Qualidade do que é descartável

Morreu uma amiga minha, matei-a! Matei-a com a frieza com que matei todos os outros que vieram antes dela e que um a um foram caindo até não sobrar ninguem. Stalin disse que a morte resolve todos os problemas, mas não sei se a morte dela não veio criar mais problemas que aqueles que pretendia resolver.

Mata-la foi fácil, dificil foi vê-la morrer e com ela todos os planos a dois, o nosso plano B para ser feliz em que se aos 40 anos nenhum de nós estivesse casado, ficavamos um com o outro e eramos felizes os dois, o medo de que funcionasse e o que isso ia significar, de que tinhamos desperdiçado todo este tempo... todos estes anos, quantos? Dez? Mais? Lembro-me da nossa primeira conversa àquilo que agora parece um milhão de anos, lembro-me da última como se tivesse sido ontem, se calhar foi.

Não páro de me surpreender com a facilidade com que os amigos me trocam, não sei qual é a tua desculpa, tenho a certeza que há uma, uma elaborada explicação a roçar o plausível para tudo o que aconteceu, uma série de acontecimentos infelizes aos quais foste completamente alheia que resultaram naquel fatídico fim de tarde. Pouco me importa, pouco me interessa, dispenso a tua explicação, as tuas mentiras, se foi por ele, por ti, ou a troco de um pacote de amendoins, digo-te o mesmo que disse a todos os outros agora defuntos a quem seguiste o exemplo, espero que seja o que for que ganháste compense o teres-me perdido. Espero que tenha valido a pena e que encontres seja o que for procuras.

Hesitei antes de te matar pelo tanto que gostava de ti, mas se importancia não se dá, retribui-se, achei que não importa, já que não gostavas de mim de volta na mesma medida, não te queria matar, gostava demasiado de ti, mas gostava também dos que vieram antes de ti, e não foi por isso que os poupei, mas contigo foi diferente, não pensei em poupar-te por ti mas por mim, que matei toda a gente, sobraram tão poucos, que não te queria perder também, não queria ficar sozinho.

Foi isso que mudou desta vez, foi isso que me fez pensar, em como era mais facil perdoar-te e fazer de conta que não aconteceu nada, fechar os olhos, só desta vez para que tudo continuasse bem entre nós, dois amigos com um plano B para ser feliz, como era tá mais facil deixar passar e poupar-me ao trabalho e tristeza que o contrario trazia.

E foi aí que percebi, em como o verdadeiro desafio está em ser infeliz, em estár sozinho. O ser feliz é fácil, ter um grupo de amigos enorme onde já se perdoou algo a algum, a qualquer um, a todos, eles falham-nos a nós e nós em contra-partida falhamos a eles e isso equilibra a balança, é facil, desde que estejamos dispostos a ser como eles e a fazer o mesmo que eles fazem. Um namoro invejável onde ambos se adoram e são fieis um ao outro, tirando esta ou aquela vez de que já ninguem se lembra ou fingem não se lembrar e é como se nunca tivesse acontecido, que não significou nada, nenhuma das vezes, e só os fez ver quão precioso era aquilo que tinham e como fortalecida a relaçao saiu do meio dos escombros. Os casamentos que chegam ás bodas de prata, ás bodas de ouro, e os filhos ilegitimos pelo meio, a traição perdoada, a roupa interior encontrada no banco de trás do carro, porque o divórcio dá demasiado trabalho, os filhos, a casa, os carros, as contas, os cães e quem fica com o periquito...

São esses os casamentos que duram, os unicos casamentos que duram, os namoros que funcionam, os unicos namoros que funcionam, as amizades á prova de bala. Os da gente demasiado cobarde para fazer a coisa certa, a complicada e que nos deixa a vida do avesso e nos faz começar de novo, a que requer coragem e espirito de sacrificio, porque o ser feliz é facil, é o ser infeliz que dá trabalho, o mantermo-nos fiel aos principios que trazemos de trás e dos quais não estamos dispostos a abdicar por nada nem ninguem, os mesmos principios que vão deixando vitimas pelo caminho, e nos fazem seguir cada vez mais sozinhos com os poucos que vão resistindo, e a altura chega em que nos cansamos de estár sós e olhamos em redor para os corpos caidos em nossa volta e temos vontade de lhes dár uma mão e os ajudar a levantar, o "forgive and forget", as segundas oportunidade... porque no fundo é o querer ser feliz que nos move, e há falta de uma felicidade de verdade, pode ser que uma de faz de conta sirva, forçamo-nos a acreditar que as pessoas mudam, aprendem com os erros, que vái ser diferente desta vez, só desta vez, agora que viram que não toleramos deslizes, e queremos tão piamente acreditar nisso que o tornamos verdade, porque mais que querermos ser felizes, estamos demasiados cansados do contrario...

É preciso uma força de vontade do tamanho do mundo para resistir á tentação da ilusão de felicidade junto daqueles que fomos deixando para trás e continuar sós, infelizes em busca de algo que não temos sequer a certeza existir, mas é o querer ser feliz que nos move, que nos continua a mover apesar de todas as facadas e traições, depois das decepções e desilusões, na esperança de tambem nós encontrármos aquilo que procuramos, e que ao aparecer, faça com que tudo tenha valido a pena, para nós, como antes fez para eles.
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