sempre connosco e presentes no seio desta família, família esta que ñ vai morrer, pelo simples facto que eu ñ vou deixar e hei-de lutar por aquele canto no café que há-de ser sempre nosso... mesmo quando as nossas ocupadas vidas só nos permitam visita-lo de tempos a tempos.

...para o Rina (1980-2003)
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