Once forgotten, we are truly perfect.

Com tudo aquilo em que tenho pensado, as autopsias a todas as minhas relações que sucumbiram ás incompatibilidades dos intervenientes, a inglória tentativa de aprender com os erros dos outros e a ainda mais complicada luta de tentar aprender com os meus, associada a ideia que tenho de que quero que a minha próxima namorada seja a ultima, farto de relações com "principio" e "fim", sem sequer tempo para um houvesse um "meio", tenho andado a pensar nos "happy couples" que eu conheço, e o que eles têm para me ensinar.

Encontrar um casal feliz, foi tão mais fácil que aquilo que eu esperava, esteve á minha frente todo este tempo sem que eu desse por isso, conheço-os desde que nasci, ajudaram-me a crescer, educaram-me, fizeram de mim quem eu sou hoje, e nunca cá teria chegado senão fosse por eles, em termos afectivos pelo pilar que são na minha vida, e em termos genealógicos, porque sem eles, os meus pais nunca teriam nascido e consequentemente, eu não existia.

Como por esta altura é obvio, estou a falar dos meus avós, os dois casais mais felizes que eu conheço, a minha Avó Nita e o meu Avô Zé, e a minha Avó Maria Antónia e o meu avô Risques. Depois de todos estes anos, nunca lhes assisti a uma discussão ou uma troca de palavras mais acessa em ânimos mais exaltados, ou se assisti, juro que já não me lembro. Nunca vi outra coisa que um brilho nos olhos ou um sorriso nos lábios sempre que as ouço falar deles, a admiração que lhes têm e que incutem em mim como os senhores respeitáveis ou em como toda a gente sempre gostou deles pelas pessoas bondosas que sempre foram, como o exemplo a seguir que devem ser para mim.

É esta admiração, este orgulho nos seus maridos que faz deles os homens das suas vidas que eles são para elas, a certeza estampada na cara de que se lhes fosse dada a oportunidade de voltar a trás na vida, faziam tudo de novo, que me faz pensar que é este o tipo de amor que quero na minha, alguém que me veja como elas os vêem a eles, mesmo todos estes anos depois de eles terem morrido...

... pois é, se calhar devia-vos ter dito isto antes, que o meu avô Zé morreu 2 anos antes de eu nascer, e que o meu avô Risques uns anos depois, á mais de 20 anos atras. Estranho, não é? Irrelevante? Não sei, contribui certamente para a ausência de discussões, mas será que contribui para o resto? Que outro tipo de amor senão aquele que vale a pena ter pode alimentar alguém, décadas depois de o seu amor ter morrido? Garanto-vos que nenhuma outra relação que eu conheça sobrevivia por mais 30 anos depois de um deles ter morrido, só a deles, dos meus avós.

Não sei, não sabe ninguém, se é mesmo verdade aquilo que dizem e que o tempo tem mesmo o condão de tornar boas todas as más recordações, e se é isso que fica deles, do tempo que estiveram juntos, e os frutos que dali nasceram, os filhos, os netos, os bisnetos e a quantidade de vida que nasceu e cresceu e viveu e que eles já não viram, mas que é graças a eles que existe, e o amor que elas lhes têm por isso, por tudo aquilo que lhes deram e tudo aquilo que lhes deixaram... nós sentamos em torno da mesa de jantar, ou se ainda hoje fossem vivos era a relação que morria como todas as outras parecem morrer hoje em dia... e só "once forgotten we are truly perfect".

Num dos meus filmes preferidos o Jesse diz a Celine "I know happy couples, but I think they lie to each other". Eu tambem conheço "happy couples" uns que não metem um ao outro, porque estão mortos á 20 anos.




Para a Avó Nita e o Avô Zé,
a Avó Mª Antónia e o Avô Risques,
os casais que sem o ser,
são os mais felizes de mundo
Free counter and web stats