O amor da minha vida, de hoje.

Saio a pressa de casa e desço a rua num passo acelerado que me faz passar o torniquete da estacão mesmo antes de no painel luminoso aparecer "Fim de Embarque, próxima partida: 07.20" percorro a plataforma até ao "Fernando Pessoa" e o sinal sonoro que se segue diz-me que sou o ultimo a entrar no barco com destino a Lisboa.

Procuro um lugar na zona do costume e encontro-te a ti, com um lugar a minha espera, como que se soubesses que eu ia garantidamente aparecer. Peco-te licença e ocupo o meu lugar ao teu lado.

És o amor da minha vida durante os próximos 15 minutos.

Não sei o teu nome, é preferível assim, provavelmente tens um nome banalíssimo que nada me diz como “Joana”, “Sónia” ou até mesmo “Vanessa”, e enquanto não souber qual é, vais ter o nome que eu quiser que tenhas, vais ser a minha “Carolina” ou “Isabel”. Provavelmente tens um nome tão banal quanto tu, que és despromovida de interesse ou marca distinta que me cative, ouves musica pop. e gostas de comedias românticas. Mas enquanto nada souber de ti, vais ouvir aquilo que eu oiço, gostar dos filmes que eu gosto. Vou sonhar que naquele mesmo barco, noutro dia qualquer, ias adormecer na viagem e deixar cair a tua cabeça sobre o meu ombro, aninhares-te de mim e ter um daqueles sonhos que dá vontade de nunca mais acordar. Que o saltar das ondas criadas por outro barco com o qual no cruzamos no Tejo, que dão aquela sensação de vazio cá dentro, aquele frio na barriga igual ao que se tem quando nos apaixonamos, te ia fazer agarrar a minha mão, para nunca mais a largares.

Chegamos a Lisboa, e separamo-nos tão naturalmente como nos encontramos, chegaste e desapareceste sem que nada soubesse soube ti, e isso deixou-me fazer de ti aquilo que não es, perfeita, porque nunca chegaste a ser tu, mas só, tudo aquilo que eu queria que tu fosses, e como tal, foste o amor da minha vida pelo breve tempo que durou.

Vou até a paragem e espero impacientemente pelo 28 que todos os dias teima em não chegar, quando chega, vem aos pares, e eu escolho o detrás por estar tão menos lotado. Entro e vejo-te sentada de perna cruzada e livro na mão, e és o amor da minha vida de agora, ou pelo menos pela duração do percurso que separa a Praça do Comercio do Cais do Sodré, mas pouco importa, vou-te amar como nunca antes amei ninguém. Vou imaginar que foi o destino e o alinhamento dos astros que me fez entrar no segundo autocarro em vez do primeiro, que toda a historia do Humanidade foi um simples pretexto para nos trazer aos dois até aqui, e que agora o mundo faz sentido.

Vou-te chamar “Margarida”, ou “Beatriz”, fazer de conta que moramos na mesma rua e que sensivelmente a mesma hora de todos os outros dias me cruzava contigo a porta do mesmo prédio, imaginar que nos conhecemos no dia em que uma bátega de água se abateu sobre nós e juntos nos abrigámos na entrada daquele prédio, que sorrimos um para o outro, e que deste então a vida nunca nos deixou de sorrir. Sonhar que sou o teu vizinho de baixo para nos encontrarmos no elevador pela manhã e inebriar-me do teu perfume, fantasiar que te ouço andar descalça pela casa no andar de cima num sábado a tarde a trautear a minha canção favorita.

E chega o Cais do Sodré, e tu sais na paragem e da minha vida, nunca mais de torno a ver, e ainda bem, porque enquanto não fores tu, és quem sempre sonhei para mim, porque não existes, és eu, e tudo aquilo que eu quero que tu sejas, longe daquilo que realmente és, da eventual desilusão que inevitavelmente ias ser. Nunca serás mais perfeita que agora, nunca te hei-de ver mais divinal que hoje, nunca nada será melhor que o nada que tivemos juntos dentro mim naquele instante, porque enquanto esse instante durou, foi para sempre. Foste um sonho, e não há realidade que chegue aos calcanhares do que eu sonho.

"When you see something from afar, you develop a fantasy. But when you see it up close, 9 times out of 10, you wish you hadn't."
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