Foi uma vez...

... tinha uma história para vos contar, mas uma que eu acho que ñ interessa a ninguém ler, falava dum príncipe que se apaixonou por uma gata-borralheira, salvou-a das garras de um campónio e levou-a ao colo até ao castelo, ensinou-a a portar-se como uma senhora e deu-lhe o titulo de "Miss" que desde então ela orgulhosamente ostentou, levou-a a sítios que ela não conhecia, e mostrou-lhe coisas que até então só tinha ouvido falar, deu-lhe a viver uma vida de princesa, de idas até ao mar de cabelos ao vento e cavalgar pela areia debaixo de chuvinha que não molha, mas que deixa marcas, e fez dela mais que aquilo que ela era.

Inebriada com a quantidade de mundo que lhe foi dado a conhecer, e movida pela insaciável ânsia de conhecer mais, tomou por obrigação do príncipe, aquilo que ele sempre fez por afecto, sem que a alguma vez a Miss lhe dissesse "Obrigado, meu príncipe, pelo tanto que fazes por mim, pela donzela que me tornás-te".

Magoado com tamanha ingratidão, o príncipe viu que a Miss nunca seria a donzela que ele queria do seu lado para governar o seu reino, e no seu cavalo azul, levou-a de volta para onde a tinha encontrado e deixou-a lá, á mercê de um próximo campónio que aparecesse. Voltou para o castelo a galope e nunca mais quis saber dela. Durante todo o ano seguinte a Miss escrevia cartas ao Príncipe, tentando emendar aquilo que agora sabia ter feito mal, cartas que tentavam dizer o "tanto que não lhe disse", na altura que o devia ter dito. Mas o príncipe já não queria saber, já tinha então percebido que " a bird may love a fish, but where would they live?" e que a Miss tinha muito mais de gata-borralheira que aquilo que alguma vez ia ter de princesa, que o lugar dela era entre os outros plebeus e que era lá que ela tinha de ficar.

Fascinados com o regresso da gata-borralheira agora pintada de princesa, cheia de historias do que tinha visto para contar, dos sítios onde tinha ido, de tudo aquilo que tinha feito, vestida com roupas que o príncipe mandava vir do outro lado do oceano, e limitados pela ignorância da quantidade de vida que lhes passava ao lado, os campónios viviam extasiados com a Miss, convencidos que ninguém no seu perfeito juízo não a quereria para princesa, e então, confortavelmente sentados na sua ignorância convenceram-se que a Miss tinha deixado o Príncipe, os néscios, pobres imbecis, e que o Príncipe morria para a ter de volta desde então, ehehe, quão ingénuos.

A Miss, a quem o boato era conveniente, não fossem os seus novos admiradores descobrir que ela não era tão fascinante quanto ela os fazia crer, não confirmava nem desmentia, tentando assim ilibar-se de qualquer responsabilidade, sabendo ela que por mais interessante que fosse junto de ignorantes, não tinha lugar na nobreza, nem um trono ou um príncipe à sua espera no castelo.

Eventualmente a Miss percebeu que o Príncipe tinha seguido com a sua vida, e arranjado outras pretendentes ao trono bem como ao seu coração, que era inútil lutar por alguém que há muito a tinha esquecido, desistiu. Que outro remédio senão, arranjar um campónio que tentasse preencher o espaço que o príncipe tinha deixado nela.

Algum tempo depois, aparece no reino um homem, armado em príncipe de outras paragens a querer falar com o príncipe, este, tentando perceber quem é o desconhecido que lhe quer falar descobre que não é mais que o campónio que a gata borralheira arranjou para tentar preencher o seu lugar. Convencido que a Miss o tinha escolhido a ele em detrimento do príncipe, o coitado achava-se então no direito de entrar no Castelo e contestar o que o príncipe dizia ou fazia. O principe, pouco dado a intrigas do povinho, ignorou-o, mas o coitado insistiu até o principe o banir de dentro das muralhas da cidade. Depois disso, sempre que o príncipe passeava pelas ruas da aldeia e povoações vizinhas ouvia burros a cavalo em asnos e asnos a cavalo em burros passar e dizer "Lá vái o Príncipe que foi trocado pelo campónio".

Estupefacto com a história, o príncipe decide procurar a gata-borralheira e tentar perceber de onde surgiu o boato ou porque raio tem o seu campónio a displicência de lhe invadir o reino com ar desafiante. Encontra-a ainda vestida de Miss, com pretensões a princesa no meio do povinho que lhe prestava vassalagem. O povo, vê o Príncipe falar com a gata borralheira e limitados por tudo aquilo que não sabem, alimentados pelo dogma que criaram em torno da sua suposta princesa, continua a acreditar piamente que ninguém no seu perfeito juízo, não quereria para sua Princesa, e conclui na sua insignificância que o principe lhe deve a estar a implorar-lhe que volte para ele. A gata borralheira, a quem o boato é tão conveniente, não o confirma nem desmente quando depois de a avisar, o príncipe lhe volta as costas e ruma de novo ao castelo.

Cansado da mesquinhez e intrigas do povinho ignorante, o príncipe manda soldados matar a gata-borralheira e trazer-lhe seu coração numa bandeja. Ela morreu. O chefe da guarda trouxe ao príncipe o seu coração, que depois de arrancado, a latejar baixinho ainda sussurrava... "oh meu príncipe". Ele riu com o desprezo que lhe tinha, e voltou a guardar o seu nome no esquecimento, onde tinha estado desde o dia em que a levou de volta para a terrinha ao pé da barragem onde tinha nascido e de onde nunca devia ter saído.

O príncipe viveu feliz para sempre com uma princesa de verdade, o campónio, vive convencido que arranjou uma princesa que o quis a ele mais que ao príncipe, sem suspeitar que a única razão pela qual ela o quis foi porque o príncipe não a quis mais. O povo esse, continua ignorante e ainda hoje acredita que o Príncipe a mandou matar por ciúmes do campónio, porque, ninguém no seu perfeito juízo, deixava escapar uma Princesa, sem nunca desconfiarem que a sua "Princesa", não era mais que uma Miss por mérito de um Príncipe que fez dela mais que uma gata borralheira.
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