... quem vêm e atravessa o rio.

Totalmente despropositado, hoje apetece-me falar do Porto, não sei nem o porque de me ir lembrar do Porto, mas vinda do nada uma súbita vontade de desabafo me impele a faze-lo, naquilo que será mais um post de improviso.

Foi por volta dos meus 16 anos, eu não tenho muito jeito em precisar alturas em anos, tanto uso expressões como "no outro dia" referindo-me a algo que ocorreu á 1 ou 2 anos atras, como tão facilmente digo "Á uns anos" sobre algo que aconteceu á meia dúzia de meses, mas neste caso concreto sei precisar porque foi quando tirei a licença de mota que se veio a mostrar fundamental neste capitulo do livro da minha vida.

Tinha internet á pouco tempo que as noites de conversa sempre me levaram para longe de casa, tão longe que acabei por começar a namorar com uma rapariga do Porto, todos os meu amigos me tentaram dissuadir, que eram impossível manter um relacionamento sério a uma distancia daquelas, mas o recorrente erro de julgar que comigo ia ser diferente fez-se notar e estava determinadissimo a fazer com que tudo desse certo.

Aparte da relação que apesar de ser em torno dela que a história gira, pouco ou nada importa para o caso, o que importa é que me rendi aos encantos que as idas me proporcionavam, com o namoro vieram novos amigos, novas ruas, novos sítios por onde passava que com o passar do tempo ficara a conhecer tão bem como se da minha casa de tratasse, sítios que sabia que nenhuns dos meus amigos conhecia e isso conferia-lhes uma espécie de misticismo como se fossem meus, onde ia para estar longe de todos aqueles com quem estava no dia-á-dia e que mesmo assim me fazia sentir em casa, o Porto foi quase que uma 2ª casa.

Apesar de ter mais para recordar pela negativa que propriamente positiva da relação que entretanto tinha, tudo aquele mundo tão diferente, desde as expressões á pronuncia, das ruas á maneira de encarar a vida, faziam-me sentir uma pessoa mais rica por experiênciar algo tão diferente daquilo a que estava habituado. Chegou a um ponto é que olhando para trás, disperso o fumo dos ciúmes, da paixão e tudo o mais que me cegava a vista na altura, consigo dizer que, o Porto, o novo grupo de amigos foram pilares que sustentaram a casa da minha relação ate muito depois das paredes ruírem.

Tudo me fascinava, desde ter começado a trabalhar como distribuidor de mota para ter verba para as viagens, desde meter-me no comboio ás sextas feiras ao fim de tarde numa viagem de inter-regional que por mais interminável que fosse, era passada na melhor das companhias com mais um ou outro "efémero" na minha vida, e a chegada... assim que o comboio chegava a Espinho que um nervoso miúdo me invadia, depois parávamos em Gaia já como antecipação da chegada.... e por fim, a imagem que tenho guardada na mente como uma polaroid, o passar pela ponte, e ver ao longe a cúpula do Palácio de Cristal, o Bom Sucesso, a Torre dos Clérigos... faziam nesse instante com que toda a viagem valesse a pena.

Muda o tempo ... e tudo muda, anos mais tarde, ainda guardo o Porto como a minha cidade de eleição, e os alfacinhas que me perdoem, mas tenho de admitir que nós "mouros" estamos a anos-luz da maneira de ver e estar na vida. Guardo ainda os amigos que lá tenho, uns já são pais e devo-lhes ainda uma visita ao rebento, outros vou falando quando posso e visitando-os menos que aquilo que eles mereciam, se retribuísse em visitas tudo aquilo que foram para mim, teria de me mudar para o Porto, pois não hão-de haver visitas suficientes para pagar na mesma moeda, espero que tenha neles um espaço guardado naquele sitio onde o esquecimento não chega, nos recônditos do coração, aonde os guardo a eles.
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