Viver é um jogo estranho...

É estranho em como há posts nos quais eu passo meses a pensar, a tentar descobrir uma maneira de conseguir por por escrito the inner workings of my twisted mind , outros em que o tempo que passa desde que penso neles pela 1ª vez até os publicar aqui, está unicamente relacionado com a velocidade com que os consigo dactilografar. Este foi mais ou menos assim.

No outro dia, numa das nossas tardes de "fórróbódó & deboche" discutiamos a maneira em que os teus objectivos de vida ditam a tua felicidade. Isto posto assim parece bastante linear, mas não é nada simples se pensarmos bem nisso. Concluimos que aquilo que mais directamente estava ligado a quão felizes vamos ser, é a nossa ambição, eu explico.

Vamos buscar o exemplo classico das relações. Se eu tiver um ideal de mulher definido, não me vou contentar com ninguem que ñ vá de encontro ao meu ideal de mulher. Se a minha relação de sonho tiver como base o "Antes do Anoitecer" é obvio que não me sinto realizado numa relação que consiste em idas ao café ou noites passadas em casa a ver a novela. Por outro lado, se a unica coisa que eu quero é alguem que me ame e me estime, é tudo muito mais facil, e se o tal café e a mesma novela forem o para mim o serão ideal, perfeito.

E conseguem encontrar analogias a isto em todos os campos da vossa vida. Se o carro dos meus sonhos for um Fiat, eu que por acaso até tenho um Fiat, tenho tudo para ser uma pessoa realizada. Por outro lado se o carro dos meus sonhos for um Ferrari, well, por mais que eu goste do meu Fiat, ele há-de saber sempre a pouco. Se eu me contentar com um trabalho das 9 ás 5 a atender telefones para o resto da minha vida, optimo, não é complicado arranjar um trabalho que me encha as medidas, agora se os meus planos passarem por um Nobel, um Pulitzer ou um Oscar, bem, a coisa complica-se. Eu tenho a casa dos meus sonhos arquitectada dentro de mim, sei exactamente como a quero, onde a quero... até já pensei numa cor pó quarto dos nossos filhos... E agora? Se não a conseguir construir? Vou estár sempre amarrado á casa que queria e não consegui ter? Tinha sido muito mais facil nunca ter pensado nisso antes.

Ou seja, se não quiseres nada, o pouco que tenhas, faz-te feliz! Se quiseres o mundo inteiro, podes até ter um continentezito que há-de sempre saber pouco. Mas tenho a sensação que nada disto é algo de novo para ninguem.

Mas então é facilimo ser feliz, é só não querer nada e dár graças por seja o que for que aparece, o que matematicamente falando se traduz em qualquer coisa como Low Standards + No Expectations = Extreme Happiness. O problema é que as coisas não funcionam assim, a estrada da ambição é de sentido unico, e a subir. No "Sit down" dos James há uma frase que diz "If I hadn’t seen such riches I could live with being poor" e isso basicamente resume muito daquilo que aqui foi dito. Se eu viver na Coreia do Norte, sou feliz com o nada que tenho, se eu sair da Coreia do Norte pá Coreia do Sul, nunca mais me contento com o que tinha na Coreia do Norte logo, nunca lá posso voltar porque voltar implica contentar-me com o que tenho depois de ver tudo o que eu não tenho.

E agora a parte engraçada. Toda a gente minimamente consciente do mundo que os rodeia vos diz que estar feliz com o que se tem porque não se conhece mais, não é viver. Uma das minha quotes preferidas diz "Don't be afraid that your life will end, be afraid that it will never begin", e teem razão, viver-se ignorantemente feliz não é viver, mas eles hão-de ser muito mais realizados, isto é felizes, que "nós" que queremos mudar o mundo e não vamos conseguir. Eu acho que sofro disto a um nivel extremo, tanto que não há dia que passe que eu não gostava de ser menos que aquilo que sou, mais ignorante e consequentemente mais feliz, porque, verdade seja dita viver sabendo que nunca se há-de conseguir fazer aquilo a que se aspira, ficando sempre aquém daquilo que sonhamos para nós, torna este "viver" tão "viver" como o dos outros. E tudo isto me atingiu enquanto ouvia o "A Gente não lê" do Rui Veloso e ele cantava, "a gente morre logo ao nascer" porque no fundo é isso mesmo, viver é uma lose/lose situation porque ou não vivemos porque não sabemos o que é a vida nem tudo aquilo que estamos a perder, ou não vivemos porque temos tal consciencia do mundo que percebemos o quanto dele nos passa ao lado, e perdemos seja de que maneira for.

Ah umas semanas atrás passou no Hollywood um fime de 1983 chamado "War Games - Jogos de Guerra" em que um hacker (Matthew Broderick) entrava no super-computador de defesa dos Estados Unidos, um computador com inteligencia-artificial capaz de aprender com os seus erros, convencido que estava a entra numa empresa de jogos de computador, e pede para jogar um jogo chamado "Global Termonuclear War" que era na realidade um plano de ataque ao principal rival dos EUA, a URSS. O computador ficou de tal modo empenhado no jogo, que não deixou que ninguem o desligasse enquanto ele não ganhasse, que passava por qualquer coisa como, apagar a URSS do mapa. Eles acabaram por conseguir faze-lo parar pendido-lhe para jogar outro jogo, o jogo do galo. O computador eventualmente percebeu que há jogos que quando bem jogados, ninguem ganha, e depois de perceber isto cancelou a "Global Termonuclear War" e disse "Strange game. The only winning move is not to play" e viver acabar por ser um bocado assim, uma vez que perdemos sempre... the only winning move is not to play.

Annie Hall

There's an old joke - um... two elderly women are at a Catskill mountain resort, and one of 'em says, "Boy, the food at this place is really terrible." The other one says, "Yeah, I know; and such small portions." Well, that's essentially how I feel about life - full of loneliness, and misery, and suffering, and unhappiness, and it's all over much too quickly. The... the other important joke, for me, is one that's usually attributed to Groucho Marx; but, I think it appears originally in Freud's "Wit and Its Relation to the Unconscious," and it goes like this - I'm paraphrasing - um, "I would never want to belong to any club that would have someone like me for a member." That's the key joke of my adult life, in terms of my relationships with women.

You know, lately the strangest things have been going through my mind, 'cause I turned forty, and I guess I'm going through a life crisis or something, I don't know. I, ... and I'm not worried about aging. I'm not one o' those characters, you know. Although I'm balding slightly on top, that's about the worst you can say about me. I, uh, I think I'm gonna get better as I get older, you know? I think I'm gonna be the balding virile type, you know, as opposed to say the, uh, distinguished gray? Unless I'm neither of those two. Unless I'm one of those guys with saliva dribbling out of his mouth who wanders into a cafeteria with a shopping bag screaming about socialism.

Annie and I broke up. And I still can't get my mind around that. You know, I keep sifting the pieces of the relationship through my mind, and examining my life and trying to figure out where did the screwup come, you know? A year ago, we were in love... you know?

Seems Like Old Times

1º Post... 12 minutos depois do dia 26 de Dezembro ter começado, o Natal acabou e embora o "Boas Festas" prevaleça por mais uns dias, com a ultima badalada da meia-noite o espirito natalício esvaiu-se de dentro de mim com a promessa dum regresso daqui a uma dúzia de meses.

Podia-vos falar das prendas, daquilo que dei e recebi, mas nada disso interessa agora, conta a intenção, o esforço, o sacrifício... Naquele infinito numero de familiares em que a maioria nada nos diz... entre a centena de tias das quais metade nunca metemos a vista em cima... mas quando toca á metade que conhecemos, todos temos uma predilecta, a mim é a minha Tia Alice... é uma das 3 irmãs das minha avó, a mais nova, apesar de ter uns trocos a mais que o triplo da minha idade. Não é rica, longe disso, e mesmo sendo possível contar pelos dedos de uma mão as vezes que a vejo durante o ano, todos os natais me oferece 5€ dentro de um envelope, e á medida que mo dá para a mão, olha-me com o mais ternurento dos olhares como quem me diz em segredo "movia o céu e a terra para te dar tudo aquilo que quisesses... mas como não é possível, vou dando tudo o que posso." e diz-me com pena "Não é muito" sem nunca suspeitar que todos os natais ... me dá a mais preciosa de todas as prendas.

Espero que o vosso natal tenha sido tão preenchido como o meu, e que tenham todos uma "Tia Alice" que vos encha o coração.


E foi assim que este blog começou. Entre aquela primeira frase e esta, passaram exactamente 3 anos e 50 minutos, e muita coisa aconteceu nestes 3 anos e 50 minutos, quero dizer, mais nos 3 anos, nestes ultimos 50 minutos não se passou assim nada de extraordinário.

Tinha 22 anos quando este blog começou, e é giro, e ao mesmo tempo assustador ver como mudei. Eu digo aos meus colegas de 18 anos que nos 7 anos de idade que nos separam, temos um milhão de anos de diferença. É impossivel tentar explicar este periodo de transição para a idade adulta, tem de se passar por ele para o compreender, mas eu vou tentar de qualquer maneira.

Aos 18 ou aos 19, até mesmo com 20 anos estava certo de como queria que as coisas fossem, lembro-me duma frase da minha musica preferida dos Pearl Jam (Elderly Woman Sitting Behing The Counter in a Small Town) em que o Eddie Vedder dizia "I change by not changing at all" e era basicamente assim que eu queria que as coisas fossem, não queria mudar nunca, achava que mudar, crescer, tornar-me adulto me deixava um passinho mais perto de morrer, e eu sempre gostei demais de estar vivo para deixar que isso acontecesse. Mas os anos passam e tu vais aprendendo umas coisas, quer queiras quer não, vais sabendo cada vez melhor aquilo que queres para ti. Aos 18 quanto te perguntam o que é que ouves, dizes "eu gosto de tudo" aos 20 dizes "de tudo desde que não tenha "metal" no nome" aos 22 já dizes que gostas de "Rock" e de "Oldies" e aos 25 dizes o nome das tuas 3 ou 4 bandas preferidas, o mesmo com filmes. Aos 18 anos achas que vais ter tempo para tudo, que tens uma vida inteira pela frente, 7 anos mais tarde, achas que desperdicas-te um 1/3 da tua vida a decidir o que é que havias de fazer e acabaste por não fazer nada. Apercebes-te então que a vida é demasiado curta e passa demasiado depressa para que dê para fazer metade das coisas que querias, que já é mais tarde que aquilo que pensavas (It's later than you think). No outro dia ouvia uma entrevista ao João Vieira Pinto, esse icone do futebol nacional, agora com 35 anos e a jogar no Braga, em que ele dizia "já não tenho a preparação fisica para correr os 90 minutos e ir ás bolas todas, mas agora tb já sei pra quais é que vale a pena correr". Pois é, nunca pensei vir a aprender uma "lição de vida" numa flash interview da SportTv a um futebolista acabado, fascinante, e isso é outra das coisas que aprendes, que toda a gente tem alguma coisa para te ensinar, ainda que só por oposição aquilo que realmente queres para ti. Mas é isso tudo e o João Pinto tinha razão, apercebes-te que não vais escalar o Everest, ou ganhar uma medala olimpica, dár a volta ao mundo num balão de ár quente ou ir á lua, mas por essa altura tambem já sabes quais os sonhos pelos quais vale a pena batalhar, e esperas que daqui a 70 anos olhes para trás e não te arrependas de ter deixado nada por fazer.

"Undestand that friends come and go, but for a precious few you should hold on". Os amigos são um campo complicado de discernir. Não são familia embora os vejamos como tal, mas há algo muito importante que os distingue, a familia não se escolhe, os amigos sim. Não toleres m*rd*s de ninguem, muito menos de um amigo. Há algo de verdade na frase de lá de cima, há amigos que vale a pena manter, mas apercebeste que aqueles que vale a pena manter, são os mesmos que nunca correste o risco de perder, os mais low maintenance. São eles que te vão acompanhar por grande parte da tua vida, e já que ao contrario da familia os podes escolher, escolhe-os bem. Não te preocupes se ao longo da tua vida já tiveste 10 grupos de amigos diferentes, por cada um desses grupos d'amigos que tiveste e do qual te afastas-te houve sempre alguem que ficou, e quando tiveres 50 anos há.de ser com os que foram sobrevivendo ao passar dos anos e dos "grupos de amigos" que váis á caça, ou á pesca, ou a um clube de strip, ou seja o que for que um grupo de velhos de 50 anos faz. Uma amizade que precise de ser preservada, não o é, ou sobrevive sozinha ou não merece a pena.

E se os amigos é um grupo complicado, o dos amores é impossivel de perceber. Não as percebia aos 18, ainda não percebo aos 25, e acho que o meu vizinho de 90 anos do 8º andar sabe tanto como eu sobre elas. Aquilo que de mais importante aprendi neste 3 anos, foi de que tambem nós temos um relogio biologico. Não me preocupo com a menopausa, mas preocupo-me com os filhos que hei-de ter. Há pessoas na minha vida a quem eu sei que devo grande parte daquilo que sou hoje, duas avós de 75 e 80 anos que practicamente me criaram, uma bisavó de 92, pessoas que eu sei que por as ter tido na minha vida fizeram de mim alguem melhor, e quero que os meus filhos as tenham na vida deles tambem, e isso limita-te um bocado as contas porque por muito que eu queira acreditar no contrario, elas não vão viver para sempre. Que, e eu já falei disto no "One Last Lesson" e no "Actualização do Coração" aos 18 anos achas que hão-de aparecer 1001 miudas que te vão fazer feliz, que cada uma tem uma particularidade que tu adoras e que é absurdo achar que vais encontrar uma unica pessoa que reuna tudo aquilo que tu procuras. Com o passar dos anos, e á medida que o teu coração se vai partido e recuperando, consegues ver quais aquelas pelas quais ele nunca sarou. Com o passar dos anos tambem vái sendo mais dificil deixares alguem magoar-te, principalmente porque te entregas menos, a menos gente, com mais cuidado, com mais certezas, sobretudo por uma questão de sobrevivência.

A vida é muito mais complicada passados estes 3 anos que era quando este blog começou, se calhar a culpa é do blog, mas eu acho que não.

Nestes 3 anos e 50 minutos, o nosso planetazinho deu 3 voltas ao Sol, o meu priminho Miguel que nasceu depois deste blog começar, já á muito que anda, para o ouvido treinado que sabe que "ápum" é água e "têm têm" tanto pode ser "Sim" como "Pode", "Dá", "Vái", "Faz", ate se pode dizer que já fala. Tive amigos que morreram, tive outros que só morreram para mim, em contra-partida ganhei uns novos pelo caminho, a universidade. Este blog já viu, por duas vezes, o dono de coração partido e por duas vezes o viu recuperar e por saber sempre por quem suspirar, por continuar a escrever, and well, se vc's ainda estão a ler isto passado todo este tempo, é porque eu devo andar a fazer qualquer coisa bem. Fica a promessa que se voces estiverem ai por daqui a mais 3 anos... eu tambem vou estár por cá.

P.S. - e daí, não devo ter mudado assim tanto... porque a prenda da minha Tia Alice, continua a ser a minha preferida.

O embrulho dos sonhos

O Natal é de tal modo maravilhoso, que até o lixo tem lacinhos.

Feliz Natal, Isabel.

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas."

Também eu sou ridículo em maneiras que só eu sei. Também não tenho o teu numero, apaguei-o da lista do telemóvel porque as vezes tento dizer a mim mesmo que nunca mais te vou dizer nada, mas não o consigo esquecer, e pior que ñ esquecer o teu numero, é não esquecer a maneira como mo ditaste. Sempre achei piada em ver como as pessoas dissecam o seu número de telemóvel com o objectivo de o tornar mais memorável, "96 653 45 54" ou "93 34 34 593" ou mesmo "91 1 13 14 15", podias ter dito o teu intercalado com artigos e alíneas do código civil que não tinha mudado nada, tenho-o como que tatuado na mente e nada nem ninguém o consegue apagar, tal como te tenho a ti.

Este natal não te ia dizer nada, se tivesse coragem, nem na passagem d'ano, mas não tinha a certeza se conseguia. Podia ser que assim pensasses que eu já ñ pensava em ti com pensava dantes, como ainda penso, porque afinal de contas, há coisas que mudam, mas pelos vitos, também há coisas que não.

Vou inutilmente tentando resistir-te, a última vez que te vi e falámos, disse-te que me tinha de ir embora, mas era mentira, queria só ver se tinha em mim a força para te deixar para trás, e tive, mas doeu tanto, que passado uns minutos voltei para onde estavas, mas já não te vi. Gaguejo quando falamos ao telefone, arrependo-me de te mandar uma mensagem no instante em que aparece "Enviada", escrevo-te mails a dizer mais que aquilo que devia. Há tanto que te quero dizer e não consigo, por seres tu e tudo aquilo que és para mim. E fazes-me mal, mas o mal que me fazes sabe tão bem.

És tema recorrente das minhas conversas, dos meus posts, dos meus devaneios metafísicos, ás vezes penso numa vida sem ti. Se só te quero porque não te tenho, e o que é que mudava se tivesse. Se não fosses tu se esperava e sonhava por uma outra Isabel. Se têm todos, tal como eu, uma Isabel na sua vida, padrão pelo qual tentamos nivelar todas as outras e razão do voo picado que foram as minhas relações desde então. Se fomos concebidos para estar sempre insatisfeitos, sonhando com quêm não temos que hipotese tenho de ser feliz em oposição a acabar sozinho com alguem que não tu? O Fábio perguntava se voltasse atras, se sofria da mesma pressão que nos matou da primeira vez, e eu disse que sim. Então para quê tentar? Porque tanto quanto eu quero saber, o sol nasce e poe-se contigo e aconteça o que acontecer, agora sei que dói tão mais viver sem ti que o contrario.

Ridículo como sou em tudo quanto toca a ti, tenho os meus pretextos, tambem eles ridículos, para matar saudades tuas, o natal, a passagem de ano, mas de longe, o mais ridículo de todos é o teu aniversário. É claro que sei o dia, credo, até sei a hora, mas faço de conta que não. Ligo-te na véspera com que por engano, e assim falo contigo duas vezes, ridículo bem sei, mas como diz Álvaro de Campos, se não fosse ridículo...

... e sim, eu sei que o amor já lá não mora, mas abrando sempre que passo á tua porta.

So tired of overthinking

Já alguma vez ouviram uma musica num filme que vieram a adorar, e deixam de saber se gostam da musica pela musica, ou se gostam da musica porque vos remete pó filme que adoram?

Acontece-me o mesmo com nomes, não sei se gosto dos nomes pelos nomes, ou porque me fazem lembrar alguém que eu gosto. Acontece-me isso com o teu, teimo em dizer que é o meu preferido e não sei se é dele que eu gosto, ou de ti. Mentalizei-me que há-de ser o nome que hei-de dar a minha filha, mas acho que não é com o teu nome a correr pela casa e a brincar ás bonecas que sou capaz de te esquecer.

Passa-se o mesmo com ela. Não sei se gosto dela por ela, ou se gosto dela por ti. Tem o teu nome, a tua cor de cabelo, o teu ar descontraído. Ás vezes penso se não conseguia ser feliz com ela imaginando que o era contigo. Abraça-la, fechar os olhos, chama-la pelo teu nome e sonhar que és tu. Quem sabe sonhando que chegue, ela não se transforma em ti e sou feliz contigo, mesmo estando com ela. Por certo ama-la-ia mais fingindo seres tu, que a ela só por ela. Se calhar nem gosto dela, mas gosto tanto de ti que não consigo não gostar dela, pelo tanto que ela tem de ti. Podia dormir ao lado dela, e acordar ao teu lado outra vez, mas não consigo trai-la contigo, porque era trair-te com ela, ainda que sejas as duas, sempre que estamos os dois.

Duvida existencial nº 2

Curioso como numa vida com uma duração média de 2 biliões 522 milhões e 880 mil segundos, instantes de 3 a 5 a podem mudar por completo.

So many questions so little answers.

O Miguel que eu gosto mais.

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim?

Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram «em diálogo». O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do «tá bem, tudo bem», tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desequilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso «dá lá um jeitinho» sentimental. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, fachada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A «vidinha» é uma conveniência assassina.

O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente.

O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.

Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

"Em nome do Amor Puro" de Miguel Esteves Cardosos em "Último Volume"

O Miguel que eu gosto menos.

"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbodas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo.

Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, comtemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo. Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.

E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.

E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.

Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu pra sempre."

Miguel Sousa Tavares em "Não Te Deixarei Morrer David Crocket"
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