Eu ando sozinho na selva, eu rio-me face ao perigo...

Há três coisas na vida das quais tenho medo, existem outras tantas que me assustam e outras ainda que não quero que aconteçam, mas há uma clara distinção entre todas elas no geral e entre estas três categorias em particular.

Morrer, não tenho medo, só não quero que aconteça. O rebentar de um balão duma criança quando passo por ela, assusta-me, mas 10 segundos mais tarde o meu ritmo cardíaco volta ao normal e a minha vida continua como se nada tivesse acontecido, não evito crianças com balões porque acho que ele vai rebentar quando passar por elas.

Para mim é isso que distingue tudo o resto das 3 situações das quais tenho medo, genuinamente medo, tirando estas 3, não há nada que eu deixe de fazer pelo medo do que pode acontecer. Não ando mais devagar por ter medo que me rebente um pneu, não evito ruas escuras com o medo de ser assaltado, no entanto, no que toca ás 3 situações das quais tenho medo, não consigo dissociar um pensamento do outro, sempre que a primeira ocorre, consigo automaticamente visualizar todo o meu terror a ganhar forma como se antevisse o que vai inevitavelmente acontecer se eu fizer aquilo de que tenho medo.

Sendo eu tão peculiar, tinha obrigatoriamente de ter medos tão singulares quanto eu, absurdos provavelmente, inexplicáveis para alguém da minha idade, mas ainda assim, aqueles que me acompanham a todas as horas, tão temíveis para mim como o escuro para uma criança, aos quais eu não consigo crescer-lhes e ultrapassa-los que faz com que evite as situações em que eles podem ocorrer.

O óculo da porta de entrada. Tenho pavor do óculo da porta de entrada. Não consigo espreitar por ele para ver que está a tocar á porta, tenho de abri-la logo sem saber quem é, ou perguntar do lado de cá da porta, não consigo olhar com medo daquilo que posso ver, ou não ver. Só falar nisso faz-me subir um arrepio pela espinha. A ideia de que podem tocar-me á porta, eu olhar pelo óculo e não lá estar ninguém é pavorosa e não consigo deixar de pensar nisso sempre que a campainha da porta toca. Depois de a abrir eu consigo lidar com tudo aquilo que esteja do outro lado, e se não estiver ninguém, penso que foram uns miúdos quaisquer a correr pelas escadas abaixo tocando nas campainhas por que iam passando e consigo voltar á minha vida normal, tocarem-me á porta, olhar pelo óculo e estar a luz do hall apagada do lado de fora, enche-me de pavor por não saber o que é que lá está.

Latas de conserva. Tenho de abrir todas as latas de conserva com um abre-latas. Sou incapaz de torcer a palheta para a frente e puxar a tampa da lata para trás, por mais fácil que a lata diga que seja a sua abertura. A ultima vez que tentei vencer o meu medo ia decapitando um dedo na extremidade da tampa duma lata de ananás em calda, sangrei durante horas e ainda hoje tenho uma cicatriz para me lembrar que há medos que não se ultrapassam. Sou o homem da casa, era suposto ser capaz de abrir as latas que a minha mãe me pede, mas não sou, consigo ver-me ferido a esvair-me em sangue deitado no chão da cozinha, sempre que ela diz, "Zé, abre aqui esta lata".

... e tu. O medo de ti, do mal que me podes fazer. Das mil e uma maneiras como podes arruinar a minha vida e tudo aquilo que eu construi até agora. Se furacões tem nomes de mulheres, aquele que acabar com a minha vida, destruindo tudo ao passar, há-de ter o teu. O medo daquilo que podemos ter juntos e o significado que isso há-de ter para mim. Que posso eu querer mais quando tenho tudo aquilo que quero? O que é que me há-de mover quando chegar ao fim? O medo de seres minha, e que tragas contigo "o tédio do fim da história", e que depois de ti não haja nada por que lutar. O medo de tudo acabar bem, do melhor ser impossível, de todos os dias que se seguem poderem ser na melhor das hipóteses, tão bons quanto o que passou. E o medo do contrario, de não te ter depois de ter visto o que podemos ser juntos, depois de tudo aquilo que me tens mostrado, de como a vida devia ser, mas que só pode ser contigo ao meu lado, sendo tu minha, sendo eu teu. Para quê tentar fazer seja o que for quando já se perdeu aquilo que se queria? Como me posso eu refugiar na minha "fase Carolina" depois de ti se tu és tudo o que há, principio e fim de todas as coisas. O medo de tudo acabar mal, a persistência da lembrança do que se teve e a certeza de que nunca nada voltara a ser igual, viver aquém do que é a vida, da vida que me mostraste.

Não tenho medo de morrer, só não quero que aconteça, não evito ruas escuras em bairros inóspitos da cidade com medo de ser assaltado. "Perigo? Hah! Eu ando sozinho na selva, eu rio-me face ao perigo"... mas morro de medo ti.
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