It's love illusions I recall...

Não vos consigo dizer quando, mas consigo dizer-vos onde, na relva da tenda VIP no SBSR de hà uns anos atrás. Estavamos sentados entre um concerto e outro quando o vento sopra até mim um quadrado de papel dobrado em oito.

Podia não ter ligado, mas achei que algo tão meticulosamente dobrado devia ser importante, e liguei, peguei nele e desdobrei-o, quando o abro por inteiro guardava dentro um mail. Perfeito. Quem é que encontra um mail? Como é que se encontra algo que não se perde, que não é palpável? Mas encontrei.

Voltei a casa no fim dessa noite estafado de saltos e pulos, de xutos e pontapés e apetecia-me cair na cama e morrer, até porque para o dia seguinte estava agendado mais do mesmo, mas antes, liguei o computador, e adicionei-o ao messenger.

Passaram uns dias até ao mail ganhar vida, até eu falar com a Lisa. De inicio não estava a perceber quem eu era ou como tinha arranjado o mail dela, eu expliquei-lhe que o tinha encontrado e em pinceladas largas toda a minha teoria de em como o amor não se procura, encontra-se, e que á luz da mesma um mail que me aterra em cima, é algo impossível de ignorar.

Uma das primeiras perguntas que a Lisa me fez foi se eu era surfista, eu disse que não, e foi a primeira de uma longa lista de desilusões que lhe seguiram à medida que percebiamos que não tínhamos nada a ver um com o outro. De certo modo acho que me senti enganado, sabem? Achei que algo que começasse assim só podia acabar em algo maravilhoso, que chegava a ser cruel qualquer coisa tão imensamente improvável de acontecer não dar em nada, achei que era como que desvalorizamos todas as vezes em que o universo se desdobrou desde o inicio dos tempos para nos fazer chegar aos dois aquele ponto, e que senão por nós, por ele, e todo o trabalho a que ele se deu para nos juntar.

Lembro-me do nick que tinha no messenger e da foto que o ilustrava, e quando já pouca esperança restava para mim e para a Lisa, ela diz "vou dar o teu mail à minha irmã, ela passou por aqui, viu a tua foto, viu o teu nick, perguntou com quem é que eu estava a falar e eu contei-lhe toda a historia do amor não se procura, encontra-se, achou piada, quer falar contigo." … foi assim que eu conheci a irmã gémea da Lisa, a Sabrina.

Ainda hoje falo com a Sabrina, ainda agora falei, é uma rapariga brilhante, e ainda que por vezes estejamos muito tempo sem falar, quando falamos também é por muito tempo e as conversas estendem-se enquanto comparamos particularidades bizarras e tentamos descobrir qual dos dois é o mais disfuncional, tem sido renhido. Nunca a vi, acho que nunca falamos, sei que lhe tentei ligar umas vezes, dar-lhe os parabéns, já tive onde ela estuda, temos amigos em comum mas nunca estive com ela, e de certo modo, acho que ainda hoje me sinto enganado, sabem?

Penso sempre em romances assim, em como seria contada a nossa história passados 50 anos, e quando os meus netos perguntarem como conheci a avó, quero tanto que comece com um papel dobrado em oito a sobrevoar a relva ou outra coisa igualmente fantástica e impossivel, é tão deprimente "trabalhávamos juntos", "éramos da mesma turma", "aconteceu". Têm de haver loucura, demonstrações pungentes de afecto, gritaria, paixão, parvoíce, ouvi num filme que quem não está disposto a soar ridículo, não merece estar apaixonado.

A Joana... estava á minha frente na fila da caixa e eu achei-a a rapariga mais linda do mundo, soube ali que queria passar o resto da vida com ela. Demorei meio ano a arranjar o telefone dela por meios que chegando a quem de direito, eram quanto basta para me mandar prender, e que importa, se calhar se não estás disposto a ser preso também não mereces estar apaixonado, e se fosse preso melhor ainda, imaginar a emoção estampada na cara dos nossos netos ao contar-lhes que o avó foi preso por via das ilegalidades cometidas no processo de descobrir o numero de telefone da avó para a poder convidar para sair? As recordações que isso não ia trazer, o impacto que isso não ia ter ao ser recordado como uma daquelas histórias de amor em que "só antigamente" quando eu era novo, e em como já não há amor assim, como aquele que eu tinha imaginado para nós.

Trocámos umas mensagens antes de não voltar a ter noticias dela. Fiquei tristíssimo, desolado mesmo, partiu-me o coração. Pensar em tudo o que eu fiz, em todo o trabalho que tive ou nos riscos que corri, para nada. Achei que ia ser um daqueles esforços impossíveis de ignorar, demasiado inacreditavel para não ligar, que só podia acabar bem, porque é assim que as histórias de amor acabam, os bons ganham, o herói fica com a rapariga e viverem felizes para sempre, tem filhos e netos e ficam juntos "até que a morte os separe"... é isso que é o amor não é?

Estava a descer a rua á pouco, ao final da tarde. Começava a chover no verão de S. Martinho, e o vidro do carro enchia-se de pequenas gotas que ainda não apetece sacudir com as escovas. Do lado de fora uma rapariga subia junto ao passeio. Morena, e a chuva que caia fazia-lhe pesar o cabelo sobre a cara. Olhei para ela e ela olhou para mim, só uns segundos, mas uns segundos a mais que aquilo que seria normal, recordo-me de travar e de a ver abrandar enquanto tentavamos fazer aquele instante durar para sempre, e senti o mundo desacelerar para nós. Apeteceu-me parar, oferecer-lhe boleia e abrigo da chuva, leva-la a casa e pedi-la em casamento, e claro que não fiz nada. A minha hiperactiva imaginação quer acreditar que amanhã, ou no dia seguinte, vou chegar ao meu carro e ter nele um coração desenhado a dedo no pó do vidro da frente, um papel dobrado em oito debaixo da escova com um numero de telefone dentro... e também vos posso dizer que não vai acontecer.

Foi isso que percebi hoje, que sei o que o amor é para mim, mas o que o amor é para mim não é necessariamente o que o amor é para as outras pessoas, tanto quanto sei, o que acho que é amor é outra coisa qualquer que dá por um outro nome que eu não sei qual é e que de amor "AMOR" tem pouco ou mesmo nada. Que tenho estas ilusões ridiculas de romance, noções Hollywoodescas de como uma historia de amor devia ser, uma vaga ideia de como tudo devia acontecer para que no fim todos tivéssemos uma história de amor para contar, uma que valesse a pena ser contada, que valesse a pena ser ouvida, que inspirasse outros amores. Mas não sei o que é que esta minha noção de amor tem de tão extraordinario, talvez não seja assim que o amor de verdade funcione e por isso mesmo nenhuma delas deu em nada, por não serem nada daquilo que o amor é, daquilo que eu gostava que ele fosse... e nunca foi.

"It's love illusions I recall... I really don't know love at all", Joni Mitchell
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