Our beloved monsters and us...

O telemóvel tocou 20 minutos antes das 4 da manhã, um numero que eu não conheço e estranho que poderá ser que me telefona a hora tão tardias. Atendo e do outro lado uma voz tremula pergunta se eu sei quem fala, eu digo não faço sequer uma pequena ideia, e ele responde... "ia contigo para o Porto" e eu respondo, és o Eu!

O "Eu", era esse o nick do Nuno e assim que todos nós o chamávamos, "Eu", ele namorava com a Cristina na mesma altura em que eu namorava com a Marta, elas eram colegas, as meninas acabaram por apresentar uma á outra o "namorado de Lisboa" e foi assim que eu conheci o Eu. Era costume eu e o Eu metermo-nos no comboio ao fim da tarde de sexta feira e ir ter com elas para passar o fim-de-semana, e voltar juntos para baixo ao fim do dia de Domingo.

Ele dizia para eu parar de chorar quando o comboio vinha embora, eu dizia para ele parar de chorar quando o comboio vinha embora, e as nossos amores ficavam para trás. Ora bem, emocionalmente falando, tudo isto se passou aquilo que parece ser um milhão de anos atrás numa outra vida que já foi a minha, cronologicamente falando, foi á 7.

Depois de Marta, depois da Cristina, depois dessa minha outra vida chegar ao fim, poucas foram as vezes que vi o Eu, lembro-me de o encontrar uma única vez por acaso no Rockline e de o abraçar como se fosse o meu amigo de infancia que não via á 10 anos! Soube que ele era da turma duma amiga minha aqui do Barreiro, e sempre que a via pedia-lhe para mandar um abraço meu ao Eu, o Eu que tinha um ombro amigo sempre que o comboio partia de Campanhã.

Hoje ligou-me, á 20 minutos atrás, e a voz tremia como das vezes em que eu lhe dizia para não chorar por ela, que voltávamos pá semana, e que ia passar depressa! "Precisava de falar com alguém, lembrei-me de ti, já passamos tanta coisa juntos" e contou-me o que o perturbava. Típico de quem fazia 700km's de comboio todos os fins de semana por amor, típico dele, típico meu, incuráveis românticos eternamente apaixonados, o problema era uma rapariga, uma ex-namorada, um amor, O AMOR do Eu, com quem acabou á dois anos e de quem não consegue mais estar longe.

Lembro-me da altura em desci exactamente a mesma rua que ele desce agora, e da noite em que liguei a chorar para a Ana, só porque a precisava de ouvir, de falar com ela, desabafar. Hoje o Eu ligou para mim pelos mesmos motivos, precisava de desabafar, de falar com alguém, e eu tive a honra de ele me escolher a mim.

Acho engraçado como todos nós passamos pelo mesmo, traz-me de volta o texto da Lauryn Hill que postei uns dias atrás "I tell you, everybody is in the same mess", e estamos, eu tento todos os dias lidar com os meus fantasmas, os monstros de estimação que pairam sobre a minha vida, o Eu tenta lidar com eles da melhor maneira que sabe. Há pessoas que entram na nossa vida, e ficam, e não saiem mais, independentemente da quantidade de vidas que vivemos depois delas, elas voltam para assombrar a vida que temos com recordações das que já vivemos.

O equilibrar da balança são os amigos, esse que tambem entram e não saiem mais, mesmo quando a vida não nos deixa conviver tanto quanto queriamos, eles continuam lá a torcer por nós quando tudo parece irremediavelmente perdido para nos dizer que tudo vai acabar bem.
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