"Olha o raio do gaiato hein!"

"Larga os doces, raio do gaiato hein" é a frase que mais presente tenho do meu avô paterno, morreu á muitos anos atras e foi o único dos meus avôs que cheguei a conhecer, o meu avô marterno morreu com 50 anos vitima de um coração demasiado fraco para toda a vida que ele tinha para dar.

É das coisas que mais tenho pena, foi que não lhes tenha sido dado mais tempo, nem a um nem a outro para que eu os pudesse conhecer melhor e ter mais para vos falar deles, e o pensamento deixa-me sempre uma lagrima nos olhos, no entanto tenho duas avós que são as meninas dos meus olhos, adoro-as mais que qualquer outra coisa no mundo, são elas a minha avó Nita (materna) e a minha Avó Maria Antónia (paterna) e anjos como elas são, estou certo que não escolheriam ninguém um degrau abaixo do "excepcional" para meu avô!

Contam-me inúmeras vezes estórias de ambos, e ainda hoje choramos a rir com as estórias dele, o meu avó Zé com quem partilho o nome (materno) nasceu em Moura no Alentejo e mudou-se para Angola meses depois de casar com a minha avó, o que lhe deixou destroçado o coração durante o tempo que não foi ter com ele, quando chegou, o meu avô recebeu com sacos de plásticos carregados de notas e dizia-lhe em euforia "Nita, estamos ricos, estamos ricos!!!!" e a ingénua da minha avó, só mais tarde é que veio descobrir que dado ao baixíssimo valor da moeda angolana, todos aqueles sacos não chegavam Pa conta do telefone!

O meu avô Risques (paterno) tive a sorte de o conhecer, morreu quando eu era muito novo, tinha cerca de 12 anos e lembro-me como se fosse ontem da noite em que o telefone tocou e os meus pais saíram a correr para chegarem tarde demais. Era muito novo, mas lembro-me de como tudo me custou a aceitar. O meu avô paterno adorava-nos como qualquer avô adora os netos, mas fazia o possível para que não notasses, mas sempre se saiu muito mal e o brilho nos olhos quando nos agarrava deitava por terra toda aquela expressão inabalável de um senhor respeitável. Passávamos tarde com ele na casa de Benfica enquanto os meus pais não saiam do trabalho. Na sala de jantar havia um bar com rebuçados que era a nossa delicia, mas que infelizmente ficava mesmo no angulo de visão do sitio na sala de estar onde o meu avó estava sempre sentado, as nossas investidas acabam sempre com um berro de ordem que dizia "Larguem os doces, raio dos gaiatos!" e lá engrenhávamos um novo plano sempre com vista ao mesmo objectivo.. os rebuçados!

Mas deste meu avô em particular existem tantas e tantas hilariantes estórias que é impossível conta-las todas, mas leva-nos sempre ás lagrimas quando relembram a vez que adormeceu de auscultadores no parque de campismo e acordou ás 5 da manhã refilando com toda a gente por causa da barulheira infernal que tinham passado a noite a fazer, ou mesmo da discussão que teve com a minha avó á procura do relógio em que depois de andar 1/2 hora á procura do relógio e fazer a minha avó o procurar, vira-se em tom de revolta e olhando para o pulso - " Maria Antónia! São 7h.43m, e eu vou perder o autocarro porque não encontro o raio do relógio!.

Tenho saudades deles, mesmo daquele que nunca cheguei a conhecer, no entanto, a ciclicidade da moda, permite-me vasculhar os roupeiros dos meus avôs á procura de algo que me fique a matar, casacos de pele, pullovers, ou mesmo blazers que são de novo o ultimo grito da moda, já angariei 2 casacos, 1 blazer e outro pullover do meu avó, adoro vestir o que era dele e a minha avó delicia-se ver aquilo que era do avô acentar-me que nem uma luva. Nos dias em que saiu á rua com roupa dele, penso em segredo se ele onde quer que estiver me consegue ver, e se pensa para ele ... - "Olha olha... o meu blusão! Raio do Gaiato hein!"
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