Actualização do coração.

A mente é um lugar estranho, e para lá de estranho, é estranho o poder que exerce sobre lugares não tao estranhos, lugares que maior parte das vezes parecem reger-se por uma logica própria, distante de toda a racionalidade imposta por experiência de vida e conhecimento empírico acumulado com o passar dos anos. As tais razões que a razão desconhece.

As imagens que guardo de determinadas pessoas, lugares, situações, acompanham-me muito para lá, do prazo de validade daquilo que as originou, expirar. Complicado? Um bocado. O que quero dizer é que a imagem que guardamos das coisas persiste por muito mais tempo que as coisas em si. Percebido? Nem por isso. Isto é, aquilo que guardas em ti é intemporal, mesmo que aquilo que criou essa imagem só fizesse sentido naquele momento especifico. Se calhar é preferível um exemplo practico.

Imaginemos o nosso amor de adolescência com a miúda gira da nossa turma do preparatório, e em como e quando, tudo era um mar de rosas, vamos chama-lhe, hummmmm, "Sofia". Um namoro resumido aos beijinhos nos intervalos, sem uma única discussão ou desentendimento, eu oferecia-lhe "azedas" e ela escrevia-me bilhetinhos nas aulas, e era tudo perfeito livre de problemas ou complicações, sobretudo porque nós também não tínhamos problemas. Depois passamos para o secundário e a nossa zona de residência deixa-nos em escolas diferentes, e pufftt, acaba aquilo que nem sequer se tem bem a certeza de como foi que começou, provavelmente num jogo de bate-pé no canto refundido do recreio.

Daí em diante, e á medida que os anos passam o mundo acaba por se revelar num sitio bem mais complicado que aquilo que inicialmente nos parecia, e seguindo-lhe a tendência todos os nossos relacionamentos passam a ser também, bem mais complicado que aquele que se tinha com a "Sofia". E agora, mais velhos, quando a relação que se tem, sucumbe a todos os problemas e incompatibilidades entre os intervenientes, pensamos nela, na "Sofia", e em como tudo era bem mais simples quando ela estava por perto e em como os beijinhos no intervalo parecia resolver todos os problemas do planeta, ainda que os problemas na altura fossem ser o ultimo a ser escolhido quando se faziam as equipas de futebol, ou ter de ir sempre á baliza.

E é isso que fica, a "Sofia" e a associação automática a um mundo livre de problemas, um porto seguro onde nunca nada correu mal e onde nunca nos tivemos de preocupar com as parvoíces que agora nos atormentam. E então pensamos nela sempre que as coisas correm mal, e em como devíamos voltar um para o outro e para um mundo do qual nunca devíamos ter saído, o mundo das "azedas e dos recadinhos". Mas isso já não é quem a "Sofia" é, a "Sofia" agora é tão complexa quanto todas as outras miúdas, evoluímos e mudámos em direcção opostas e estamos hoje a anos-luz de quem fomos outrora, e somos tão ou mais incompatíveis, que todas as outras com quem acabamos e pensamos, "era tudo tão mais fácil se fossem todas como a Sofia", e mesmo sabendo lá no fundo que a nossa "Sofia" não existe mais, há-de sempre ser a "Sofia" para nós.

E ao fim de contas, é isso que é estranho, a consciência de tudo isso, e a consciência desta consciência, que ao fim do dia, não muda nada, nem me faz deixar de ver a "Sofia" como sempre a vi, o farol das noites escuras, para onde ir quando tudo falha, a tal imagem que ficou, que nem sequer é mais a dela, a sensação que nunca hei-de acabar sozinho, porque quando tudo o resto falhar, há-de lá estar a "Sofia" para me dar um beijo á troca de uma azeda e dizer que gosta de mim num papelinho passado em mão de carteira em carteira na aula de história, mesmo que eu saiba que as coisas nunca mais vão ser assim, e que a Sofia é alguém que eu já nem conheço. Mas não há actualização para o coração, e é esta a imagem que fica, muito depois daquilo que lhe deu origem acabar e deixar de fazer sentido, e isso é estranho.

"Going there feels wrong but the past is so much fun
and all memories are sweeter cause there gone
I always want to turn around"
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