O Tiago...

Há coisas, imagens, nomes, memórias, que independentemente de quanto tempo passe nunca se esquecem, acompanham-nos para sempre durante cada dia da nossa vida, podemos nem sequer ter consciencia delas a todas as horas, não digo algo em que estejamos sempre a pensar, digo antes algo que daqui a 10, 20 anos inda vou olhar, ou pensar e me vaí remeter para um sitio, um nome, uma cara, uma situação, uma lembrança... uma vida.

É isso tudo que o Tiago é, era, foi... uma vida, uma estória, uma lembrança, alguem que mesmo nunca chegando a conhecer muito bem, bem ou mesmo mal, não o conhecia de todo, suponho que sabia quem ele era de vista sempre que o via passar lá na escola á uns 7/8 anos atrás, e se eventualmente alguem me pergunta-se se sabia quem ele aquele rapaz eu dizia... "Sim, sei que se chama Tiago porque é da turma da minha irmã mais nova" e acho que isso era a unica coisa que sabia do Tiago Coelho.

Um dia como tantos outros, o Tiago e o Gil sairam da escola depois das aulas, tal como a minha irmã e seguiram pa casa, a Ines chegou a casa, o Tiago e o Gil não. Estavam no passeio á espera que o sinal luminoso ficasse verde para os peões para eles atravessarem a estrada, um carro despistou-se e foi embater contra um candeeiro, o candeeiro tombou e caiu em cima deles dos dois, o Tiago morreu.

Lembro-me que foi uma situaçao estranha aqui em casa, suponho que depois da morte do meu avô que era uma pessoa velhota, deve ter sido a 2ª vez na vida que tivemos de enfrentar a situação de perda, mas desta vez apesar de mais afastado, muito mais afastado, era um rapaz de 13 anos, da turma de 5º ano da minha irmã Inês que todos os dias fazia o mesmo caminho que ela, e que dum momento para o outro morreu, tão cedo, e isso fazia-nos muita confusão.

O mundo deve-se ter desmoronado á volta da mãe do Tiago, e ela, para que todos os colegas dele tivessem uma lembrança dele deu a cada um, um dos brinquedos do Tiago, e como tál, a Inês tambem teve um, um palhaço de madeira.

De tempos a tempos, sempre que a minhã mãe resolve dár uma razia ás coisas velhas e deitar tudo fora, tropeçamos no palhaço que era do Tiago. Muitas das vezes deitamos fora os nossos brinquedos d'infância, aqueles que em dada altura tanto nos disseram, e no entanto, não foi sequer posta a hipotese de se deitar fora o palhaço que tinha sido do Tiago, o colega da Inês.

Sempre que tropeçamos no palhaço, pensamos nele, e independentemente de quanto tempo passou desde que ele morreu, ou de á quanto tempo aquele palhaço vive no fundo duma das gavetas, esquecido, um relance é quanto basta para nos trazer de novo á memória o nome do Tiago, a cara, a estória... a vida.

Não... não posso dizer que o conheci, mas vou-me sempre lembrar, e custa-me sempre que penso nele.
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