Tenha a bondade.

"Não podia ser rico, não posso vir a ser rico!" era hoje o tema ao almoço, chegámos todos á conclusão que se herdássemos uma fortuna e visemos o telejornal da TVI durante um mês, o mais certo era no final do mês estarmos novamente na penúria.

E estou certo que todas aquelas que pessoas que não teme um calhau no lugar do coração me compreendem perfeitamente. Enternece-me ver alguém de idade esvair-se em lágrimas porque a casa onde mora tem condições sub-humanas e que o pouco dinheiro da reforma mal chega para a comida, adorava ter a disponibilidade financeira de pagar a uma equipa de pedreiros para deixar a casa da senhora em condições. Dá-me um aperto no coração quando por acaso á minha frente na caixa do supermercado está alguém que depois de saber o total pergunta ... "e quanto é que fica se eu tirar isto", adorava puder dizer-lhe "Compro-lhe um sorriso pelo valor da sua conta.". Nada me enchia mais o coração que tornar realidade o sonho de um rapaz de 12 anos cujos pais mal teme dinheiro para lhe dar de comer, o sonho de ter um computador. Entristece-me saber que nada posso fazer por eles, e mais me entristece saber que aqueles que efectivamente o podem... nada fazem.

A uns anos atrás nas festas do Pinhal Novo por altura dos Santos Populares, encontramos uma senhora que tinha perfil para ser a mais adorável dás avós, sentada num caixote com uma caixa cheia de manjericos e apregoava-os com uma tristeza na voz que só ouvida se tinha noção do quão triste era, as palavras entoavam dentro de mim, e 5 minutos depois achei que não ia ser capaz de viver comigo se não voltasse atras e trouxesse todos os manjericos que o dinheiro que tinha comigo conseguissem comprar, e voltei, e quanto volto ao sitio onde a senhora estava, não estava lá ninguém, fiquei capaz de morrer com tal peso de consciência, e todos aqueles que estavam comigo estavam tão enternecidos como eu ao ouvir tão desolada, aquela que podia ser a avó de qualquer um de nós. Os dias passaram, e consta que uns dias depois a mesma avózinha foi vender manjericos no cais dos barcos do Barreiro, e nesse mesmo dia á noite, cada amigo meu que tinha estado comigo na noite que pela 1ª vez vimos a senhora dos manjericos, chegava ao pé de mim e dizia, "- Olha encontrei a senhora dos manjericos e comprei 2", minutos depois íamos ter com outro meu amigo e dizia .. " - Encontrei a senhora dos manjericos nos barcos e comprei um" e não me lembro de alguma outra vez que tenha tido mais orgulho neles que nessa noite.

Na R. Augusta está sempre sentado um Sr. com um pífaro ao colo, de aspecto pouco cuidado que entre uma ou outra nota de musica tirada a ferros daquele instrumento, murmura "Tenha a bondade" e aquele "tenha a bondade" apertava-me de tal modo o coração que não conseguia vir embora indiferente, e todos os dias lá ficavam os trocados do meu almoço. E sim! Podia ficar todos os dias mais pobre, mas sei e sinto que sou uma pessoa tão mais rica por me comover assim, e acredito tambem que são todos aqueles 50 ou 100 escudos que todos os dias deixava... que vão comprar o meu cantinho no céu.
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