Eternamente tu.

Quero-te morena, de cabelos castanho-escuro, compridos, muito compridos, que te desçam até meio das costas. Morena, de cabelos castanho-escuro escadeados, lisos, muito lisos, como se engomados, brilhantes, tão brilhantes e reluzentes que me firam a vista ao reflectirem o sol. Morena, de cabelos castanho-escuros, puxados e apanhados num rabo-de-cavalo enrolado em pompom, preso num pau de comida chinesa ou um lápis de carvão n.º 2 letalmente afiado.

Quero-te alta, mais baixa que eu, para que te olhe nos olhos quando saís com os vertiginosos stilletos que usas para correr. Alta, mais baixa que eu, para que consiga por o meu braço por cima dos teus ombros e esmagar-te ainda mais contra mim sempre que passeamos na rua. Alta, mais baixa que eu, para te engolir num abraço sempre que me apetecer apertar-te ao ponto em que nem electrões conseguem passar entre nós.

Quero-te de olhos castanhos, rasgados, leais, com óculos de massa preta, rectangulares, que usas para ler e escrever e te deixam ainda mais sexy. De olhos castanhos, rasgados, leais, espelho da tua alma, grandes e honestos que me dizem tudo quanto estás a pensar. De olhos castanhos, rasgados, leais, peixes verdes em tons de marron e avelã, que me focam assim que entro pela porta, e num instante se acendem num brilho que ilumina a sala.

Quero-te de vestido curto num dia de Inverno, cinzento, de chuva e vento, mais curto que a gabardina que vestes e faz fantasiar que é só o que trazes vestido. De vestido curto num dia de inverno, justo, que te deixa curto o passo e delicado o pisar do teu salto no trapézio imaginario que te guia. De vestido curto num dia de inverno, com o corte da moda e a cor da estação, sapatos, encharpe, chapéu e pochette a condizer, futilidades ás quais sou, nitidamente, indiferente.

Quero-te sentada numa explanada á beira Tejo, de perna cruzada deixando a descoberto dois dedos do remate das tuas meias de liga e electricidade estática. Sentada numa explanada á beira Tejo, água sem gás, natural, mergulhada num livro de capa dura a mordiscar a tampa duma caneta BIC que usas para escrever nas margens. Sentada numa explanada á beira Tejo, com a brisa a folhear-te as páginas e uma madeixa de cabelo sobre a testa, que tornas ao sítio num só gesto.

Quero-te brilhante, dotada, ver o tempo congelar enquanto, deliciado, te ouço trautear de memória uma das minhas músicas preferidas. Brilhante, dotada, clássica, jazz, indie, oldies, eighties e pop, thrillers, dramas, comedias, romance e sci-fi. Épica. Brilhante, dotada, perspicaz, capaz desenrolar o enredo e desvendar o final em dez minutos de filme, o nome da música pelo soar do primeiro acorde, mesmo quando ainda no meu cubo nenhuma face tem a mesma cor.

Quero-te dez minutos atrasada, pontualmente atrasada, tempo quanto baste para fantasiar sobre o que trazes vestido ou como apanhaste o cabelo. Pontualmente atrasada, deixar fermentar as saudades que tenho tuas, fomentar em mim a ânsia de estar contigo, amar e odiar-te em quantidades confusas ao ver-te entrar pela porta. Pontualmente atrasada, e ver-te chegar no derradeiro segundo antes de perder a paciência e me aperceber de que o mundo gira, mesmo quando não estás.

Quero-te articulada, sem rodeios, com a expressão adequada no momento certo, a palavra certa, no momento exacto. Articulada, sem rodeios, sem mas nem meio mas nas tuas meias palavras, directa, com todas as tuas segundas intenções. Articulada, sem rodeios, frontal e sucinta, temperamentalmente fria, mas sempre sincera, dizendo-me tudo aquilo que devo ou mereço saber, invariavelmente nas entrelinhas.

Quero-te humilde e perfeita, de sobrancelhas meticulosamente arranjadas em arcos perfeitos no seguimento do nariz. Humilde e perfeita, desenhada a régua e esquadro num estirador, colorida a aguarela com pinceladas em tons de amor, feita a computador. Humilde e perfeita, melhor que eu, tão melhor que eu, que obrigues a esforçar-me para te conseguir apanhar ou manter-me a par, trazeres á tona tudo o que tenho de bom e fazer alguém melhor de mim.

Quero-te aos poucos, um nada mais a cada vez, partir a sonhar com o próximo encontro e voltar para a minha cama vazia e outra noite em branco. Um nada mais a cada vez, com avanços meticulosos estudados, e soberbamente executados com uma precisão cirúrgica que me deixam, milimetricamente onde queres. Um nada mais a cada vez, e divagar quão longínquo está o dia, em que esgotamos tudo aquilo que temos para dar, e morrer ao teu lado, mil anos mais tarde, sem o ver chegar.

Quero-te distante, ocupada, emaranhada naquilo que fazes como ninguém que te rouba o tempo que acho meu por direito. Distante, ocupada que me digas que não, ligar-te a meio de uma semana de trabalho a implorar-te que voltes porque vivo melhor sem ar que sem ti. Distante, ocupada, sentir cada metro entre nós cravado na pele que me faz morrer aos poucos sempre que não estás, e que tragas contigo ao voltar, sentido ao meu mundo, razão de ser á minha vida e a promessa que nunca me vais deixar.

Quero-te por perto, tanto e a todas as horas, dizer que te amo e ouvir-te dizer que me amas também. Ao vivo e a cores, de carne e osso e em três dimensões. Tanto e a todas as horas, ter-te em meu redor e o teu perfume no ar que respiro, beijar os teus lábios de mel, fechar os olhos, inspirar todo o ar da Terra e suspirar de alívio, pousar a cabeça no teu regaço e sentir-me em casa. Tanto e a todas as horas, seres minha e eu teu, ficarmos os dois, sozinhos, sós, e não precisar de mais ninguém.
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