Two wrongs don't make a right

Cataró,

A nossa amiga em comum gostava de mim, e gostava de ti, que achou que seria optimo se conseguíssemos gostar um do outro, até porque tu tinhas tanto azar com rapazes, que já era tempo de aparecer alguém como eu na tua vida e dar a volta à tendência negativa. Foi essa a frase que me deixou a pensar nos meses que se seguiram, ainda hoje dou por mim a tentar fazer sentido de tudo isso... mas agora faz.

É tão fácil conquistar quem queremos, só temos de nos fazer passar por aquilo que a outra pessoa procura. É assim tão facil. As coisas só se começam a complicar quando tentamos então perceber o que é que a outra parte procura então, porque nem toda a gente procura as mesmas coisas, para umas é suposto mostrar que tenho bue dinheiro, ou fingir que tenho, para outras tenho de descolorar o cabelo comprar um wet suit e uma prancha de surf, outras ainda conquistam-se passado por elas todas as terças no Docks, todas as quartas no W, todas as quintas no Lux, ao Sabado á noite no RS, e cruzarmo-nos com ela dia sim, dia não na praia da Morena, ou na Cabana do Pescador, excepção feita áquelas que para conquistar-mos temos de dár continuamente para trás, porque só gostam de quem não gosta dela, e essa é uma situação complicada, uma vez que no dia em que deixares de dár para trás, elas deixam de querer qualquer coisa contigo, logo a maneira de as conseguir, na realidade passa por nunca as querer, que nos deixa num loop que não nos leva a lado nenhum, e mais vale esquece-las, que, à luz desta teoria, nos torna automaticamente inesqueciveis, enfim.

Mas claro que ninguem consegue fingir ser outra pessoa o tempo inteiro, e ai uma de duas coisas acontece, ou a) acabam, quando uma das partes não consegue fingir mais, e a outra ainda não está pronta para deixar de fingir, ou b) deixam de fingir os dois e percebem que "The real you is more interesting than the fake somebody else" e com um bocado de sorte, quando se conhecem verdadeiramente por aquilo que são, não ficam surpreendidos com o que encontram, como a Carrie dizia, "If you find someone to love the you you love, well, that's just fabulous".

Depois há um outro tipo de pessoas, aquelas que já não tem paciencia ou disposição para joguinhos que no fundo são só uma perda de tempo, e que acham que alguem que se interesse por eles, vái ter de ser interessar desde logo por aquilo que eles são, sem espelhos nem cortinas de fumo, sem truques. Acredito que eventualmente todas a pessoas chegam a essa parte, umas mais cedo que outras, outras mesmo tarde demais, mas ainda assim, com a idade, toda a gente percebe quando é altura de parar com as mentirinhas e ser honesto em relação a nós e aquilo que esperamos dos outros.

Foi aqui que as coisas correram mal entre nós, eu digo o que penso e faço o que digo, e tu não estavas preparada para lidar com a minha honestidade, para o "Gosto de ti e quero passar mais tempo contigo, e logo se vê o que acontece", desculpa, não é o tipo de coisas a que tás habituada, eu compreendo, e não faz mal, até porque outra das coisas que faltou dizer sobre as pessoas que não tem paciencia para os joguinhos, é que tambem não tem paciencia para quem ainda tem, logo, se o que fiz não foi o que era suposto fazer, foi só porque tu não eras quem eu esperava que fosses.

Eu não sei se já percebeste isto, mas eu explico-te seja como for. Temos de ter cuidado com aquilo que desejamos, porque por vezes depois de o conseguirmos, não é nada daquilo que esperavamos que fosse. Eu estou perfeitamente ciente de todo o mecanismo por detrás das relações, é como é muito mais motivante alguem que nós dá luta, que nos dá para tras, e tem outras 200 miudas atras, e a vontade que dá de mostrar que somos melhores, que conseguimos para nós o que todos os outros queriam para eles, ir pá cama com a Miss Caloira, ou namorar com a Rainha do Baile de Finalistas, been there, done that, acredita, eu sei. Aquilo que te falta perceber é que ninguem com a predisposição para os joguinhos vái deixar de brincar só porque chega uma altura ou aparece alguem, com quem é suposto atinar. Porque depois de conseguires, já ñ tem piada, e tens de arranjar um desafio novo, ou porque as 200 miudas continuam lá, porque a tentação é grande, porque a carne fraca, porque foi só desta vez, porque não significou nada, e quando dás por ti, lá está o teu azar de sempre a bater-te á porta, sem que nunca percebas o que é que fizeste de errado.

Desculpa se te desiludi, se a minha sinceridade não tinha lugar na tua agenda, mas a ideia nunca foi fazer parte do jogo, mas antes deixar-mo-nos os dois joguinhos. Mas deixa, és nova, é natural que nada disto faça sentido, mas volta daqui a 5 anos, por essa altura a minha honestidade de hoje não te vái parecer algo assim tão terrivel, meu bem.


Joana,

Não quisseste saber mas eu vou-te contar na mesma.

Sinceramente, não sei porque raio te perguntei o nome, ou o que é que eu achava que ia conseguir com ele, talvez se te chamasses Natercia faria todo o sentido, até porque só há 176 Natercias no Hi5, mas Joanas há 34.000, e lá para a 14.000 e qualquer coisa achei que era só absurdo... e sim, ainda cheguei à 14.000 e qualquer coisa.

Achei que tinha de te encontrar de outra maneira qualquer e das poucas coisas que me lembro foi de te ver com imensos sacos na mão, e numa dedução lógica concluir que, ou andavas com 1000€ na carteira, ou tinhas pago com cartão, e partiu daí, "Serendipity" anyone? Na semana seguinte voltei á loja, e disse que tinha comprado dois artigos (o meu e o teu) e que tinha pago um com dinheiro (o meu) e outro com cartão (o teu) mas que só me tinham dado o recibo do primeiro, na tentativa de me darem o teu talão. Disseram que só passavam segundas vias com a apresentação do talão original o que me soou um bocado absurdo, até porque se alguém tivesse o talão original, não precisava da segunda via para nada, mas adiante, só para dar credibilidade à minha história até deixei uma reclamação por escrito.

Depois disso achei que ia ser complicado, até falar com um amigo meu num banco que me disse que a única coisa que ele precisava era do ID do estabelecimento para saber as transacções feitas em tal dia a certa hora, e que qualquer talão multibanco trazia essa indicação. Voltei á loja e comprei uma porcaria qualquer (a segunda que compro por ti, já que a primeira foi a desculpa para voltar para ao pé de ti na fila da caixa, que motivou tudo isto) para pagar com cartão e com isso ficar com o ID da loja para o meu cumplice no banco, com a data e hora, que sabia do meu talão.

O nosso affair ter-se passado pela altura do natal, e termos pago numa caixa que está fechada o resto do ano complicou um bocadinho as coisas. Ao telefone disse-lhe também que sabia que a tua transferencia era de 59,90€ ou 69,90€, qualquer coisa assim, e ele diz-me que o único 59,90 que aparecia era de 10 minutos depois e já não podias ser tu. Pedi-lhe então para ver nos outros multibanco da loja, e ele diz que o mais parecido é uma compra de 49,90 um minuto depois da minha. Perguntei-lhe o nome do titular do cartão e quando ele disse "Joana" soube que te tinha encontrado.

Daí ao teu número de telefone ainda passou uma semana, o tempo que levaste a carregar o telemóvel, da referência multibanco ao teu número foi facil. Depois disso foi o tempo que precisei para ganhar coragem de te dizer qualquer coisa, daí em diante sabes como foi, ou melhor, como não foi.

E é esse “como não foi” que me faz confusão. Não sei nada de ti, sei o teu nome e apelido, o ano em que nasceste, o número do teu cartão e que tens um medidor de batimentos cardíacos. Não faço ideia se namoras, se não namoras, ou se és casada e mãe de gémeos que vestes a condizer quando os levas ao parque, e sinceramente não me importa, o que eu acho estranho é não teres o mínimo interesse em saber mais de alguém que se deu a tanto trabalho para te encontrar.

Que outra pessoa se tinha dado ao trabalho que eu dei ou feito metade daquilo que fiz em nome da mais pura noção de romance, motivado por uma ideia utopica e ultrapassada de "amor á primeira vista" por alguem com quem trocou duas frases? E que tipo rapariga não se deixa arrebatar por 4 meses de esquemas mirabolantes que desafiam a lei e a imaginação, num esforço titanico para te voltar a encontrar? Desfez-se a ilusão que tinha tua, mas pior que isso, desfez-se a ideia que tinha de finais felizes, de que no fim, tudo acaba bem, e o rapaz com a rapariga, felizes para sempre.

E agora a parte interessante, é que já nem isso me importa já que importância não se dá, retribui-se. "It's the journey, not the destination" e a parte importante é que te encontrei e isso muda tudo! Todas as vezes que troquei um olhar com alguém que não voltei a ver e em quem não consegui parar de pensar, não teria eu deixado partir "a tal" sem lhe ter dito nada e perdido a minha oportunidade de ser feliz, acabaram, pelo simples facto de eu ter conseguido encontrar, e se te encontrei a ti, tivesse-me eu esforçado, tinha-as encontrado a elas tambem.

Ou seja, és de uma vez só, todas as miúdas que me partiram o coração num bar ou discoteca e que eu deixei ir embora sem dizer nada, todas aquelas raparigas com quem troquei um olhar na fila do cinema ou um sorriso parado num semáforo enquanto esperavamos o cair do verde, e de quem nunca mais voltei a saber. Todas as raparigas que imaginei a mulher dos meus sonhos e idealizei perfeitas preenchendo o tanto que eu não sabia delas com aquilo que eu queria que fossem, que na realidade estava longe de ser quem eram, e tu mostraste-me isso, porque te encontrei, e porque depois de te encontrar, não fomos felizes para sempre, não fomos nada, e esse não foi o fim que eu tinha imaginado.

Graças a ti, agora sei que não perdi nada, desta e de todas as outras vezes que vieram antes em que achei que devia ter tido a coragem para fazer qualquer coisa, não fossem elas alguem que me arrependesse de ver partir. Mas agora sei que não eram tal como tu não foste, que por mais absurdo que possa parecer, é tão melhor que o contrario. Acabasses tu por te revelar o amor da minha vida, e sei lá eu, quantas das outras não o tinham sido sem que agora pudesse saber, chega mesmo a ser um alívio, e não conseguia ter percebido isso sem ti, sem a desilusão que foste, ou que nem chegaste a ser.

Mas confia, de que pode tardar mas há-de concerteza chegar, o dia em que vais querer para ti um amor que não quer saber de mais nada nem de mais ninguem e que faz o que for preciso para chegar onde quer estar, um amor como o que eu te tive e que tu não quizeste saber, e a duvida sobre tudo o que podia ter sido vai ser o quanto é preciso para saberes que eu tinha razão.

A psicologia diz-nos que pessoas que passaram anteriormente por situações traumáticas reagem muito melhor em novo momentos de crise, se calhar aplica-se o mesmo nas relações. Sempre achei que as relações que corriam terrivelmente mal, te ensinavam e preparavam muito melhor para o futuro que aquelas que simplesmente não funcionavam, o que não sabia era que relações que nunca chegaram a ser, pudessem fazer o mesmo, e agora sei. Tudo está bem quando acaba bem, e se quando acaba mal... melhor ainda. Obrigado a ambas.

... what wasted unconditional love, on somebody who doesn't believe in the stuff, oh well.
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