... longe de ti

"Armação de Pêra, 26 de Julho de 2005

Começo a escrever por tópicos com uma caneta borrada de tinta que encontrei na 3ªcaveta da cómoda, não sei mesmo se escreve... bem agora já sei.

Não gosto de aqui estar, de não saber onde procurar uma caneta ou uma folha de linhas, onde escrever à falta do meu computador. As únicas folhas cá em casa são as da “Nova Gente” e as da “TV Guia” de á 2 meses atrás que os últimos hospedes deixaram esquecidas com bigodes desenhados nos famosos, ou um par de cornos na foto do dirigente do clube rival, ahh e as palavras cruzadas feitas, bem, meio feitas o que diz bastante sobre quem cá esteve e não arranja uma palavra de 5 letras para “terramoto” quando “sismo” não bate certo com a coluna vertical, era “Abalo” , vou escrever e deixar cá para o ano para eles puderem ver que os hospedes que se seguiram eram ligeiramente mais brilhantes que eles.

Mas não saber onde encontrar uma caneta ou procurar uma folha branca não são as únicas coisas que me incomodam, antes fossem. Enquanto escrevo, ouço na rua passar uma carrinha, a precisar de reparação por sinal, anunciando o “circo do futuro” com os seus cavalos, póneis, ursos, lamas, zebras e cabras da Malásia? Sempre imaginei que o circo do futuro dispensasse cabras da Malásia, enfim, isso também me incomoda.
Sempre que chego ao Algarve, depressa me lembro porque é eu odeio cá estar, odeio férias, onde gente de ferias , vir para uma casa que não é minha e nem sequer saber qual a posição correcta da chave na porta da entrada, sou uma estranho nesta casa, e venho para ela à 24 anos.

Está todo o mundo de férias, ninguém é daqui perto, dá para perceber pelas placas dos stands debaixo das matriculas dos carros que dizem onde foram vendidos : Rui Sousa – Comercio de Automóveis - Leiria, Stuttcar - Oeiras, e como estranhos que são, acham que podem fazer o que quiserem, cruzo-me com um “vizinho” no parque de estacionamento do prédio, mas não nos cumprimentamos, pouco importa a ideia com que ele fica de mim ou eu dele, daqui a uma semana, assim que a quinzena acabar e o mês for outro não lhe torno a por a vista em cima e como tal, dispensamos a cordialidade que se tem com o vizinho de cima. Saio do parque em direcção ao elevador, já está alguém no hall do prédio que também não me cumprimenta pois claro, está demasiado apressado a entrar no elevador para não o ter de partilhar comigo que não tem sequer tempo de dizer “Boa tarde”, assim pode só fazer de conta que não me viu ou que simplesmente não existo. Devia achar piada a esta genuinidade, honestidade, este politicamente incorrecto, mas não acho, acho sim que retracta as pessoas na sua forma mais pura, e não gosto daquilo que vejo!

Fui às compras com a minha avó Nita e por todo lado tenho mais amostras desta genuinidade incomodativa, nos corredores apertados do supermercado, carrinhos atolados de comida de plástico são deixados à toa interrompendo a passagem, e quando chamados a atenção, somo olhados com um ar que diz “Não quero saber, não me incomode, estou de férias” e confundem a calmaria e a pacatez típica de um período de descanso, com uma apatia exagerada, pouco natural, mas bastante desesperante e muito incomodativa. As pessoas arrastam-se pelos passeios, ou pior, pelas estradas com tal naturalidade que quando um carro está a 10 segundos à espera que estas se desviem, buzina, elas saltam em sobressalto com um horror estampado no rosto que se traduz em “Credo, um carro na estrada” como se fosse algo de inédito.

Acho que todo o conceito de férias está muito mal interpretado, está tão entranhada a ideia de não fazer nada, que é levada à letra. Sou da opinião que o objectivo de tirar umas férias é deixar de fazer aquilo que se faz todo o ano para se fazer algo novo ou diferente, e não necessariamente não se fazer nada. Suponho que esse fosse inicialmente o conceito, uma fuga à rotina para não deixar que esta se instale e descansar da vida que levamos o resto do ano, e não fazer rigorosamente nada, farta e cansa mais do que a vida que levamos dias após dia.

Gosto tão pouco de cá estar que até o belo me incomoda. Estou sentado à varanda a 20 metros da praia que começa do lado de lá da estrada seguida de um mar que se estende por tão vasta área como a do céu acabando os dois por se encontrar lá bem longe ao fundo, para comparar grandezas suponho, impossível de descortinar onde um acaba e o outro começa. As famílias felizes passeiam lado a lado de mãos dadas formando cordões humanos intransponíveis sem esquecer o típico frente-a-frente nos passeios quando nenhum dos machões que circulam em direcções oposta, acha que se deve desviar, uma especie muito determinada a do “machão algarvio”.

As noites são longas, mas nem por isso as manhãs são mais fáceis. Acordo com a sirene da lota do outro lado da rua quando os primeiros barcos voltam de uma noite de pesca, a horas tão obcenas que ainda nem o sol acordou, seguido do aviso irritante do tractor em marcha-atrás que os vai tirar da água. Mais tarde, quando o frenezim da lota acalma, são as colunas gigantescas da aula de step na praia que não me deixam dormir para lá das nove e me obrigam a levantar para enfrentar mais um enfadonho dia numa casa com zapping até á TVI and back cimentada a 350km's de ti, e isso é aquilo que mais me incomodam em tudo aquilo que me incomoda no Algarve... estár longe de ti."

Excerto de carta de José "R1sk3z" Risques para Andreia "Cumpl1ce" Pina.
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