Fácil de entender...

...no entanto difícil explicar o que partilhamos, embora "perfeição" teime a fazer pop.up na minha mente sempre que procuro a palavra adequada, no fundo acho que é isso, perfeito. Acho que somos o casal que toda a gente gostava de ser, pretensiosismo, but true!

Pontual, como sempre, bem... quase sempre, paro o carro á porta do prédio e espero que ela desça, já não demora muito agora, sei que ela me vê chegar pela janela, desligo o carro e baixo a musica "para a ouvir melhor", a mesma que vim a cantar pelo caminho, feliz, radiante por ir ter com ela. Ela desce, abre a porta e eu sinto o sangue a fervilhar em mim, entra, "senta-se ao meu lado, e o mundo pára..."

É agradavelmente estranho, significamos tudo aquilo que sabemos um para o outro mas cada saída é uma primeira vez, somos estranhos um para o outro e conhecemo-nos melhor que ninguém, sinto a obrigação de a fascinar a cada saída, cativar, deslumbrar, seduzir, tentar por todos os meios faze-la gostar de mim como se não gostasse ainda, tento a cada minuto juntos mostrar-lhe que sou digno dela e que vejo um futuro para nós, um futuro em que podíamos ser felizes juntos, como se ainda ñ fossemos, e já somos, mas isso ñ muda nada, não afasta ou atenua a constante motivação de fazer mais e melhor na esperança que isso a faça gostar ainda mais de mim, a tal obrigação... que nunca o é ou foi. Cada saída é a primeira.

Sabe tudo de mim mas cada vez que a vejo tenho uma vida de acontecimentos para a por ao corrente, raros são os silêncios constrangedores, as pausas dramáticas e incomodativas, momentos esses em nos olhamos nos olhos e nos apercebermos de que encontrámos alguém especial, a Tal. Temos tanto para contar um ao outro, cada dia que passou da minha vida antes dela aparecer que lhe quero relatar ao pormenor, os meus planos para hoje, para amanhã e para daqui a 10 anos, o que não gosto do mundo, aquilo que mudava ou o que deixava exactamente como está. Partilhamos teorias absurdas que me fascinam e fazem pensar, “Que obvio! Como é possível não ter pensado nisso antes?” Teorias tais como "Pombos, os ratos do ar" ou "A consciencialização do grilo do seu lugar na cadeia alimentar", levantamos duvidas existenciais do tipo "Sexo, barómetro duma relação?" ou "Farmacêutico, medico ao virar da esquina?" Falamos de música e carros, cinema e células estaminais, política, blogs e do sexo oposto, e o mais complicado é começar e acabar uma conversa quando as 1001 coisas que tenho para lhe contar querem todas ser ditas ao mesmo tempo.

O mundo é perfeito quando estamos juntos, e até a tristeza se anima quando juntos passamos por ela, pedintes abordam-me na rua com simpatia e pedem gentilmente uns trocados que eu não resisto a dar. Despeço-me e digo “Boa sorte”, eles respondem e dizem “Muito obrigado, e felicidades para os dois”, uns metros acima é um artista de rua que canta para uma esplanada até nós passarmos, e quando passamos, ele esquece a esplanada e canta só para nós uma musica que naquele instante só nós os 3 sabemos, e ajudamo-lo a cantar aquela canção de liberdade, de redenção. Continuamos a pé pela calçada por ruas estreitas e escuras, sem medos, até uma casa de chá que só nós conhecemos, está vazia como se queria e quase podia jurar que abriu naquela noite só para nos receber. Mais tarde passeamos de bar em bar, que são muito mais que meros bares, são lugares mágicos, uns no terraço de um prédio da baixa com vista para o castelo, outros com ambiente Feng Shui, outros com decoração do século passado, todos eles únicos á sua própria maneira, perguntamo-nos se seremos algum dia o tipo de pessoas que trocam aqueles lugares encantados pela vulgaridade do café da esquina, ambos sabemos que não. Voltamos de Ferry para casa, mas nada é só aquilo que aparenta ser quando estou com ela, o capot do carro que se transforma num banco de jardim onde nos sentamos a ver as luzes da ponte, que já não são luzes, são estrelas, e um grupo motards em Vespas a caminho da concentração de Faro, que já ñ são vespas mas borboletas que esvoaçam em nosso redor, tudo isto, no regresso a casa de ferry, que tambem já não é o ferry, mas o nosso secreto jardim.

Vamos a concertos, que nunca são só concertos, temos um brilho especial e como tal destacamo-nos dos demais chegando ao surreal de num concerto de Pedro Abrunhosa o próprio descer do placo, serpentear-se pela multidão até junto de nós e nos cumprimentar, dançamos abraçados de olhos fechados entre a multidão a 10 metros do piano de Mário Laginha. Vamos ver uma peça ao teatro, a vista do miradouro, um filme ao cinema, passear por jardins, perder dinheiro ao casino ou tomar o pequeno almoço á praia, e não bastasse estar com ela para que cada saída fosse só por si especial, ela arranja sempre maneira de torna cada encontro memorável, intenso... cinematográfico, e quando acho que não há mais espaço no meu coração para gostar dela, ele cresce. Beijamo-nos todas as vezes como se não nos víssemos á 10 anos, e abraçamo.nos como se nos despedíssemos por outro tantos. É perfeito, e raras são as vezes que utilizo esta palavra quando não é para descrever o que partilhamos.

Planeio meticulosamente cada saída, tenho tempo para isso, raramente saímos dias seguidos, não por não querer estar com ela, ou por ela não querer estar comigo, mas por acharmos que é a melhor maneira de gerir aquilo que temos, não morro d'amores por esta racionalização de saídas, quando o que me apetece é aparecer de surpresa de margaridas bordeaux em punho e raptá-la até á manha seguinte, ir busca-la ás 7 da manhã com o nascer do sol e passar o dia com ela, e pouco me importa se a deixei em casa ás 3 da noite anterior, não gosto de estar longe dela, mas não lhe digo nada, deixo-a pensar que concordo com esta racionalização para lhe dar a ideia de que ainda consigo viver sem ela, não consigo, e acho que ela se apercebe disso sempre que a olho em silencio quando ela entra no carro. Já não me lembro como era a minha vida antes dela.

É nas pequenas coisas, as tais pequenas coisas que me mostram que não há nada maior, é sempre nas pequenas coisas que me apercebo o quanto gosto dela, é quando meto os meus braços á volta dela e a levanto do chão e ela prende a perna á minha volta, quando a vejo com os pés em cima das baquects do meu carro e a acho um amor, quando me deito e viro para cima o lado da almofada que á tarde borrifou com o perfume dela, enquanto como as bolachas de canela que são as suas preferidas que deixou esquecidas no meu carro, quando me pede qualquer coisa impossível e termina a frase com “amor?” porque sabe que é toda a motivação que preciso, quando a maior duvida que tenho é se a prefiro ver com óculos ou lentes de contacto, quando acordo e tenho uma mensagem dela a desejar-me um bom dia, quando tira o cinto para se vir encostar a mim enquanto guio, ou quando estende a mão sua mão pequenina em cima da minha para ver a diferença. quando a deixo em casa, e me parte o coração vê-la partir... é enquanto escrevo para ela que sinto e sei que é tudo o que eu sempre quis.
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