O que eu não sei dizer.

Há tanto tempo que não escrevo nada. Ás vezes tento, mas não sái nada de jeito. Tentei escrever um post para a Raquel, mas dizia mais que aquilo que eu queria. Comecei a escrever o post para a Zá, mas queria que fosse especial, e apaguei-o. O post para mim, mas ainda não é o dia. Outro para a Rita, mas vou esperar pelo dia dela. E este para ti, vem com uma semana de atraso, o tempo que demorei a pensar no que podia escrever que compensasse tudo aquilo que não te soube dizer.

Houve duas alturas na minha vida em que sabia exactamente aquilo que me iam dizer. Lembro-me de estar sentado na sala da minha tia e a Tania sentada ao meu lado, lembro-me do brilho que a minha tia emanava e a maneira como os olhos dela iluminavam a sala enquanto dizia "tenho uma coisa para vos contar" e eu já sabia que ela ia dizer que estava grávida do Miguel, era tão obvio, foi uma boa noticia. A outra foi quando tu me ligaste a perguntar se podias vir cá ter, porque precisas de alguem, e quando chegaste e eu desci, quando me deste as chaves do teu carro para a mão e mo pediste para o guiar, eu já sabia que desta vez a noticia não ia ser boa. Quando me dizes do teu pai, eu já sabia que ele tinha morrido, não tinha sido preciso dizeres nada.

Sabes, mesmo sabendo, lá no fundo esperas estar enganado, que seja qualquer coisa terrivel, mas recuperavel, algo que passe com o tempo e que eventualmente tudo volte á normalidade, e perguntas se ele vái ficar bem, mesmo sabendo que não, que não vai mais ficar, mas perguntas na mesma, porque tens esperança que estejas enganado, porque é tão mau ter sempre razão. Sentado ao teu lado dentro do carro, pensei que "No good deed goes unpunished", que o preço que eu pagava por ser um bom amigo era ser apanhado em situações em que não queria estar. Que se fosse eu o amigo que a maior parte dos amigos tem sido para mim, provavelmente tinhas ligado a outra pessoa, mas essa maior parte nunca te incluio a ti que sempre tiveste lá para mim, com o ar de reprovação enquanto juntas as mãos em concha para eu ter onde apoiar o pé para saltar o muro para dentro de onde não deviamos estár. E por mais que eu não quizesse ali estar, e ouvir-te dizer as coisas que dizias, tu precisavas de mim lá, e é isso que nós amigos fazemos uns pelos outros.

Queria que tivesses vindo ter comigo com as nossas merdices do costume, os nossos problemas existenciais que justificavam o cessar o movimento de rotação da Terra. Gajas e carros, dár porrada a um gajo que te deve 50cts ou furar os pneus ao gajo que te ia batendo á saida da rotunda da Feira Nova, as merdas do costume. Mas isto reduz os nossos problemas a nada, e é nessas alturas que temos noção de quão insignificantes são as coisas com que nos preocupamos, quando confrontadas que algo efectivamente importante.

São 6 da manhã, estava deitado e levantei-me para te vir escrever aquilo que não te soube dizer, e não sei o que escrever. Gostava de te dizer que a vida continua, que vái tudo ficar bem, que eventualmente a vida volta ah normalidade, mas não sou capaz de te mentir. Não vai. Nada vai ser o mesmo, tu não vais ser o mesmo, nem a tua casa, nem a tua vida, e não há palavras que mudem isso, nada do que eu escreva vai fazer diferença, desculpa amigo, queria-te fazer sentir melhor e não sei se sou eu que não sei como, ou se não há mesmo maneira de o fazer.

Posso-te dizer o seguinte, tenho estado com o Fatty, e rimo-nos quando estamos juntos, divertimo-nos, gosto de estar com ele e acho que ele gosta de estar comigo, a mãe dele morreu, e naquela altura eu achava que ele tambem, mas ele continua vivo, e eu sei que ele ainda pensa nela, da mesma maneira que tu vais continuar a pensar nele, mas se o Fatty já consegue rir outra vez tambem tu tambem vais conseguir. Passei pela antiga casa dele no outro dia, e estava um senhora velhota á janela, no sitio onde a mãe dele costumava estar, e eu pensei para mim que ainda havia vida naquela casa, não era a mesma vida, mas era vida! Tal como a tua, não vai ser a mesma, mas vai continuar a ser, e eu vou continuar do teu lado, porque é isso que nós amigos fazemos uns pelos outros.

Desculpa se não soube o que te dizer então, desculpa se ainda não sei o que escrever agora, mas as vezes as palavras atrapalham quando a unica coisa que se precisa no mundo é de um ombro amigo, e esse nunca te vái faltar. Não vái ficar tudo bem, as coisas não vão voltar á normalidade... mas daqui a uns tempos vamo-nos sentar no café e falar das merdas que nos arruinam a vida, e vão ser outra vez gajas, e carros, e dinheiro e dár porrada no gajo que te deve 50cts... e vamos rir outra vez.

Podes contar sempre comigo.
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