Uma aventura, no telemarketing

Sabem como é quando durante dezenas de anos convivemos com os nosso vizinhos do lado quase como familia ao ponto de chamar de tios áqueles cujo a unica relação é morar no mesmo andar do mesmo prédio, e de prima á filha deles?

Pois bem, é assim com a minha prima Rita, e com o meu tio Zé e a minha Tia Dalila, parentesco não há, mas conheco-os desde que nasci, fui pá festa d'anos da Rita com 3 dias e na minha infância brinquei tanto com ela como com a minha irmã, de certo modo, a minha prima Rita é quase como que uma irmã.

Mas mais que isso, não só eles se tornam familia, como a familia deles se torna a nossa, a avó da Rita, é a Tia Elisa, que não é tia nenhuma, mas pa mim é e será sempre a minha tia Elisa que mora em S. Bartolomeu de Messines no Algarve. A Tia Elisa é uma pessoa já velhota, mas o amor em pessoa, sempre que me vê diz-me com aquele pronuncia tipica que só ela tem "Ahhhwwwww mê bél mucinho!" e derrete-me o coração sempre que a oiço dizer aquilo!

Curiosamente, é por causa da Tia Elisa (que ñ é minha tia, mas isso ñ importa) que a estória que vos vou contar a seguir teve para mim a importancia que teve.

Áh uns tempos atras resolvi arranjar qualquer coisa para fazer de manhã para ocupar o tempo que a minha namorada da altura tava na universidade e que pelo caminho ganhasse uns trocos. Tinha uma amiga minha que trabalhava aqui no Barreiro, bem perto da minha casa numa "coisa" de Telemarketing e que me disse que se eu quizesse me metia lá a bulir de manhã, e eu... tudo bem!

Lá fui eu po telemarketing, assim que lá chegava davam-me uma tira duma pagina de uma lista telefónica para que eu telefonasse para todos os nº a dár a tanga do costume a dizer que tinha ganho isto e aquilo e que para isso só tinha de ir levantar o prémio a tal sitio á hora que combinasse com eles...

... mentir não é o meu forte, mas até que sou bastante persuasivo e a coisa até que não corria mal e lá convencia um ou outro a ir buscar o suposto brinde que não existia. Confesso que não me agradava muito a ideia de andar a enganar pessoal, mas por outro lado era uma ou outra mentirinha inofensiva e o maximo que as pessoas tinham a perder era mesmo uma horinha ou duas do seu tempo e como tal, conseguia continuar a dormir á noite.

Na bela manhã do 3º dia de trabalho entro no "escritório", sim porque aquilo não era mais que um T2 com bancadas e telefones por todo o lado com o operadores sentados lado a lado, mas continuando, entro no "escritório" e a tira da lista telefónica que me dão tem escrito em todas as moradas "S. Bartolomeu de Messines", a cada chamada que fazia só pensava na minha Tia Elisa e pensava na possibilidade de o amor de pessoa que ela é estar a ser "enganada" por qualquer um dos meus colegas... e isso, apertava-me o coração.

Numa das ultimas chamadas que tinha a fazer, já pó fim da lista, atende-me uma senhora velhota com uma voz "de avozinha" sabem como é? A voz que associamos a todas aquelas avós super queridas de cabelo branco, sentadas em frente á lareira numa cadeira de baloiço na qual se ouve a verga a ranger, enquanto ela fáz tricot... essa mesmo! O prótótipo de avó! Era super querida, dizia-me com pena que não tinha como ir ao café onde eu lhe tinha dito que tinha a prenda á sua espera, dizia-me que era muito pobrezinha e que queria muito receber a prendinha que eu tinha pa ela, que ia a correr ao vizinho perguntar se a podia levar lá ao final da tarde quando ele saisse do trabalho e disse-me:

"- Eu vou ali num instantinho perguntar.lhe está bem, pode-me ligar daqui a uns minutos, mê bel mucinho?"

... Eu disse que sim, sabendo á partida que não lhe ia voltar a ligar, e desliguei. Aquele "mê bel mucinho" foi como que uma faca a espetar-se-me no coração, e só pensava na Tia Elisa... não fui capaz de voltar a pegar no auscultador para fazer outra chamada. Peguei nas minhas coisas e fui-me embora... nunca mais lá voltei.

E foi assim, a minha aventura no Telemarketing... devo ser a unica pessoa no mundo que pode dizer "O telemarketing fez de mim uma pessoa melhor!", simm, porque no momento em que bati a porta atrás de mim, fiquei orgulhoso da pessoa que sou, por não conseguir fazer mais aquilo.
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