At Last ...

Passei a Analise I e II, queria ligar-te e dar-te a novidade, mas há tanto tempo que não falamos que já nem encontrei em mim a coragem para discar o teu numero. Não telefonas, não escreves, passa tanto tempo sem dizeres nada. Era suposto isso mudar alguma coisa em mim, mas não muda. Sei que aqui vens, de vez em quando, ver se o post que te prometi está escrito e nunca o encontras, mas hoje vai ser diferente...

Tenho a casa dos meus sonhos imaginada ao pormenor, o portão da garagem, a madeira da porta de entrada, o chão da cozinha, a cor do quarto das crianças, a banheira de canto, ou a disposição da piscina em relação aos pontos cardeais para rentabilizar as horas de sol. Sei-a de cor, memorizada de tal maneira que acho que não vou conseguir ser feliz em mais lado nenhum, e isso não me preocupa, acho que tudo aquilo que eu conseguir imaginar, alguém consegue construir, e que mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos sacrifício vou entrar pela porta de entrada, feita na madeira que eu escolhi para a casa com que sempre sonhei, e encontrar quem eu sempre quis que lá estivesse a minha espera. E é aqui que as coisas se complicam.

Se tenho a minha casa imaginada ao pormenor, tenho a mulher dos meus sonhos fantasiada até ao último fio de cabelo, o modo de andar, percorrendo um trapézio que não está com um pé diante do outro em saltos vertiginosos, a saia justa, a maneira como desvia o cabelo dos olhos com o indicador da mão direita, o traço preto nos olhos ou como atende o telefone, a facilidade com que encontra as chaves do carro dentro de uma pouchette minúscula que tem dentro mais tralha que uma drogaria.

Mas os anos passam e a lista cresce, e ninguém aparece, suspeito que muito por culpa minha. Se era complicado encontrar quem eu tinha imaginado há 10 anos atrás quando a lista ainda ia a meio, todo este tempo volvido tornou-o impossível. Imaginamos a quantidade de filmes e musicas e mulheres que precisamos para chegar ao ideal que criámos que o mais certo é não existir alguem que reúna em si tudo aquilo com que sonhamos.

É quando isto nos atinge que paramos para pensar em como aquilo que desejamos nos condiciona tanto quanto nos move na vida. É quando temos noção de que ao contrário da casa, não há ninguém que possa construir quem queremos para connosco lá morar, que nos apercebemos que se não aprendemos a ser felizes com alguém de verdade, vamos acabar na casa que, sozinhos, não é mais a que imaginamos. É quando largamos do sonho e descemos á Terra, quando tocamos com os pés no chão que vimos que aquilo que a absurda utopia da nossa ilusão nos dá não chega para uma vida inteira.

A vida é muito mais aquilo que sabíamos desde o inicio que aquilo que fomos aprendendo pelo caminho, e eu sempre soube quem tu eras para mim. É quando desistimos de sonhar um sonho que não serve mais e decidimos procurar alguém que o torne verdade, que vimos que tudo quanto sonhamos esteve sempre diante dos nossos olhos se apenas nos tivéssemos dado ao trabalho de olhar. Há muito que percebi isso, que estava demasiado ocupado a sonhar por alguém como tu, para dar conta que era contigo que eu sonhava. Existes, és de verdade, e eu não conseguia ter-te sonhado melhor.

Aqui o tens Zá, o teu post, At last... but certainly not least.
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