Segunda-Feira, Setembro 26... 2020

São quase 3 da manhã, estive até á pouco no escritório a preparar a reunião de amanhã. Volto a casa pela Vasco da Gama e o velocimetro passa um bocadinho os 200, mas o jazz que toca alto cá dentro abafa o vento lá fora, não há mais carros na ponte, só eu e mais 2 ou 3 camiões que ultrapasso num piscar de olhos, tou cansado e quero chegar a casa depressa.

Poucos minutos mais tarde, e uns tantos quilometros depois, ainda sem o ver, carrego no botão do comando que abre o portão de fora, e entro em casa, já devagar contorno a vivenda até ás traseira e paro o meu carro ao lado do dela no meu lado da garagem.

Não faz muito tempo que nos mudámos para cá, para a nossa modesta vivenda do lado errado do rio, onde é calmo e não acordamos com o barulho de buzinas. Tenho um emprestimo enorme pa pagar, mas 40 anos po fazer. Branca, ampla, estelizada com poucos moveis e nenhuns bibelots, sofisticada... como ela.

Ela, que já dorme, esperou por mim até á meia.noite e foi-se deitar. Dorme encostada á cabeceira ainda com os oculos de ler postos, um livro caido no regaço e a luz de cabeceira acessa, é um anjo. Eu marco a pagina em que ficou, e tiro-lhe o livro da mão, ela dá uma volta na cama deitando-se confortávelmente, aconchego-lhe os lençois dou.lhe "um beijo que ela confunde com um sonho", e volta a cair no sono.

É morena, ganha mais que eu e trabalha menos. Viaja a toda a hora para o estrangeiro para seminários e conferências, uma vez por outra eu apanho um charter e vou passar a noite com ela, e com isso, a noite custa menos a passar naquela cidade inóspita.

De vez em quando sou eu que tenho de ir um par de dias para fora, sou a primeira pessoa a sair da porta das chegadas, não tenho bagagem, só uma mala com o portatil, uns documentos e uma muda de roupa, assim que chego ao terminal vindo do avião telefono para a empresa para ficar a par dos ultimos dias, telefonema que dura até chegar ao pé dela.

Não a procuro no Aeroporto, sei sempre onde ela está, temos o "nosso sitio" onde esperamos um pelo outro, ao chegar ao pé dela digo para quem está do outro lado da linha "tenho de desligar, logo falamos" e só ela importa, só tenho olhos para ela.

Voltamos para casa, ela guia, acelera até dobro do limite de velocidade, tem pressa de chegar a casa, eu tambem, temos saudades um do outro, fazemos amor e dormimos até tarde. Eu só tenho de ir ao escritório de tarde, e fico a manhã a recuperar do jetlag, ela liga para a empresa e diz que vái chegar mais tarde... passamos a manhã juntos, deitados abraçados enquanto lhe conto da minha viajem e ela me diz o quanto gosta de mim enquanto decidimos o nome dos filhoes que vamos ter... um dia.

É fim-de-semana os meus amigos vêm cá passar o dia, juntamos-nos na garagem a restaurar um carro velho que comprei, logo vejo se depois o vendo ou junto ah Vespa, ao Mini e ao Carocha na minha coleção, tomamos banhos de sol e de piscina, almoçamos churrasco, jogamos Graceball e vimos o derby ao fim do dia numa televisão enorme espojados pelos sofás da sala,

É nestes dias que ela sái com as amigas, não se dá com as mulheres dos meus amigos, isto é ... dá, mas não são as amigas dela. É nestes dias que sou eu que tento em vão esperar acordado por ela. Ouço ao longe o ronco dos 6 cilindros do carro a chegar e o portão do lado dela da garagem abrir, e a dormir sorrio. Depois disso já só a sinto entrar na cama pé ante pé, sem fazer barulho para não me acordar. Eu não acordo, mas assim que a sinto por perto, instintivamente dou meia volta na cama, meto um braço por cima dela e continuo a dormir.

Na manhã seguinte acordo mais cedo com ela aninhada em mim, despacho-me para ir com eles passear as moto-quatro até ao mato, antes de sair de casa fico uns minutos a vê-la dormir, tem ainda vestigios da maquilhagem da noite anterior a contornar-lhe os olhos... é um anjo.
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