Chuva de dor sobre o bairro.

Sempre ouve um tipo de loja que me intrigou em particular, as "Drogarias", típicas de qualquer bairro, sempre achei incrível como conseguem ter tudo aquilo que nos possamos lembrar encafuado num qualquer canto duma loja minúscula, e não só por isso ... intriga como é que é possível alguém sobreviver á custa duma drogaria.

O meu bairro não é excepção, e como tal, lá tínhamos nós a drogaria do Snr Marcelino, e como qualquer outra drogaria suponho que tivesse guardado por detrás do balcão tudo aquilo que tinha sido inventado desde o inicio dos tempos, desde abajours, a desentupidores de canos, de piásás a dobradiças de portas, de vassouras a brinquedos e um ou outro bibelô, a drogaria do snr Marcelino era o paraíso das nossas invenções. Desde o tempo das corridas de carrinhos na lancil do passeio e mais tarde ás corridas de skate pela rua abaixo até ás garrafas de acido muriático para as nossas "home.made bombs" ... incrível como de tudo aquilo que me lembro de ir comprar á loja do snr Marcelino nunca me lembro de pagar nada, desde o bocado de cana e as folhas das listas telefónicas para os nossos canudos e respectivas munições a meia dúzia de parafusos para os carrinhos de rolamentos, nunca queria que nós pagássemos e menosprezava a nossa comprar com um sorriso nos lábios e um ... "Vá... leva lá isso que não custa nada!"

E o facto de nunca pagarmos nada ainda me deixa mais curioso, como é que alguém passa a vida inteira a vender pregos, parafusos, e álcool desnaturado, a 2 escudos cada prego, ou a 4 escudos cada parafuso ... e 1 L de álcool desnaturado a 200escudos, e no meio disto tudo, nem sequer nos cobrava nada para as nossas brincadeiras, mas o que é certo é que moro ali á 22 anos, e o Snr Marcelino sempre lá esteve a pactuar com as nossas invenções a financiar o material, a rua não era a mesma sem ele nem sem a sua drogaria.

O Snr. Marcelino morreu hoje á hora de almoço num assalto á drogaria... eu não vou conseguir passar por aquela porta azul com os ferrinhos aos quadrados e não pensar nele, sempre partimos do principio que ele ia estar sempre lá, e dum momento para o outro pelo mais estúpido dos motivos desaparece da vida de todos nós.

A rua nunca há-de ser a mesma depois da tarde de hoje ... e eu também não.

Para o eterno cúmplice das nossas brincadeiras, o Snr. Marcelino (1938 - 2004).
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