Os efemeros da minha vida

O arrepio que me sobe pelas costas á medida que penso no que escrever faz-me adivinhar que este há-de ser mais um daqueles desabafos psicológicos em que o ultimo ponto final há-de ser lacrado com uma ou outra lágrima.

Quem são eles... pois ai está a beleza de tudo isto, nem eu sei, mas consigo-vos dizer quem foram, foram personagens por quem me cruzei nos sinuosos caminhos que a minha vida tem desbravado, e embora a personagem nunca fosse a mesma, o ponto de encontro ñ mudava, a pousada da juventude do Porto.

Dirigia-me para o meu quarto cuja chave me tinha sido dada na recepção, com a nota de que ... "Já lá está alguém hospedado" e assim que descia as escadas passava pela cozinha e via um grupo de desconhecidos que se percebia logo á 1ª vista que cada um era oriundo de um pais diferente, mas nada disso e importava e vê-los a rir, enquanto qualquer invenção queimava em cima do fogão. Deixava as malas no quarto e tirava logo as 1ªs ilações daquele que ia ser... o próximo efémero na minha vida.

Tudo me dava pistas, a roupa espalhada na cama, a cama feita ou por fazer, a mala, as botas de cano alto encostadas no canto do quarto ou as botas de biqueira de aço, o livro aberto em cima da cama... tudo me ajudava a perceber e conhecer com quem ia partilhar o beliche. Voltava á cozinha e apenas um "Oi" ou "Hello" era o suficiente para me tornar aquele amigo de longa data que tão felizes estamos por voltar a ver. A noite acabava normalmente no bar da pousada junto á recepção, e com o peso de toda uma nação as costas, os mundiais de snooker com participantes dos mais inóspitos cantos da Terra, e os ñ menos famosos jogos de pares "Portugal Vs. Resto do mundo" em que a selecção da qual fazia parte media forças contra um Brasileiro e um Israelita, a mesa de snooker era sem a menor sombra das duvidas o melhor palco de uma óptima "amizade diplomática" com o estrangeiro.

A noite ñ parava para nos ver divertir, e a expressão na cara quando se olhava para o relógio era sempre de espanto em como o tempo correu enquanto cada um contava histórias sobre o seu lado do mundo. Recolhia-mos aos quartos e aquele apertar de mão no corredor antes de cada um entrar no seu quarto era o mais sentido dos reconhecimentos, um despedir que levava em si um "Muitíssimo obrigado por teres aparecido na minha vida e por me fazeres ver as coisas de maneira tão diferente." e ao mesmo tempo um adeus de quem sabe que ñ se voltará a ver nunca mais. E desapareciam tão depressa como tinham entrando do meu circulo de amigos.

De todas esses meus "efémeros" recordo com particular nostalgia do Patrick... é das poucas coisas que sei dele, sei que é de Viseu e que estava no Porto porque tinha na manhã seguinte a entrevista final nos "Securitas". Eu e um amigo meu chegámos á pousada já a tardes horas e fomos directos para o quarto, o meu amigo resolveu abrir as persianas para ir á varanda fumar um cigarro, o correr dos estoures acordou o Patrick que dormia descansado numa das camas dos beliches e o nosso pedido de desculpas foi respondido com um "Agora que já me acordaram, têm de me aturar." e juntou-se a nós na varanda numa troca de histórias que durou ate o nascer do dia, altura em que o cansaço falou mais alto e eu e o meu amigo demos o braço a torcer e caímos estafados em cima das camas. O Patrick esse, foi-se despachar pois tinha passado a noite da véspera da mais importante reunião da vida dele ate á data, na conversa com dois "efémeros" na vida dele que dormiam agora profundamente.

Quando acordámos o Patrick á muito que tinha saído mas uma folha dobrada em dois pousava em cima da cómoda do quarto lá dentro dizia ...

"Rapazes, foi um prazer conhecer-vos, continuem assim e tenham uma óptima vida! Curtam SEMPRE! Ass: Patrick"

Guardo ainda hoje esse papel... e espero que o Patrick, esteja ele onde estiver que tenha em dobro de tudo aquilo que desejou para nós! E para ele, aquele abraço!
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