Anatomia duma infidelidade

Fico surpreendido com a quantidade de programas que exploram a fraqueza do ser humano pelo sexo oposto, principalmente quando este se encontra numa relação na qual é suposto ser fiel ao parceiro, ele era um programa em horário nobre na SIC apresentado por um parvo e duas gémeas, ele é outro na TVI só com um apresentador parvo sem gémeas, gémeas ou não gémeas o que é certo é que semana após semana, ou dia após dia eles tem um novo caso de infidelidade para partilhar com toda a gente, aliado á conversa de café do outro dia onde falávamos sobre testes de paternidade e em como a estatísticas nos diziam que desde que analises de ADN passaram a provar a paternidade da criança se descobriu que 30% dos pais criava filhos ilegítimos, querendo com isto de dizer que anda meio mundo a enganar meio mundo, e suponho que haja uma explicação para isto, esta é a minha...

Paz de espirito, justiça, em suma, felicidade, não é a isso que tudo se resume? Que outro pode ser o objectivo da vida senão o de sermos o mais feliz possíveis no curto de espaço de tempo que nos é dado? E poderá haver verdadeira felicidade sem encontrar uma metade que nos complete? Pergunta retórica, acredito que não, mas suponho que só isso fosse tema mais que suficiente para todo um outro post, mas a questão é que toda a gente procura, ou será mais acertado dizer, quer encontrar alguém que a faça feliz, que a complete, que traga sentido para toda uma existência que grande parte do tempo parece "pointless", todos procuram o Mr. Right... mas quando é que se trocou o Mr. Right, pelo Mr. Right Now?

Todos nós temos bem fantasiado aquilo que sonhamos para nós, a mulher ou o homem dos nossos sonhos, um lista infinda de qualidades, uma outra bem curtinha dos defeitos que estamos dispostos a tolerar, cor do cabelo, cor dos olhos, altura, peso, e até um ou outro sinal estrategicamente sonhado que lhe dá aquele ar exótico. Sonhar é fácil, mas nem sempre o produto do nosso sonho vive do outro lado da rua, ou nos lembramos de conhecer desde que nos conhecemos a nós mesmo. A grande maioria das vezes não conhecemos ninguém como a pessoa que fantasiamos, provavelmente porque se até já tivéssemos conhecido já tínhamos tentado qualquer coisa, e ou tinha funcionado e éramos felizes da vida, ou pelo outro lado, não tinha dado em nada e a tinhas ultrapassado como ultrapassamos todos os amores que acabam por não dar certo, mas a grande maioria das vezes é uma imagem que foi concebida depois de uma e outra relação fracassada em que fomos espremendo aquilo que de melhor cada uma dessas pessoas tinha, aquilo que mais gostávamos, as características que nos faziam sorrir e dar-nos alento quando tudo o resto parecia cair aos bocados, foi relação acabada atrás de relação acabada que nos ajudaram a fazer a lista de compras para próxima relação.

E ai partimos nós, á procura de tudo aquilo que agora sabemos que queremos, 1001 qualidades que procuramos em cada um dos potenciais candidatos, e com o passar do tempo apercebemo-nos que era bem mais fácil sonhar que encontrar "the love of our life", e passam-se meses e começamos a ficar carentes, começamos a ponderar hipóteses que até então não o eram por estar tão longe do ideal sonhado, mas hell, até tem 10 ou 11 das 1001 características que tinha sonhado, e antes isso que nada, e começa-se a andar com alguém que está longe daquilo que queríamos para nós, not Miss ou Mr. Right, mas Miss ou Mr. Right Now, alguem que estava lá, e gostava de nós e que até certo ponto sabíamos que nos ia fazer felizes, e faz, por um breve período de tempo, até começarem a faltar a 991 condições sine qua non para que a relação aquela relação durásse para sempre, e a busca continua... não se acaba, porque antes vale um pássaro na mão que dois a voar e quem é que nos diz que vamos efectivamente encontrar alguém melhor? O problema é que não tem de se encontrar alguém melhor, au contraire, muitas das vezes acaba-se por trair para baixo em vez de para cima, por se encontrar alguém que tem em vez de 10 ou 11 ... somente 7 ou 8 caracteristicas das 1001 fundamentais, mas que são umas 7 ou 8 diferentes das 10 ou 11 que com quem se está actualmente tem, e nesta precisa altura, damos mais valor a essas 7 que ás outras 10, não por estas serem mais importantes que as outras todas, mas por estas não estarem a ser satisfeitas, e lá está, queremos muito uma coisa, mas quando a tempo apercebemo-nos que afinal o que precisamos é de outra coisa qualquer... e como tal, troca-se o que se tem por algo que á partida parece melhor mas que acaba por se revelar senão pior... mais do mesmo.

E é por isso que acho que relações acabam e começam com a frequência com que vejo, porque já ninguém namora com quem sonhou, namora com quem encontra enquanto procura algo melhor, e como tal, a procura continua na busca daquele/a com quem sonhámos, e de tempos a tempos aparece um "Fillet Mignon" que nos faz mandar o namorado pó espaço, "Fillet Mignon" não por ser aquilo que se sonhou, mas por ser diferente e por preencher uma necessidade que não era satisfeita, ludibriando-nos a pensar que seja o que for que tem para nos oferecer é melhor que aquilo que se tem, eventualmente o fillet mostra-se tão Roberto como outro Roberto qualquer and the search continues.

E lá atinamos com o Mr. Right Now depois de desistirmos da busca do Mr. Right que teimou em não aparecer, e conformamo-nos porque achamos que a ideia de encontrar uma só pessoa que preencha todas as necessidade que temos por satisfazer é utópico, e quem sabe um dia ele não aparece num cavalo branco e espada em punho e nos leva para o seu palácio nas nuvens. E passa 1 mês, passam 2, passam anos, casam, ficam 17 anos casados e chegam aos 40 anos, ainda á espera daquela pessoa especial que acabou por nunca chegar, e apercebemo-nos que estivemos metade da nossa vida á espera que a nossa vida começasse, e é então que se desenvolve uma crise de meia-idade, quarentões divorciam-se e trocam a carrinha familiar por um descapotável importado, vão para discotecas durante a semana com o fato que usaram para o trabalho, e encostam-se ao bar convencidíssimos que podem retomar a buscar onde a deixaram, aos 25 anos, mas agora tem 40, e o atraso é tão velho quanto o whisky que bebem. Está certo que nunca é tarde para ter um juventude feliz, mas á que ter consciência que certas coisas têm altura própria para serem vividas, e é contra-natura tentar vive-las fora de época.

Mas lá está, está tudo tão habituado a viver tal maneira que se esqueceram que se pode viver a vida duma maneira diferente, e acho que este foi o desenvolvimento natural que as relações levaram numa sociedade de consumo imediato que levou á morte evolutivo do Mr. Right e tornou o Mr. Right Now, the thing to be. Não é facil encontrar quem se sonhou, é possivel que seja uma missão a roçar o impossivel, dá trabalho mas chegado ao fim do dia... what is life if not the pursuit of a dream?!
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