O Luto

É quase como que regida por uma precisão de relógio suíço a ciclicidade da minha predisposição a relacionamentos. Quando, invariavelmente eu, decido por um termo á relação em que me encontro, preciso sempre de um tempo para mim, sozinho, de um período de reflexão, ou como a Serafim lhe chamou, o luto.

O meu "luto" dura invariavelmente 1 ano e meio, e até á meia hora atrás nunca tinha pensado que efeitos tem em mim, que uso lhe dou, ou mais curiosamente porque tem ele sempre a mesma duração.

A resposta mais obvia seria dizer que é o tempo que eu levo a esquecer a outra parte envolvida na relação que deixou de o ser, mas nem sequer é isso, sou sempre eu que acabo, e acabo sempre por já não significarem para mim tudo quanto é suposto significar, e dito isto, deixa de fazer sentido dizer que é o tempo que levo a esquecer alguém, que chegado aquele ponto, já está esquecida como quem eu pensava que ela podia ser ou aquilo que podia significar para mim.

Alguns minutos depois, acho que é a desilusão que me custa a ultrapassar, o fracasso de algo em que depositamos as nossas esperanças convencidos que era isto que queríamos para nós, e o reconhecimento de que estávamos enganados, a constatação de que aquilo que jurávamos que ia dar certo não funcionou, e o desalento de voltar á estaca zero e começar tudo de novo, outra, e outra vez.

E por fim chego á conclusão de que é o tempo que eu preciso, para não ser a continuação do mesmo relacionamento com uma pessoa diferente, e não transpor para a nova esperança que se apresenta, tudo aquilo que arruinou a antiga. É o tempo que levo a desfazer-me da bagagem, das malas cheias da roupa suja de tudo aquilo que ficou por dizer. O tempo de descarregar aquilo que pesava em mim e nos deu por onde partir. O tempo que demoro a esquecer tudo aquilo que passei e me deixa voltar ao jogo de peito aberto e consciência tranquila. Começar de novo, com uma folha limpa e o contador de tudo aquilo que me incomoda a zeros e todo um novo recipiente de tolerância por encher, e encontrar em mim a força de vontade para me entregar novamente como se nunca tivesse saído magoado antes. É o luto da parte de mim que morreu com o fim, e o nascer do novo eu para só mais um começo.

Mas há feridas que não saram e nódoas que não saiem, e que relação falhada após relação falhada vão deixando em nós vestígios daquilo que foi e houve em lugares que não lhes pertencem mais. Vão assim ocupando o espaço que havia em nós destinado a dar ás próximas, a oportunidade que tiveram as anteriores. Mas as marcas que ficam e as cicatrizes que deixam, acumulam, e deixam cada vez menos margem de manobra a quem aparece mais tarde e nos encontra já queimados de coisas que foram, e nos fazem assim desistir daquela que, quêm sabe, nos tivesse apanhado de coração vazio, não tinha arranjado nele o espaço para me fazer feliz

Acabamos por dar menos de nós, aquelas que mais nos mereciam, pela infelicidade de nos encontrarem ja feridos, por outras que vieram antes, a quêm, merecendo menos, demos demais.
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