Hit me, baby, one more time!

Se querem que vos diga, nem sei bem qual é o meu problema ou se o é mesmo meu o problema, a única coisa que sei é que estou velho, seja lá o que isso for, estou velho no sentido em que já n tenho paciência para couros, e engates e figuras ridículas, nem sequer tenho paciência para joguinhos que não levam a lado nenhum ou mesmo que levem, já não tenho idade nem disposição para me andar a fazer de difícil nem para aquelas que se fazem de difíceis.

Já tive 18 anos, já foi o gajo popular do liceu, já fui pá cama com a rainha do baile de finalistas, já namorei com a boazona do secundário, já fiz essas coisas todas, been there, done that, moving on! Mas parece que nem toda a gente pensa assim ou nem toda a gente passa por essas fases na idade em que é suposto, há pessoas que ficam anos presas na puberdade, décadas, há outros então que nunca chegam a sair de lá e encalham na puberdade o resto da vida.

Abomino couros, abomino engates, acho vulgar e de mau tom, baixo nível e recuso-me a participar ou fazer parte desse tipo de coisas, para mim as coisas são bué simples, se por acaso conheço uma rapariga que me desperta a atenção ou por quem fico interessado, convido-a para sair, e ela aceita ou não aceita, se aceita, óptimo, se não aceita porque tem qualquer coisa para fazer, ou já tem qualquer coisa combinada, muito provavelmente até a volto a convidar passado uma semana, ou duas, e se ela voltar a ter qualquer coisa para fazer, não a convido mais vez nenhuma, porque das duas uma, ou não quer, ou não pode, se não quer não faz sentido voltar a convidar, se não pode, não faz sentido voltar a convidar, logo vai dar no mesmo, até porque já convidei e ela não pode, logo se até não deu mesmo para sair, mas ela até queria ir sair, agora que sabe que eu também queria, que me convide a mim tal como eu a convidei a ela.

Mas vamos imaginar que até aceita o meu convite para sair.

Eu sou um gajo bué romântico, e bué esforçado, odeio daquelas saídas do "Vamos onde?" "Decide tu!" "Não decide tu!" "Não decide tu!" ... Eu decido tudo, e trato de tudo para que as saídas sejam perfeitas, o restaurante, o bar, o miradouro, o concerto, o teatro, as horas, trato de tudo ao pormenor para que corra tudo às 1000 maravilhas, e se por acaso nos divertimos, e gostamos da companhia um do outro, eu sou bué sincero em relação a tudo, porque lá está, estou velho e não estou para perder tempo com joguinhos estúpidos.

Quando a for deixar a casa, provavelmente digo qualquer coisa do género "Diverti-me bué, gosto de estár contigo. Devíamos fazer isto mais vezes." E suponho que seja aqui que o meu pseudo-problema começa.

Sou fácil, ou deve ser essa a ideia que transmito, como me esforço por agradar, e como digo que o que penso e o que sinto, e que devíamos sair mais vezes, é obvio que estou interessado, e como o que não dá luta não tem piada, eu passo para segundo plano, porque já devo estar conquistado, e rendido aos seus encantos, e ela entra no espírito do fazer-se difícil para dar luta e ter piada, o demorar 2 dias a responder a uma mensagem, e outros exemplos que tal, e eu estou nem ai para isso, logo, estou fora! Tchau ai!

Eu não digo mais nada porque tenho pouca paciência para miúdas convencidas, e ela não diz nada porque se está a fazer difícil e é suspoto eu convida-la mais quatro vezes até ela voltar a aceitar, e com isto... somos felizes os dois, ela na dela, eu na minha.

Eventualmente ela vai arranjar um gajo como o que ela procurava, um gajo que se faça difícil, que dê bué luta, que tenha bué gajas atrás dele (o tal pessoal que ainda está preso na puberdade aos 26 anos) para ela conseguir andar com ele, e convencer-se que é melhor que as outras tipas todas que queriam o mesmo, e prontos, passado 2 meses ela descobre que afinal não detêm a exclusividade, porque nisto ele continuou no engate com as outras todas e mamando uma ou outra sempre que pára no W, ou no Lux, ou no Docks e as coitadinhas ficam destroçadas porque... e isto é uma citação recorrente... "TENHO BUE AZAR COM RAPAZES" porque é que será que nunca encontram alguém fixe, honesto, sincero, com quem possam contar... Ahhhh espera! O RISQUES! Já nem me lembrava dele!

- Oi, então, nunca mais disseste nada, quando é que vamos sair outra vez?

HUH? LOL... Ah pois é, e assim de repente a minha honestidade de antes agora é bué recomendável, e os joguinhos já são uma estupidez e uma perda de tempo e parece que eu afinal tinha razão, mas vêem tarde porque já tiveram a oportunidade delas e acharam por bem dar para trás porque eu estava a ser fácil não era? Então como agora são elas que tão a ser fáceis, eu faço o mesmo, e estou nem ai pás rapariguinhas, vão lá andar com o elenco dos Morangos que por esta altura eu já percebi que não são o tipo de miúda que eu quero para mim, logo está tudo bem outra vez.

Meaning, acabo por me lixar sempre, porque se entrasse no jogo, safava-me, mas como não faço o que é suposto fazer, nunca dá em nada, e passado dois meses vem perguntar porque é que nunca mais disse nada, como se eu não soubesse as regras do jogo, sem nunca perceberem que o plano nunca foi fazer parte do jogo, mas antes acabar com os joguinhos.

O mais reconfortante, é saber que não perdemos nada, porque uma miúda que ainda esteja "nessa fase" não é OBVIAMENTE aquilo que eu estou á procura que está bem para lá de simplesmente querer "arrumar o Volkswagen na garagem" já que, e aqui as opiniões dividem-se e tenho amigos que dizem que sou ingénuo e amigas que dizem que sou só estúpido e não vejo o que está mesmo á minha frente uma vez que outro dos problemas do estar farto de engates, affairs, one night stands que não vão dar em nada sério, acaba por ser outro, quando elas andam a ver se as levo para a cama, e eu ando preocupado em escolher a cor para o quarto das crianças, para o "Afonso" se for rapaz "Alice" se for menina, o que pelos vistos é um "major turn-off".

Há um excerto do "Amor é Fodido" do Miguel Esteves Cardoso que gosto particularmente.

- Estou sempre a voltar á Teresa. Mesmo quando estava com as outras era essa a minha actividade principal: voltar à Teresa. Ainda tentei repetir algumas brincadeiras com as outras, mas eram elas que sugeriam para me animar - e não era a mesma coisa.
Eu dizia «diz: Bate-me!»
E ela dizia «Bate-me!» muito baixinho, com medo de levar mesmo uma chapada.
E eu dizia «Diz como se te apetecesse mesmo!»
E ela invariavelmente: «Porque é que não me fodes e não me deixas em paz?

... e no fundo acho que é isso, ando bué iludido em noções ultrapassadas de romance, quando é suposto fode-las e deixá-las em paz.

Agora a parte do ódio, para no fim haver uma moral da história e não cair em off-topic.

Odeio perceber isso tudo, odeio ter noção de tudo, e fazer tudo sentido, ainda que há sua maneira meio absurda. Odeio saber o tipo de gajo que tenho de ser para sacar quem quero, ou o tipo de coisas que tenho que fazer para andar com quem quero... e odeio ter as minhas convicções tão cimentadas, que não me admito sequer fraquejar para conseguir esta ou aquela, e depois odeio ficar chateado por não as ter sabendo que fazendo as coisas a que me nego, conseguia, o que faz com que corra sempre mal, faça eu aquilo que fizer.

In: http://www.puntopt.net/forum/viewtopic.php?f=7&t=12448&st=0&sk=t&sd=a&start=645#p190311

P.S. Parabéns Filipa

Qualidade do que é descartável

Morreu uma amiga minha, matei-a! Matei-a com a frieza com que matei todos os outros que vieram antes dela e que um a um foram caindo até não sobrar ninguem. Stalin disse que a morte resolve todos os problemas, mas não sei se a morte dela não veio criar mais problemas que aqueles que pretendia resolver.

Mata-la foi fácil, dificil foi vê-la morrer e com ela todos os planos a dois, o nosso plano B para ser feliz em que se aos 40 anos nenhum de nós estivesse casado, ficavamos um com o outro e eramos felizes os dois, o medo de que funcionasse e o que isso ia significar, de que tinhamos desperdiçado todo este tempo... todos estes anos, quantos? Dez? Mais? Lembro-me da nossa primeira conversa àquilo que agora parece um milhão de anos, lembro-me da última como se tivesse sido ontem, se calhar foi.

Não páro de me surpreender com a facilidade com que os amigos me trocam, não sei qual é a tua desculpa, tenho a certeza que há uma, uma elaborada explicação a roçar o plausível para tudo o que aconteceu, uma série de acontecimentos infelizes aos quais foste completamente alheia que resultaram naquel fatídico fim de tarde. Pouco me importa, pouco me interessa, dispenso a tua explicação, as tuas mentiras, se foi por ele, por ti, ou a troco de um pacote de amendoins, digo-te o mesmo que disse a todos os outros agora defuntos a quem seguiste o exemplo, espero que seja o que for que ganháste compense o teres-me perdido. Espero que tenha valido a pena e que encontres seja o que for procuras.

Hesitei antes de te matar pelo tanto que gostava de ti, mas se importancia não se dá, retribui-se, achei que não importa, já que não gostavas de mim de volta na mesma medida, não te queria matar, gostava demasiado de ti, mas gostava também dos que vieram antes de ti, e não foi por isso que os poupei, mas contigo foi diferente, não pensei em poupar-te por ti mas por mim, que matei toda a gente, sobraram tão poucos, que não te queria perder também, não queria ficar sozinho.

Foi isso que mudou desta vez, foi isso que me fez pensar, em como era mais facil perdoar-te e fazer de conta que não aconteceu nada, fechar os olhos, só desta vez para que tudo continuasse bem entre nós, dois amigos com um plano B para ser feliz, como era tá mais facil deixar passar e poupar-me ao trabalho e tristeza que o contrario trazia.

E foi aí que percebi, em como o verdadeiro desafio está em ser infeliz, em estár sozinho. O ser feliz é fácil, ter um grupo de amigos enorme onde já se perdoou algo a algum, a qualquer um, a todos, eles falham-nos a nós e nós em contra-partida falhamos a eles e isso equilibra a balança, é facil, desde que estejamos dispostos a ser como eles e a fazer o mesmo que eles fazem. Um namoro invejável onde ambos se adoram e são fieis um ao outro, tirando esta ou aquela vez de que já ninguem se lembra ou fingem não se lembrar e é como se nunca tivesse acontecido, que não significou nada, nenhuma das vezes, e só os fez ver quão precioso era aquilo que tinham e como fortalecida a relaçao saiu do meio dos escombros. Os casamentos que chegam ás bodas de prata, ás bodas de ouro, e os filhos ilegitimos pelo meio, a traição perdoada, a roupa interior encontrada no banco de trás do carro, porque o divórcio dá demasiado trabalho, os filhos, a casa, os carros, as contas, os cães e quem fica com o periquito...

São esses os casamentos que duram, os unicos casamentos que duram, os namoros que funcionam, os unicos namoros que funcionam, as amizades á prova de bala. Os da gente demasiado cobarde para fazer a coisa certa, a complicada e que nos deixa a vida do avesso e nos faz começar de novo, a que requer coragem e espirito de sacrificio, porque o ser feliz é facil, é o ser infeliz que dá trabalho, o mantermo-nos fiel aos principios que trazemos de trás e dos quais não estamos dispostos a abdicar por nada nem ninguem, os mesmos principios que vão deixando vitimas pelo caminho, e nos fazem seguir cada vez mais sozinhos com os poucos que vão resistindo, e a altura chega em que nos cansamos de estár sós e olhamos em redor para os corpos caidos em nossa volta e temos vontade de lhes dár uma mão e os ajudar a levantar, o "forgive and forget", as segundas oportunidade... porque no fundo é o querer ser feliz que nos move, e há falta de uma felicidade de verdade, pode ser que uma de faz de conta sirva, forçamo-nos a acreditar que as pessoas mudam, aprendem com os erros, que vái ser diferente desta vez, só desta vez, agora que viram que não toleramos deslizes, e queremos tão piamente acreditar nisso que o tornamos verdade, porque mais que querermos ser felizes, estamos demasiados cansados do contrario...

É preciso uma força de vontade do tamanho do mundo para resistir á tentação da ilusão de felicidade junto daqueles que fomos deixando para trás e continuar sós, infelizes em busca de algo que não temos sequer a certeza existir, mas é o querer ser feliz que nos move, que nos continua a mover apesar de todas as facadas e traições, depois das decepções e desilusões, na esperança de tambem nós encontrármos aquilo que procuramos, e que ao aparecer, faça com que tudo tenha valido a pena, para nós, como antes fez para eles.
Free counter and web stats