Avó Dois

Muito do que sente perde-se no trajecto que vai da tona até ao fundo de nós, mas quando nos sobe à boca o coração e os nervos trepam à flor da pele, o que nos arrepia a nós, arrepia tambem o caminho daquilo que nós vai na alma, e sái-nos a dor em palavras, e se há dias que a dor ajuda a dizer o que sinto, tambem os há em que dor é maior que o que sei dizer, porque há dores que não passam, feridas que não saram mais, e dias que vão durar para sempre.

Não nasci a tempo de conhecer o Avô Zé, e do Avô Risques já só tenho recordações que vou passando em repeat para me certificar de que nunca me esqueço dele. Tive de crescer sem avôs, mas tinha-te a ti, eras o meu trunfo, e nunca te disse isso. Não tinha avôs, mas tinha uma bisavó, uma avó por duas vezes, e isso equilibrava as contas e fazia do mundo um sitio justo outra vez.

Os teus 93 anos deixavam toda a gente muito admirada, tão velhota, toda a gente menos a mim, ninguem percebia e eu tambem não explicava, que tanto quanto eu sabia ias viver para sempre, já eras velhota quando eu nasci, foste velhota enquanto eu cresci, e agora que eu já sou crescido avózinha, continuavas a mesma velhota que eras no dia em que eu nasci, e pouco importava se eu envelheci 26 anos entranto, o tempo sempre passou sem dár por ti.

Sem ti avó, vamos perder a conta uns aos outros e deixar de saber quantos somos, de saber quando é que alguem faz anos, e deixar de celebrar aniversários, vamos ficar para sempre com a idade que temos agora porque só tu é que sabes o dia de aniversário de toda a gente, dos filhos, dos primos, dos tios, dos netos, dos bisnetos, ou da filha da vizinha do pátio, do teu pátio avó, que sem ti lá deixa de ser teu para não ser de ninguem.

A última vez que te fui ver, entrei na enfermaria e não estavas lá, estavas na salinha da televisão, com a avó Mª Antónia e a tia Ricarda, o tio João António e a tia Belinha, que quando me viu chegar perguntou se eu tinha apanhado um susto quando não te vi no quarto, eu disse que não, porque queria acreditar que tu tinhas um plano. Não ficavas boa, porque não querias, porque assim tinhas visitas todos os dias, a fazermos-te companhia, porque estavas farta de estar sozinha entre aniversários, e achei que te devia visitar menos vezes, porque com tanta familia por perto a toda a hora então é que decidias nunca mais te por boa outra vez, e voltar para casa.

Foi a ultima vez que te vi, sentada na sala a ver televisão, com os filhos e os netos de volta, no fim da visita, antes de me vir embora, entre os meus beijinhos disseste que me adoravas como quem diz adeus, e eu disse que tambem te adorava a ti sem saber que te estava a dizer adeus de volta, foi a ultima coisa que te disse, desculpa avó, desculpa não to ter dito mais vezes, desculpa tudo o que te queria ter dizer e não disse, queria te ter dito que eras o meu trunfo, a minha cartada, e agora sem ti... não tenho nada.

Para a minha avó Custódia, a avó dois, do mais velho daquele que é agora um numero incerto de bisnetos, que a adorava mais que aquilo que alguma vez lho disse, e que tem tantas, tantas, saudades dela.
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