Accept certain inalienable truths

A caminho do Algarve para a passagem d'ano, num jeep demasiado pequeno para tanta gente e respectiva tralha, falavamos dos amores da nossa vida, o papel que eles desempenham na nossa vida.

É complicado falar disto, qualquer dissertação sobre resulta em duvida existencial atrás de duvida existencia num loop que parece não ter fim. O que é o "amor da nossa vida"? Quando é que nos consciencializamos dele? Podemos saber aos 20 anos quem é o amor da nossa vida, ainda com tanta vida pela frente, ou só quando esta tiver perto do fim é que somos capaz de olhar em retrospectiva e saber dizer com certeza quem foi que nos marcou mais que qualquer outra pessoa?! Sendo assim, posso ter já encontrado o amor da minha vida e não saber? Será aquele de que chamo "amor da minha vida" foi só o crush de adolescente e está ainda para chegar aquela que vire o meu mundo do avesso? Quantos "amores da nossa vida" se pode ter? Um? Dois? Nenhum? Vale a pena continuar a procurar depois de se ter perdido o amor da nossa vida, ou devemos apontar já a arma á cabeça?

O jeep ñ anda muito depressa e a auto-estrada do sul é longa, deu tempo para pensar nisso tudo. Pensamos tambem em quem eram os amores da nossa vida, e se seriamos nós o amor da vida de alguem. Eu sei como vejo os meus e sei o que é que os distingue de todas as outras, o sentimento de perda, mas porra, se é preciso perde-las para nos consciencializar-mos de tal, que hipoteses temos nós de ser felizes? Tenho uns quantos nomes na lista das minhas ex-namoradas, e com excepção de um ou outro caso, olho para todas elas com carinho, saudade, perfeitamente consciente do fim e confiante que foi a decisão certa a tomar, que aquilo que tinhamos era melhor ficar por ali, decisão essa que hoje me permite olhar para elas da maneira que olho, telefonar-lhes de tempos a tempos para saber se está tudo bem e saber que sobreviveu em nós qualquer coisa daquilo que em tempos nos juntou.

No meio de todos os nomes, há dois que vejo de maneira diferente, para as quais olho com a mesma saudade, mas com a vontade de que as coisas tivessem sido diferentes, aquelas de quem sinto a falta mais que as restantes, e é isso que distingue estes amores de todos os outros, o sentimento de perda, e o nome delas atravessado na garganta. Depois pensei se seria eu para alguem, aquilo que elas são para mim, se sou o amor da vida d'alguem, e não consegui pensar em ninguem, e fiquei triste. A principio por achar que está um bocado da vida a passar-me ao lado, em não ter ninguem que me veja da maneira que eu as vejo, depois, aliviado, por não despertar todos estes sentimentos nostalgicos em alguem a quem nao correspondi da maneira que queriam.

Hoje vi o amor da minha vida... com o amor da vida dela.

Que frase dolorosa de escrever, e de dolorosa constatação. De que podemos não ser o amor da vida, do amor da nossa vida. Ele já lá estava quando eu apareci, e continuou lá muito depois eu ir embora. Ainda hoje depois de todos estes anos, encontro-os, e vejo-a olha-lo com a mesma admiração que vejo em mim quando olho para ela, o brilho com que nunca olhou para mim, e não há nada que eu possa fazer sobre isso, e para alguem que acha que fazer tudo aquilo a que se propõe, isso custa.

Foi essa a lição que aprendi hoje, a aceitar certas verdades universais, "dois atomos de hidrogenio e um de oxigenio há.de dár sempre água" e que isso ñ vái mudar por mais titânicos que sejam os teus esforços para o contrariar, que há forças maiores que nós e para as quais não há solução, e não há nada que eu, tu ou ninguem possa fazer quanto a isso, a não ser aceitar e continuar... ou tentar.
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