E um bocado de mim, morreu com ele.

A mãe do Fatty morreu, ainda fico com um nó na garganta sempre que digo isto em voz alta.

Tinha tido a melhor manhã/inicio de tarde da minha vida, vivia um daqueles momentos Zen em que só conseguia pensar na relva verde, no céu é azul e em como o mundo é lindo, e nisto o telefone toca...

- Oi Zé, é a Rute, a namorada do Fatty, estou a ligar para te dizer que a mãe do Nelson morreu ontem e achei que quizesses saber, tá? Um beijinho.

Foi esta a frase que virou o mundo do avesso, os passaros deixaram de cantar, o vento de embalar os ramos das arvores, o céu ficou nublado, o sol deixou de brilhar e a Terra de rodar, quase que era audivél as engrenhagens do planeta a cessar sua marcha.

Voltei para casa super abalado, a pensar no Fatty e em como ele se devia estar a sentir, ele morava sozinho com a mãe, e agora que ela ñ ia mais estar lá para ele, como é que a vida dele ia voltar a tomar o seu curso. Pensava nele, e sentia-me na obrigaçao de descer a rua até á casa dele e dizer.lhe qualquer coisa, dár.lhe um abraço, e mostrar.lhe que podia contar comigo, mas á medida que descia a rua, ia pensando no que lhe dizer e não me ocorria nada, até á parte em que pensei que era preferivel tocar á porta e ninguem atender, eu voltar para casa com a consciencia apaziguada de que tinha lá ido, e não ter de passar por aquele momento constrangedor para ambos, cheguei á porta dele, toquei como tantas vezes antes tinha feito, mas desta vez ninguem abriu. Pensei que devia ter mais cuidado com aquilo que desejava, ás vezes acabas por o conseguir, e depois de o teres ñ é nada daquilo que pensaste que ia ser. Fiquei com um peso enorme no peito por não ver o meu amigo, por não o abraçar e dizer que vái ficar tudo bem, naquele nanosegundo em que percebi que não estava ninguem em casa, tudo foi claro como agua, pouco importava que usasse as palavras certas ou apropriadas para a altura delicada, ñ precisava de lhe dizer nada, aliás, era isso tudo que eu lhe tinha de dizer, nada! Dizer-lhe que nada dakilo que eu pudesse dizer ou fazer, ia mudar alguma coisa, a mãe do Fatty tinha morrido, e por mais que custasse, a vida tem de continuar, e eu estava lá para ele, não sei palavras doces, mas tinha um ombro disponivel 24x7 para quando ele precisasse, e era só isso que lhe tinha de saber.

Voltei a subir a rua de volta a minha casa num passo ainda mais vagaroso que aquele com que a tinha descido, não ter visto o meu amigo ia-me tirar o sono esta noite, ñ lhe ter dito aquilo que agora sabia que lhe tinha de dizer, não lhe dizer aquilo que sabia que ele ia gostar de ouvir, estava-me a sufucar e a apertar-me o peito, e não podia ficar por aqui, um amigo meu precisava de mim, e eu ia procurar os 4 cantos da Terra até o encontrar. Meti-me no carro e corri todas as igrejas de que me lembrei, encontrei-o na 3ª em que entrei, e assim que entro pela porta, foi demasiado estranho para ser fidignamente descrito. Ele olhou para mim com os olhos inchados das lagrimas, e por um breve instante parecia-me que ia sorrir, um sorriso de quem vê um amigo de que tem saudades, de quem sente a falta, um sorriso de quem está contente por me ver, mas que no instante seguinte se lembra da razão de eu lá estar, e chora, e eu vejo.o chorar e choro com ele, e digo-lhe que não há nada que eu ou ele ou ninguem possa fazer, nada vai mudar isto, e nós só temos de ser fortes e carregarmo-nos ás costas uns aos outros até dias mais faceis, que acabam sempre por chegar.

Na manhã seguinte acordei cedo e vesti o fato preto, fui ao funeral, gostava de vos dizer que fui pela mãe do Fatty, mas ia estar a mentir, conhecia a senhora, sempre me tratou bem e foi querida para mim, mas ñ posso dizer que vou sentir a falta dela, não a conhecia assim tão bem, não pensava nela todos os dias, todas as semanas, nem sequer todos os anos. Estava lá pelo meu amigo, que estava a atravessar a pior altura da vida dele e precisava de mim por perto, não falei com o Fatty durante o funeral, fiquei sempre á distancia, mas ele sabia que eu estava lá, e isso era tudo quanto bastava.

Á saida, depois de todos aqueles que o cumprimentaram com um aperto de mão e disseram "Os meus sentimentos", engoli tudo aquilo que estava a sentir, fiz-me de forte e fui ter com o meu amigo, e dei-lhe um abraço, ele apertou-me com força e disse-me ao ouvido "Não posso chorar", ao que eu lhe respondi "Eu tambem não, mas vái ficar tudo bem."

A mãe do fatty morreu, ainda fico com um nó na garganta sempre que digo isto em voz alta, fico triste que a senhora tenha morrido, mas fico mais triste quando penso que um bocado do Fatty morreu com ela... e que um bocado de mim, morreu com ele.
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