Morte Evolutiva

A expressão foi-me apresentada num qualquer programa do National Geographic Channel, que tratava do desaparecimento das espécies, se a memória ñ me falha, tratava do desaparecimento dos Austrolopitecos e a que se deveu o seu desaparecimento, visto ñ serem antecessores dos Homo Sapiens nem dos Homo Sapeins Sapiens dos quais descendemos. Este fenómeno foi designado como "Morte Evolutiva" e acontece sempre que a existência de determinada espécie deixa de fazer sentido, esta tende a desaparecer.

Este fenómeno por mais bizarra que a associação possa ser, remete-me para o meu grupo de amigos. Recordo com nostalgia os tempos dos 18 anos em que a escola era a nossa única preocupação, ou era suposto ser, em que depois daquelas 5h diárias tínhamos todo o tempo do mundo uns para os outros. Desde horas no café a partilhar as mais idiotas teorias, que iam desde a invenção de Manteiga em Roll-On a frases que nunca olvidarei como "Quem diz que um orgasmo é a melhor sensação do mundo, nunca teve aflito para ir á casa-de-banho!". Sinto falta da nossa disponibilidade de outrora, das tardes passadas na casa do Puto Hélder em torneios de FIFA 96, os jogos de futebol com balizas improvisas entre carros e a 1ª lata que encontrássemos a desempenhar o papel de bola. Época em que telemóveis eram ficção cientifica e muito sinceramente, ñ faziam a menor falta, mesmo as campainhas dos prédios eram supérfluas e todos os nossos amigos estavam á distancia de um grito á janela para o desespero dos mais velhos.

Mas o secundário acaba e é então que tudo descamba, uns partem para a universidade, outros ficam para trás a melhorar uma qualquer nota que o impede de entrar onde que, outros arranjam trabalho, outros partem para cursos profissionais e sem que nada possamos fazer para contrariar o rumo das coisas, afastamo-nos e tudo deixa de ser como era. O café palco das nossas tardes dá lugar a outro grupo de amigos que ocupa o NOSSO cantinho na NOSSA mesa.

Falamos pela net, trocamos msg's, telefonamo-nos, combinamos idas ao cinema ou ao café, mas á sempre alguém que ñ pode, ou porque ñ atende o telefone, ou ñ esta em casa, ou acorda cedo na manhã seguinte, e o que era outrora o grupo de amigos mais coeso do mundo, estilhaçasse em milhões de fragmentos num puzzle impossível de reconstruir... e lentamente esvanecemo-nos das vidas uns do outros, ñ por uma desavença ou qualquer birra parva, mas porque deixamos de ter lugar na vida daqueles que tanto nos dizem, sofremos todos assim de uma morte evolutiva que nenhum de nós dá conta ate ser tarde demais, e os amigos que tínhamos ao que parece ser um milhão de anos atras, ñ são mais que uma cara conhecida no meios dos transeuntes por quem passamos na rua. Alguém a quem sorrimos quando passamos e perguntamos em tom apressado "Então tudo bem?" mas que nem sequer esperamos para saber a resposta. Alguém cuja cara nos remete para uma época dourada da nossa juventude em que tudo era tão fácil e despreocupado... uma altura em que estava sempre tudo bem!

MAS Ñ A MIM!! Ñ AOS MEUS AMIGOS!! Nenhuma morte nos há-de separar, evolutiva, física ou qualquer outra. E havemos de marcar jantares, combinar idas ao cinema, comemorar passagens de ano a 1 de Maio no parque da cidade, ou juntarmo-nos todos á mesa do Farnel enquanto nos deliciamos com pães com chouriço e recordamos todas as aventuras por que passamos e aqueles que nos deixaram cedo demais, mas que continuam com um lugar guardado, e que sabemos que olham por nós, aqueles que mesmo ausentes, estarão sempre connosco e presentes no seio desta família, família esta que ñ vai morrer, pelo simples facto que eu ñ vou deixar e hei-de lutar por aquele canto no café que há-de ser sempre nosso... mesmo quando as nossas ocupadas vidas só nos permitam visita-lo de tempos a tempos.

...para o Rina (1980-2003)
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