Viver é um jogo estranho...

É estranho em como há posts nos quais eu passo meses a pensar, a tentar descobrir uma maneira de conseguir por por escrito the inner workings of my twisted mind , outros em que o tempo que passa desde que penso neles pela 1ª vez até os publicar aqui, está unicamente relacionado com a velocidade com que os consigo dactilografar. Este foi mais ou menos assim.

No outro dia, numa das nossas tardes de "fórróbódó & deboche" discutiamos a maneira em que os teus objectivos de vida ditam a tua felicidade. Isto posto assim parece bastante linear, mas não é nada simples se pensarmos bem nisso. Concluimos que aquilo que mais directamente estava ligado a quão felizes vamos ser, é a nossa ambição, eu explico.

Vamos buscar o exemplo classico das relações. Se eu tiver um ideal de mulher definido, não me vou contentar com ninguem que ñ vá de encontro ao meu ideal de mulher. Se a minha relação de sonho tiver como base o "Antes do Anoitecer" é obvio que não me sinto realizado numa relação que consiste em idas ao café ou noites passadas em casa a ver a novela. Por outro lado, se a unica coisa que eu quero é alguem que me ame e me estime, é tudo muito mais facil, e se o tal café e a mesma novela forem o para mim o serão ideal, perfeito.

E conseguem encontrar analogias a isto em todos os campos da vossa vida. Se o carro dos meus sonhos for um Fiat, eu que por acaso até tenho um Fiat, tenho tudo para ser uma pessoa realizada. Por outro lado se o carro dos meus sonhos for um Ferrari, well, por mais que eu goste do meu Fiat, ele há-de saber sempre a pouco. Se eu me contentar com um trabalho das 9 ás 5 a atender telefones para o resto da minha vida, optimo, não é complicado arranjar um trabalho que me encha as medidas, agora se os meus planos passarem por um Nobel, um Pulitzer ou um Oscar, bem, a coisa complica-se. Eu tenho a casa dos meus sonhos arquitectada dentro de mim, sei exactamente como a quero, onde a quero... até já pensei numa cor pó quarto dos nossos filhos... E agora? Se não a conseguir construir? Vou estár sempre amarrado á casa que queria e não consegui ter? Tinha sido muito mais facil nunca ter pensado nisso antes.

Ou seja, se não quiseres nada, o pouco que tenhas, faz-te feliz! Se quiseres o mundo inteiro, podes até ter um continentezito que há-de sempre saber pouco. Mas tenho a sensação que nada disto é algo de novo para ninguem.

Mas então é facilimo ser feliz, é só não querer nada e dár graças por seja o que for que aparece, o que matematicamente falando se traduz em qualquer coisa como Low Standards + No Expectations = Extreme Happiness. O problema é que as coisas não funcionam assim, a estrada da ambição é de sentido unico, e a subir. No "Sit down" dos James há uma frase que diz "If I hadn’t seen such riches I could live with being poor" e isso basicamente resume muito daquilo que aqui foi dito. Se eu viver na Coreia do Norte, sou feliz com o nada que tenho, se eu sair da Coreia do Norte pá Coreia do Sul, nunca mais me contento com o que tinha na Coreia do Norte logo, nunca lá posso voltar porque voltar implica contentar-me com o que tenho depois de ver tudo o que eu não tenho.

E agora a parte engraçada. Toda a gente minimamente consciente do mundo que os rodeia vos diz que estar feliz com o que se tem porque não se conhece mais, não é viver. Uma das minha quotes preferidas diz "Don't be afraid that your life will end, be afraid that it will never begin", e teem razão, viver-se ignorantemente feliz não é viver, mas eles hão-de ser muito mais realizados, isto é felizes, que "nós" que queremos mudar o mundo e não vamos conseguir. Eu acho que sofro disto a um nivel extremo, tanto que não há dia que passe que eu não gostava de ser menos que aquilo que sou, mais ignorante e consequentemente mais feliz, porque, verdade seja dita viver sabendo que nunca se há-de conseguir fazer aquilo a que se aspira, ficando sempre aquém daquilo que sonhamos para nós, torna este "viver" tão "viver" como o dos outros. E tudo isto me atingiu enquanto ouvia o "A Gente não lê" do Rui Veloso e ele cantava, "a gente morre logo ao nascer" porque no fundo é isso mesmo, viver é uma lose/lose situation porque ou não vivemos porque não sabemos o que é a vida nem tudo aquilo que estamos a perder, ou não vivemos porque temos tal consciencia do mundo que percebemos o quanto dele nos passa ao lado, e perdemos seja de que maneira for.

Ah umas semanas atrás passou no Hollywood um fime de 1983 chamado "War Games - Jogos de Guerra" em que um hacker (Matthew Broderick) entrava no super-computador de defesa dos Estados Unidos, um computador com inteligencia-artificial capaz de aprender com os seus erros, convencido que estava a entra numa empresa de jogos de computador, e pede para jogar um jogo chamado "Global Termonuclear War" que era na realidade um plano de ataque ao principal rival dos EUA, a URSS. O computador ficou de tal modo empenhado no jogo, que não deixou que ninguem o desligasse enquanto ele não ganhasse, que passava por qualquer coisa como, apagar a URSS do mapa. Eles acabaram por conseguir faze-lo parar pendido-lhe para jogar outro jogo, o jogo do galo. O computador eventualmente percebeu que há jogos que quando bem jogados, ninguem ganha, e depois de perceber isto cancelou a "Global Termonuclear War" e disse "Strange game. The only winning move is not to play" e viver acabar por ser um bocado assim, uma vez que perdemos sempre... the only winning move is not to play.
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