I'd rather be right than happy...

Sempre ouvi dizer que o problema da evolução, é haver sempre qualquer coisa que tem de ficar para trás, que deixa fazer parte ou mesmo ter sequer lugar nas nossas vidas, para ser substituido por algo de novo, mais recente, mais de acordo com as nossas necessidades, ou somente mais perto daquilo que pelo caminho, e à custa de muita "tentativa/erro", vamos descobrindo que queremos, algo que vái á partida ser melhor para nós, e para melhor muda-se sempre, right?

Ás vezes dou por mim a pensar com saudade de dias passado junto dos amigos com quem mais tarde me deixei de dar por descobrir que não eram tão meus amigos como eu achava que eram, ou não tão meus amigos quanto eu era deles. Ás vezes recordo com nostalgia as epocas aureas de relações que eventualmente vieram a acabar com namoradas que mais tarde dei conta que não eram nada daquilo com que eu sonhava para mim.

É estranho pensar no fim desses dias com a melancolia com que o faço, quando hoje sei que se era feliz na altura, essa felicidade era simplesmente resultado da minha ingenuidade em relação aos amigos com que me rodeava, achando-os incapazes das facadas pelas costas que mais tarde me viriam a dár. Ás namoradas que se então achava o amor da minha vida, era por ainda não fazer ideia do imenso material de estudo que as mesmas dariam a Freud, com a sua personalidade psicótica.

Mas hoje sei! Hoje sei aquilo que eles e elas realmente são, e isso fez com que decidisse deixar de me dar com eles e com que acabasse com elas. Evoluí, e foram eles (e elas) aquilo que ficou para trás resultado dessa evolução. Deixaram de ter lugar em mim aqueles que por tudo aquilo que disseram ou fizeram não se enquadravam mais no conceito que tenho de "amigos" ou "amores", para dár lugar a outros, mais recentes, que vão mais de encontro ás minhas necessidade, mais perto daquilo que fui á custa de todos estes erros, descobrindo que queria.

Mas, se agora, com as situações passadas e o final que as coisas iriam ter revelado, sei que, por exemplo, o Xut (nome ficticio) não era um bom amigo, porque raio hei-de eu ter saudades do tempo que passava com ele, quando ele claramente não merecia o amigo que tinha em mim ?! Se me lembro como se fosse ontem, da tragédia grega que foi o fim do meu namoro com a Marta (outro nome ficticio), porque raio gostava eu de voltar aos tempos em que partia de Sta. Apolónia no inter-regional com destino ao Porto (cidade ficticia) para passar o fim-de-semana com ela!? Porque é que dou por mim a desejar voltar a epocas que não fazem mais sentido e para ao pé de pessoas com as quais não quero mais estar?

Pensei bue nisso, e por muito que me custe admitir, não há volta a dár-lhe, porque nessa altura era feliz. Tanto quanto eu sabia, tinha os melhores amigos do mundo, incapazes de tudo aquilo que mais tarde fizeram. Tinha uma namorada que adorava e um namoro que ia durar para sempre, e que acabou da maneira que acabou, tão depressa como acabou.

Mas todos esses pensamentos atravessam-me quase sem dár por mim, sei que se estava feliz então, era porque vivia enganado, estáva errado, e todos sabemos como é preferivél estár certo a ser feliz. Com isso em mente, volto a mim, e esqueço-me deles... do Filipe, do João, do Kapa, do Xut, do Muckey, do BB, do CoLT... de todos eles.

Foi uma vez...

... tinha uma história para vos contar, mas uma que eu acho que ñ interessa a ninguém ler, falava dum príncipe que se apaixonou por uma gata-borralheira, salvou-a das garras de um campónio e levou-a ao colo até ao castelo, ensinou-a a portar-se como uma senhora e deu-lhe o titulo de "Miss" que desde então ela orgulhosamente ostentou, levou-a a sítios que ela não conhecia, e mostrou-lhe coisas que até então só tinha ouvido falar, deu-lhe a viver uma vida de princesa, de idas até ao mar de cabelos ao vento e cavalgar pela areia debaixo de chuvinha que não molha, mas que deixa marcas, e fez dela mais que aquilo que ela era.

Inebriada com a quantidade de mundo que lhe foi dado a conhecer, e movida pela insaciável ânsia de conhecer mais, tomou por obrigação do príncipe, aquilo que ele sempre fez por afecto, sem que a alguma vez a Miss lhe dissesse "Obrigado, meu príncipe, pelo tanto que fazes por mim, pela donzela que me tornás-te".

Magoado com tamanha ingratidão, o príncipe viu que a Miss nunca seria a donzela que ele queria do seu lado para governar o seu reino, e no seu cavalo azul, levou-a de volta para onde a tinha encontrado e deixou-a lá, á mercê de um próximo campónio que aparecesse. Voltou para o castelo a galope e nunca mais quis saber dela. Durante todo o ano seguinte a Miss escrevia cartas ao Príncipe, tentando emendar aquilo que agora sabia ter feito mal, cartas que tentavam dizer o "tanto que não lhe disse", na altura que o devia ter dito. Mas o príncipe já não queria saber, já tinha então percebido que " a bird may love a fish, but where would they live?" e que a Miss tinha muito mais de gata-borralheira que aquilo que alguma vez ia ter de princesa, que o lugar dela era entre os outros plebeus e que era lá que ela tinha de ficar.

Fascinados com o regresso da gata-borralheira agora pintada de princesa, cheia de historias do que tinha visto para contar, dos sítios onde tinha ido, de tudo aquilo que tinha feito, vestida com roupas que o príncipe mandava vir do outro lado do oceano, e limitados pela ignorância da quantidade de vida que lhes passava ao lado, os campónios viviam extasiados com a Miss, convencidos que ninguém no seu perfeito juízo não a quereria para princesa, e então, confortavelmente sentados na sua ignorância convenceram-se que a Miss tinha deixado o Príncipe, os néscios, pobres imbecis, e que o Príncipe morria para a ter de volta desde então, ehehe, quão ingénuos.

A Miss, a quem o boato era conveniente, não fossem os seus novos admiradores descobrir que ela não era tão fascinante quanto ela os fazia crer, não confirmava nem desmentia, tentando assim ilibar-se de qualquer responsabilidade, sabendo ela que por mais interessante que fosse junto de ignorantes, não tinha lugar na nobreza, nem um trono ou um príncipe à sua espera no castelo.

Eventualmente a Miss percebeu que o Príncipe tinha seguido com a sua vida, e arranjado outras pretendentes ao trono bem como ao seu coração, que era inútil lutar por alguém que há muito a tinha esquecido, desistiu. Que outro remédio senão, arranjar um campónio que tentasse preencher o espaço que o príncipe tinha deixado nela.

Algum tempo depois, aparece no reino um homem, armado em príncipe de outras paragens a querer falar com o príncipe, este, tentando perceber quem é o desconhecido que lhe quer falar descobre que não é mais que o campónio que a gata borralheira arranjou para tentar preencher o seu lugar. Convencido que a Miss o tinha escolhido a ele em detrimento do príncipe, o coitado achava-se então no direito de entrar no Castelo e contestar o que o príncipe dizia ou fazia. O principe, pouco dado a intrigas do povinho, ignorou-o, mas o coitado insistiu até o principe o banir de dentro das muralhas da cidade. Depois disso, sempre que o príncipe passeava pelas ruas da aldeia e povoações vizinhas ouvia burros a cavalo em asnos e asnos a cavalo em burros passar e dizer "Lá vái o Príncipe que foi trocado pelo campónio".

Estupefacto com a história, o príncipe decide procurar a gata-borralheira e tentar perceber de onde surgiu o boato ou porque raio tem o seu campónio a displicência de lhe invadir o reino com ar desafiante. Encontra-a ainda vestida de Miss, com pretensões a princesa no meio do povinho que lhe prestava vassalagem. O povo, vê o Príncipe falar com a gata borralheira e limitados por tudo aquilo que não sabem, alimentados pelo dogma que criaram em torno da sua suposta princesa, continua a acreditar piamente que ninguém no seu perfeito juízo, não quereria para sua Princesa, e conclui na sua insignificância que o principe lhe deve a estar a implorar-lhe que volte para ele. A gata borralheira, a quem o boato é tão conveniente, não o confirma nem desmente quando depois de a avisar, o príncipe lhe volta as costas e ruma de novo ao castelo.

Cansado da mesquinhez e intrigas do povinho ignorante, o príncipe manda soldados matar a gata-borralheira e trazer-lhe seu coração numa bandeja. Ela morreu. O chefe da guarda trouxe ao príncipe o seu coração, que depois de arrancado, a latejar baixinho ainda sussurrava... "oh meu príncipe". Ele riu com o desprezo que lhe tinha, e voltou a guardar o seu nome no esquecimento, onde tinha estado desde o dia em que a levou de volta para a terrinha ao pé da barragem onde tinha nascido e de onde nunca devia ter saído.

O príncipe viveu feliz para sempre com uma princesa de verdade, o campónio, vive convencido que arranjou uma princesa que o quis a ele mais que ao príncipe, sem suspeitar que a única razão pela qual ela o quis foi porque o príncipe não a quis mais. O povo esse, continua ignorante e ainda hoje acredita que o Príncipe a mandou matar por ciúmes do campónio, porque, ninguém no seu perfeito juízo, deixava escapar uma Princesa, sem nunca desconfiarem que a sua "Princesa", não era mais que uma Miss por mérito de um Príncipe que fez dela mais que uma gata borralheira.

O Luto

É quase como que regida por uma precisão de relógio suíço a ciclicidade da minha predisposição a relacionamentos. Quando, invariavelmente eu, decido por um termo á relação em que me encontro, preciso sempre de um tempo para mim, sozinho, de um período de reflexão, ou como a Serafim lhe chamou, o luto.

O meu "luto" dura invariavelmente 1 ano e meio, e até á meia hora atrás nunca tinha pensado que efeitos tem em mim, que uso lhe dou, ou mais curiosamente porque tem ele sempre a mesma duração.

A resposta mais obvia seria dizer que é o tempo que eu levo a esquecer a outra parte envolvida na relação que deixou de o ser, mas nem sequer é isso, sou sempre eu que acabo, e acabo sempre por já não significarem para mim tudo quanto é suposto significar, e dito isto, deixa de fazer sentido dizer que é o tempo que levo a esquecer alguém, que chegado aquele ponto, já está esquecida como quem eu pensava que ela podia ser ou aquilo que podia significar para mim.

Alguns minutos depois, acho que é a desilusão que me custa a ultrapassar, o fracasso de algo em que depositamos as nossas esperanças convencidos que era isto que queríamos para nós, e o reconhecimento de que estávamos enganados, a constatação de que aquilo que jurávamos que ia dar certo não funcionou, e o desalento de voltar á estaca zero e começar tudo de novo, outra, e outra vez.

E por fim chego á conclusão de que é o tempo que eu preciso, para não ser a continuação do mesmo relacionamento com uma pessoa diferente, e não transpor para a nova esperança que se apresenta, tudo aquilo que arruinou a antiga. É o tempo que levo a desfazer-me da bagagem, das malas cheias da roupa suja de tudo aquilo que ficou por dizer. O tempo de descarregar aquilo que pesava em mim e nos deu por onde partir. O tempo que demoro a esquecer tudo aquilo que passei e me deixa voltar ao jogo de peito aberto e consciência tranquila. Começar de novo, com uma folha limpa e o contador de tudo aquilo que me incomoda a zeros e todo um novo recipiente de tolerância por encher, e encontrar em mim a força de vontade para me entregar novamente como se nunca tivesse saído magoado antes. É o luto da parte de mim que morreu com o fim, e o nascer do novo eu para só mais um começo.

Mas há feridas que não saram e nódoas que não saiem, e que relação falhada após relação falhada vão deixando em nós vestígios daquilo que foi e houve em lugares que não lhes pertencem mais. Vão assim ocupando o espaço que havia em nós destinado a dar ás próximas, a oportunidade que tiveram as anteriores. Mas as marcas que ficam e as cicatrizes que deixam, acumulam, e deixam cada vez menos margem de manobra a quem aparece mais tarde e nos encontra já queimados de coisas que foram, e nos fazem assim desistir daquela que, quêm sabe, nos tivesse apanhado de coração vazio, não tinha arranjado nele o espaço para me fazer feliz

Acabamos por dar menos de nós, aquelas que mais nos mereciam, pela infelicidade de nos encontrarem ja feridos, por outras que vieram antes, a quêm, merecendo menos, demos demais.

Once forgotten, we are truly perfect.

Com tudo aquilo em que tenho pensado, as autopsias a todas as minhas relações que sucumbiram ás incompatibilidades dos intervenientes, a inglória tentativa de aprender com os erros dos outros e a ainda mais complicada luta de tentar aprender com os meus, associada a ideia que tenho de que quero que a minha próxima namorada seja a ultima, farto de relações com "principio" e "fim", sem sequer tempo para um houvesse um "meio", tenho andado a pensar nos "happy couples" que eu conheço, e o que eles têm para me ensinar.

Encontrar um casal feliz, foi tão mais fácil que aquilo que eu esperava, esteve á minha frente todo este tempo sem que eu desse por isso, conheço-os desde que nasci, ajudaram-me a crescer, educaram-me, fizeram de mim quem eu sou hoje, e nunca cá teria chegado senão fosse por eles, em termos afectivos pelo pilar que são na minha vida, e em termos genealógicos, porque sem eles, os meus pais nunca teriam nascido e consequentemente, eu não existia.

Como por esta altura é obvio, estou a falar dos meus avós, os dois casais mais felizes que eu conheço, a minha Avó Nita e o meu Avô Zé, e a minha Avó Maria Antónia e o meu avô Risques. Depois de todos estes anos, nunca lhes assisti a uma discussão ou uma troca de palavras mais acessa em ânimos mais exaltados, ou se assisti, juro que já não me lembro. Nunca vi outra coisa que um brilho nos olhos ou um sorriso nos lábios sempre que as ouço falar deles, a admiração que lhes têm e que incutem em mim como os senhores respeitáveis ou em como toda a gente sempre gostou deles pelas pessoas bondosas que sempre foram, como o exemplo a seguir que devem ser para mim.

É esta admiração, este orgulho nos seus maridos que faz deles os homens das suas vidas que eles são para elas, a certeza estampada na cara de que se lhes fosse dada a oportunidade de voltar a trás na vida, faziam tudo de novo, que me faz pensar que é este o tipo de amor que quero na minha, alguém que me veja como elas os vêem a eles, mesmo todos estes anos depois de eles terem morrido...

... pois é, se calhar devia-vos ter dito isto antes, que o meu avô Zé morreu 2 anos antes de eu nascer, e que o meu avô Risques uns anos depois, á mais de 20 anos atras. Estranho, não é? Irrelevante? Não sei, contribui certamente para a ausência de discussões, mas será que contribui para o resto? Que outro tipo de amor senão aquele que vale a pena ter pode alimentar alguém, décadas depois de o seu amor ter morrido? Garanto-vos que nenhuma outra relação que eu conheça sobrevivia por mais 30 anos depois de um deles ter morrido, só a deles, dos meus avós.

Não sei, não sabe ninguém, se é mesmo verdade aquilo que dizem e que o tempo tem mesmo o condão de tornar boas todas as más recordações, e se é isso que fica deles, do tempo que estiveram juntos, e os frutos que dali nasceram, os filhos, os netos, os bisnetos e a quantidade de vida que nasceu e cresceu e viveu e que eles já não viram, mas que é graças a eles que existe, e o amor que elas lhes têm por isso, por tudo aquilo que lhes deram e tudo aquilo que lhes deixaram... nós sentamos em torno da mesa de jantar, ou se ainda hoje fossem vivos era a relação que morria como todas as outras parecem morrer hoje em dia... e só "once forgotten we are truly perfect".

Num dos meus filmes preferidos o Jesse diz a Celine "I know happy couples, but I think they lie to each other". Eu tambem conheço "happy couples" uns que não metem um ao outro, porque estão mortos á 20 anos.




Para a Avó Nita e o Avô Zé,
a Avó Mª Antónia e o Avô Risques,
os casais que sem o ser,
são os mais felizes de mundo
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