The down side of good things.

Os meus meninos estão uns homens! Ainda ontem ia buscar o Maurício á escola e hoje dou-lhe o carro para as mãos no parque de estacionamento da Feira Nova para ele treinar para as aulas de condução, tal como o Chástre que já o vejo passar por mim no carro da instrução!

Ás vezes fico abismado como o tempo corre, cruzo-me de carro com rapazes e raparigas que mesmo depois de os ver por detrás do volante digo para mim "Não posso, aquele/a já tem 18 anos?! Já guia!" É incrível mas todos os meus penduras estão a tirar a carta e isto desperta em mim um receio que de á uns tempos para cá tinha estado adormecido!

Eu lembro-me dos tempos em que não tinha carta e tentava imaginar a diferença que ia fazer eu ter o carro á minha disposição para ir para onde eu quisesse, lembro-me de falar com eles sobre como quando eu tivesse carta e carro já não havia de sair mais á noite no Barreiro, havia de ir para onde quer que houvesse estrada, estava farto da mesma gente, das mesmas caras, dos mesmos sítios e de sadias á noite rotineiras que nunca traziam nada de novo, achei que a independência que o carro me traria iria mudar tudo isso, estava enganado! Já tenho carta á alguns anos, e continuo a sair á noite no Barreiro, continuo farto de ir aos mesmo sítios, e o facto de agora ter carta e carro não altera nada, só alimenta a frustração de não ir para lado nenhum, ainda para mais agora que posso! Mas não é só querer, com tanta diversidade nunca sabemos para onde é que havemos de ir, ou não tenho gasolina, ou não me apetece, o que é certo é que por um ou outro motivo, raras são as vezes que usufruímos de alguém ter carro para ir seja para onde for, com excepção claro das noites de cinema no fórum Almada que eram impossíveis de outra maneira!

Mas á pouco falei da independência que o carro me trouxe, é claro que vista de dentro foi óptima, ia para todo o lado, não andava de transportes públicos, não andava a pé, e claro, dava boleia até casa a esta ou aquela amiga minha, e o "quality time" dos minutos que passávamos juntos da origem ao destino, foi impulsionador de muitos romances, assim de cabeça lembro-me de um ou dois. Até aqui tudo bem, para mim o carro só trouxe vantagens, estou certo que a minha mãe discorda de todos estes aspectos porque reconheço que é uma dor de cabeça quando o filho começa a sair com o carro, mas filho sou e pai serei, e hei-de passar pelo mesmo, e terei estas linhas para me ajudarem. Mas toda a independência que o carro agora vai proporcionar ao Maurício e ao Chastre, traz anexada algo de bastante perturbarão, a sua independência, via significar que deixam de depender de mim ou do CoLT ou mesmo do Xut para irem a algum lado, dependência essa que nos mantêm mais unidos, tenho medo que isso se perca uma vez que eles fiquem encartados... foi assim que "perdi" o MiStAfAt.

O MiStAfAt ... ou Fatty para nós, é dos meus melhores amigos apesar de a vida profissional dele não nos deixar passar juntos o tempo que gostaríamos, tenho saudades das longas conversas com ele, ele que me entendia tão bem, é um daqueles amigos que faz de mim alguém melhor por o ter a ele como amigo, mas ele tirou a carta, e a independência dele afastou-nos, e por fim veio o trabalho cortar de vez os laços que nos mantinham juntos, agora, tirando as vezes que vou bater á janela dele para trocar dois dedos de conversa, raramente o vejo, e tenho pena que assim seja! Tenho medo que a independência da carta tenha esta influencia no Maurício e no Chastre e venha fragmentar este tão unido grupo, espero estar enganado, sei que a nossa amizade não morrerá e prevalecerá até todas as nossas cartas caducarem, mas espero que saia ilesa, esta amizade "is a good thing... and nothing good, ever dies!"

"Olha o raio do gaiato hein!"

"Larga os doces, raio do gaiato hein" é a frase que mais presente tenho do meu avô paterno, morreu á muitos anos atras e foi o único dos meus avôs que cheguei a conhecer, o meu avô marterno morreu com 50 anos vitima de um coração demasiado fraco para toda a vida que ele tinha para dar.

É das coisas que mais tenho pena, foi que não lhes tenha sido dado mais tempo, nem a um nem a outro para que eu os pudesse conhecer melhor e ter mais para vos falar deles, e o pensamento deixa-me sempre uma lagrima nos olhos, no entanto tenho duas avós que são as meninas dos meus olhos, adoro-as mais que qualquer outra coisa no mundo, são elas a minha avó Nita (materna) e a minha Avó Maria Antónia (paterna) e anjos como elas são, estou certo que não escolheriam ninguém um degrau abaixo do "excepcional" para meu avô!

Contam-me inúmeras vezes estórias de ambos, e ainda hoje choramos a rir com as estórias dele, o meu avó Zé com quem partilho o nome (materno) nasceu em Moura no Alentejo e mudou-se para Angola meses depois de casar com a minha avó, o que lhe deixou destroçado o coração durante o tempo que não foi ter com ele, quando chegou, o meu avô recebeu com sacos de plásticos carregados de notas e dizia-lhe em euforia "Nita, estamos ricos, estamos ricos!!!!" e a ingénua da minha avó, só mais tarde é que veio descobrir que dado ao baixíssimo valor da moeda angolana, todos aqueles sacos não chegavam Pa conta do telefone!

O meu avô Risques (paterno) tive a sorte de o conhecer, morreu quando eu era muito novo, tinha cerca de 12 anos e lembro-me como se fosse ontem da noite em que o telefone tocou e os meus pais saíram a correr para chegarem tarde demais. Era muito novo, mas lembro-me de como tudo me custou a aceitar. O meu avô paterno adorava-nos como qualquer avô adora os netos, mas fazia o possível para que não notasses, mas sempre se saiu muito mal e o brilho nos olhos quando nos agarrava deitava por terra toda aquela expressão inabalável de um senhor respeitável. Passávamos tarde com ele na casa de Benfica enquanto os meus pais não saiam do trabalho. Na sala de jantar havia um bar com rebuçados que era a nossa delicia, mas que infelizmente ficava mesmo no angulo de visão do sitio na sala de estar onde o meu avó estava sempre sentado, as nossas investidas acabam sempre com um berro de ordem que dizia "Larguem os doces, raio dos gaiatos!" e lá engrenhávamos um novo plano sempre com vista ao mesmo objectivo.. os rebuçados!

Mas deste meu avô em particular existem tantas e tantas hilariantes estórias que é impossível conta-las todas, mas leva-nos sempre ás lagrimas quando relembram a vez que adormeceu de auscultadores no parque de campismo e acordou ás 5 da manhã refilando com toda a gente por causa da barulheira infernal que tinham passado a noite a fazer, ou mesmo da discussão que teve com a minha avó á procura do relógio em que depois de andar 1/2 hora á procura do relógio e fazer a minha avó o procurar, vira-se em tom de revolta e olhando para o pulso - " Maria Antónia! São 7h.43m, e eu vou perder o autocarro porque não encontro o raio do relógio!.

Tenho saudades deles, mesmo daquele que nunca cheguei a conhecer, no entanto, a ciclicidade da moda, permite-me vasculhar os roupeiros dos meus avôs á procura de algo que me fique a matar, casacos de pele, pullovers, ou mesmo blazers que são de novo o ultimo grito da moda, já angariei 2 casacos, 1 blazer e outro pullover do meu avó, adoro vestir o que era dele e a minha avó delicia-se ver aquilo que era do avô acentar-me que nem uma luva. Nos dias em que saiu á rua com roupa dele, penso em segredo se ele onde quer que estiver me consegue ver, e se pensa para ele ... - "Olha olha... o meu blusão! Raio do Gaiato hein!"

Tenha a bondade.

"Não podia ser rico, não posso vir a ser rico!" era hoje o tema ao almoço, chegámos todos á conclusão que se herdássemos uma fortuna e visemos o telejornal da TVI durante um mês, o mais certo era no final do mês estarmos novamente na penúria.

E estou certo que todas aquelas que pessoas que não teme um calhau no lugar do coração me compreendem perfeitamente. Enternece-me ver alguém de idade esvair-se em lágrimas porque a casa onde mora tem condições sub-humanas e que o pouco dinheiro da reforma mal chega para a comida, adorava ter a disponibilidade financeira de pagar a uma equipa de pedreiros para deixar a casa da senhora em condições. Dá-me um aperto no coração quando por acaso á minha frente na caixa do supermercado está alguém que depois de saber o total pergunta ... "e quanto é que fica se eu tirar isto", adorava puder dizer-lhe "Compro-lhe um sorriso pelo valor da sua conta.". Nada me enchia mais o coração que tornar realidade o sonho de um rapaz de 12 anos cujos pais mal teme dinheiro para lhe dar de comer, o sonho de ter um computador. Entristece-me saber que nada posso fazer por eles, e mais me entristece saber que aqueles que efectivamente o podem... nada fazem.

A uns anos atrás nas festas do Pinhal Novo por altura dos Santos Populares, encontramos uma senhora que tinha perfil para ser a mais adorável dás avós, sentada num caixote com uma caixa cheia de manjericos e apregoava-os com uma tristeza na voz que só ouvida se tinha noção do quão triste era, as palavras entoavam dentro de mim, e 5 minutos depois achei que não ia ser capaz de viver comigo se não voltasse atras e trouxesse todos os manjericos que o dinheiro que tinha comigo conseguissem comprar, e voltei, e quanto volto ao sitio onde a senhora estava, não estava lá ninguém, fiquei capaz de morrer com tal peso de consciência, e todos aqueles que estavam comigo estavam tão enternecidos como eu ao ouvir tão desolada, aquela que podia ser a avó de qualquer um de nós. Os dias passaram, e consta que uns dias depois a mesma avózinha foi vender manjericos no cais dos barcos do Barreiro, e nesse mesmo dia á noite, cada amigo meu que tinha estado comigo na noite que pela 1ª vez vimos a senhora dos manjericos, chegava ao pé de mim e dizia, "- Olha encontrei a senhora dos manjericos e comprei 2", minutos depois íamos ter com outro meu amigo e dizia .. " - Encontrei a senhora dos manjericos nos barcos e comprei um" e não me lembro de alguma outra vez que tenha tido mais orgulho neles que nessa noite.

Na R. Augusta está sempre sentado um Sr. com um pífaro ao colo, de aspecto pouco cuidado que entre uma ou outra nota de musica tirada a ferros daquele instrumento, murmura "Tenha a bondade" e aquele "tenha a bondade" apertava-me de tal modo o coração que não conseguia vir embora indiferente, e todos os dias lá ficavam os trocados do meu almoço. E sim! Podia ficar todos os dias mais pobre, mas sei e sinto que sou uma pessoa tão mais rica por me comover assim, e acredito tambem que são todos aqueles 50 ou 100 escudos que todos os dias deixava... que vão comprar o meu cantinho no céu.

Mediocre minds!

Porque é que nunca nada é fácil !? Porque é que algo não pode ir de A para B numa linha recta sem desvios ou contratempos. Porque é que tem sempre de haver alguém do contra... que triste que é a natureza humana!

Pois é, a mais simples das tarefas, mesmo quando feito por uns, em prol de todos e com a maior das boas intenções, há-de sempre, mas invariavelmente SEMPRE ter de aparecer um filho da puta para complicar as coisas... passo a explicar.

Eu moro no maior prédio do Barreiro, não só por ter 12 andares, mas por estar situado em cima dum monte que vem enaltecer ainda mais o seu tamanho, nestes 12 andares, em cada um deles há 4 apartamentos por andar com a excepção do ultimo andar que só tem 2 apartamentos, ou seja, 46 apartamentos. A administração é rotativa, e o ano passado calhou-me a mim, ou á minha mãe se preferirem, e a minha mãe é toda dinâmica, cheia de ideias de como valorizar o prédio, fazer um bar no terraço, um mini-ginásio na cave... enfim, depressa arranjou mil e uma ideias sobre o que fazer na administração dela e por onde começar depois daquilo que precisava de reparação ser arranjado, e o sitio era o hall do prédio!

Eu fui dos 1ºs condóminos a vir morar pó prédio, e apesar de só ter 22 anos, moro aqui á 21 anos que me faz dos mais velhos no prédio. O hall nunca havia sido mexido, e os azulejos que muito provavelmente até eram o ultimo grito da moda em 1982, em 2004 estavam a léguas de distancia de tudo aquilo que era exemplificativo de bom gosto e como tal, uma das prioridade foi alterar a entrada do prédio, e aproveitar a remodelação para construir uma rampa de acesso aos elevadores acesso esse que é unicamente feita por escadas.

Claro que a minha mãe não podia facilitar a vida a ela mesma e escolher uns azulejos banais que todos "comessem" com mais ou menos resistência... nãhhhhhh, nada disso, a srna minha mãe arranjou 3 tipos diferentes de tamanho de azulejo, todo da mesma cor que se encaixam em forma de puzzle, que fica efectivamente muito giro, uma vez de estar pronto, o que é certo é que a obra não começa pronta... começa por fazer, e voces não iriam acreditar nas lutas que já tivemos com os restantes condóminos a dizer que ameaçam inclusive de deixar de pagar condomínio se os novos azulejos ñ forem retirados... por outro lado, temos os agnósticos que dizem que ainda não sabem se gostam mas que vão esperar pela conclusão para opinar... e temos tambem os mais open.minded que sempre que encontram a snra administradora minha mãe no elevador lhe dão os parabéns por tá tudo a ficar tão giro.

É obvio que em 46 apartamentos, iria ser impossível chegar a um consenso sobre que azulejos por na entrada do prédio, e uma vez que ficou decidido em acta, pela maioria que iria caber á minha mãe o poder de decisão, a minoria que está menos contente com a alteração, devia comer e calar, pois se eles os 3 ou 4 ou quantos são não gostam, a maioria gosta e como tal teme duas opções, ou engolem em seco e fecham os olhos ate chegarem ao elevador, ou mudam de casa. Mas com a conclusão da colocação dos azulejos os ânimos estão mais apaziguados, porque agora é muito mais fácil ver que a entrada está substancialmente melhor que aquilo que estava, e que uma vez colocados todos e betumados, os azulejos são efectivamente muito giros.

Mas para aqueles que pensavam que prontos, houve desentendimentos mas foram ultrapassados, desenganem-se, depois de ser ultrapassado o "issue" dos azulejos, agora os mesmo que tambem não gostavam dos novos azulejos, agora são contra a colocação da rampa. Chegamos ao ponto de ter denuncias na câmara sobre as obras que estavam a ser realizadas e mesmo a ter a obra embarcada. Hoje cimentou-se a rampa e colocou-se as devidas estacas para impedir que fosse pisado o cimento enquanto não seca-se... hoje quando chego á noite a casa, estão 4 pegadas pelo meio do cimento acima.

É triste ver baixo nível de vizinhos com que tenho de conviver, mas como Albert Einstein disse... "Great spirits have always encountered violent opposition from mediocre minds." ... e se isto é com uma rampa de acesso e uma escolha de azulejos no hall de um prédio, não quero nem imaginar por aquilo que Copérnico passou!
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