Rottens apples from dying trees

Fui para jornalismo porque queria mudar o mundo. O super-homem é repórter, o Homem-Aranha fotógrafo, e achei que indo para jornalismo, ou também eu me tornava um super-herói ou eventualmente conhecia um que me treinasse, e toda a gente sabe que é muito mais fácil mudar o mundo quando se tem super-poderes.

A verdade é que fui para jornalismo porque a dada altura nos apercebemos que não vamos conseguir corrigir tudo aquilo que vimos de errado, há demasiadas coisas mal no mundo para que uma pessoa só as consiga emendar a todas, e quando cheguei a essa conclusão, entendi que uma vez que não ia conseguir endireitar tudo aquilo que está torcido no mundo, o melhor que podia fazer era chamar a atenção dos outros, e esperar que cada um fizesse a sua parte.

Fui para jornalismo porque acho que quem lá está faz um péssimo trabalho, são burros, inconvenientes, e não no sentido em que o jornalista deve ser fazendo as perguntas que incomodam, mas no sentido de fazer perguntas absurdas nas alturas menos oportunas. Acho que os meios de comunicação fazem um país, ditam o que é importante, ou quem não o é, elegem e derrubam governos e moldam a opinião pública a seu belo prazer, e se calhar é por isso que se é preciso ser um super-herói para dar num bom jornalista, "com grande poder vem grande responsabilidade" e fui para jornalismo por achar que os deste pais não estavam á altura do que se espera deles, e 3 anos de curso superior mais tarde, percebi porque.

Mais importante que outra coisa qualquer neste país é ter um curso superior, não importa de quê, desde que no fim da licenciatura sejam doutores de uma coisa qualquer, algo para o qual em teoria é preciso um doutoramento, mas isso dá demasiado trabalho e como tal, uma licenciatura vai ter de servir.

De curso acabado e quando vão procurar emprego a coisa não corre tão bem quanto eles esperavam, e para surpresa das surpresas curiosamente não há assim tanto trabalho, para antropólogos, sociólogos, arqueólogos ou engenheiros de minas, quem diria!

Eventualmente percebem que tiraram um curso completamente inútil, e que a única possibilidade de trabalho que lhes resta é ensinar as mesmas inutilidades que lhes ensinaram a eles, e concorrem para assistentes na faculdade, mas há muitos mais Dr. que aquilo que uma faculdade precisa de assistentes, e sobra então o básico e o secundário.

Quando abrem os concurso a professores, temos um zilião de aspirantes a professores, frustrados de outra coisa qualquer a concorrer sob o pretexto de "Eu sempre quis ser professor, eu adoro crianças!". O estado, esse, resolve a situação da maneira que lhes trará melhor publicidade, empregando o maior número possível sob o princípio de que, se um horário completo dá para 200.000 professores, um part-time dá para o dobro, e com 4h para cada um, damos emprego a esta gente toda! Fantástico!

... Ou não tanto. Quem não acha piada á estratégia, são os professores com 30 anos de ensino, que não vêem com bons olhos andar a discutir o lugar para professor de história do 7º ano na EB 2+3 de Valbom, com um tipo que desde que viu o “Parque Jurássico”, sonha em desenterrar dinossauros no médio oriente, e já velhos e sem paciência para esta ginástica profissional, metem os papeis pá reforma antecipada, porque tem mais que fazer que aturar esta gente, mesmo que o mais que fazer, passar por não fazer mais nada o resto da vida, e lá se escapa mais um (ou dez mil) do lado da população activa para o dos reformados.

No fim, temos os alunos da C+S José Silvestre Ribeiro na Idanha-a-Nova, com um professor de Educação Visual, cujo sonho era ter tirado arquitectura, mas diz que a média é alta e a Lusíada cara, então tentou Urbanismo, tal como todos os outros aspirantes a arquitectos que não tinham média para o curso a sério, e acabou por conseguir entrar para Arquitectura Paisagística, convencido de que é quase a mesma coisa. E claro está, enquanto houver um (dos milhares de) arquitecto a sério sem trabalho, bem que todos os outros aspirantes a tal podem esperar sentados.

O professor de educação física, que sempre quis ser médico, mas os pais não eram ricos (porque não eram médicos, e consta que o ser médico passa de pais para filhos) para lhe pagar o Fernando Pessoa, ou outro externato privado, de modo a que ele conseguisse acabar o secundário com a media que escolhia, e depois de ainda assim ter tentado medicina em Lisboa, e no Porto, e até nos Açores na 1ª, 2ª e 3ª opção da candidatura, Enfermagem na 4ª, 5ª e 6ª, fisioterapia nos politecnicos na 7ª, 8ª e 9ª... lá conseguiu colocação na 13ª em nutrição na Universidade Atlântica, para acabar os dias a mandar os alunos fazer o teste Cooper antes de os mandar pó balneário.

E o professor de Educação musical, um rejeitado do conservatorio que diz a quem quiser ouvir como passou ao lado duma grande carreira a tocar com a Orquestra Sinfónica de Berlim.

Como a vocação para professor desta gente, é só igualada pela capacidade de motivar os alunos, ou seja, nenhuma, as turmas a que dão aulas, e os alunos que ensinam acabam por tirar notas miseráveis ao longo de toda a sua escolaridade obrigatória e até ao 12º ano, condenados a ter professores cujo plano de vida ideal era estar a fazer algo completamente diferente a um milhão de quilómetros dali, e que pelo caminho roubam o lugar a um professor a sério, daqueles que nos mudam a vida e nos inspiram a fazer algo de útil com ela.

No regresso de Loret e ao chegar a altura de escolher um curso e olhar para a média, os nossos queridos alunos, vão acabar em algo parecido ao "Curso Superior de Língua e Cultura Portuguesa", ou pior ainda, na Lusófona, e passado uns anos, a concorrer para professor de Português na EB1 de Ribeira de Frades e passar os dias a fazer ditados.

Don't Panic!

"It's an important and popular fact that things are not always what they seem. For instance, on the planet Earth, Man had always assumed that HE was the most-intelligent species occupying the planet, instead of the *third* most intelligent. The second most intelligent creatures were, of course, dolphins who - curiously enough - had long known of the impending destruction of the planet Earth. They made many attempts to alert mankind to the danger, but most of their communications were misinterpreted as amusing attempts to punch footballs or whistle for tidbits. So they eventually decided they would leave Earth by their own means. The last-ever dolphin message was misinterpreted as a surprisingly sophisticated attempt to do a double backward somersault through a hoop while whistling "The Star-Spangled Banner". But, in fact, the message was this: So long and thanks for all the fish."

The Hitchhiker's Guide to the Galaxy

A noite em que conheci a minha mulher

Lembro-me como se fosse ontem, ás vezes acho que se fechar os olhos e me abstrair de tudo o resto ainda consigo cheirar o perfume dela em mim. Foi numa manhã de domingo, consequência de um sábado à noite e um jantar de amigos e amigos dos amigos mais as suas amigas, depois fomos dançar até ser manhã, ou quase, eram seis e meia quando entrei no metro quase deserto que saia de Sta. Apolónia rumo a casa.

Duas estações depois vi-a entrar na Baixa-Chiado, com um vestido curto e na mão os sapatos de salto-alto que a tinham torturado toda a noite. Entrou no metro em pontas, nos pequenos passinhos que o vestido a deixava dar. Percebia-se pelo brilhar dos olhos azuis, da cor da linha onde seguiamos, e pela maquilhagem escorrida ao longo da cara que tinha estado a chorar. Sentou-se ao meu lado no lugar junto á janela, cabisbaixa, ainda a soluçar.

Passáram os Restauradores, subimos a Avenida, e os chegar ao Marquês os poucos passageiros que restavam na nossa carruagem sairam até só sobrarmos nós. Não sei se foi por estarmos sozinhos, ou por sentir o coração estalar a cada soluço que pousei a minha mão por cima da dela no banco, e a apertei, como quem tenta dizer que não faz mal, que vái ficar tudo bem, só aí é que ela olhou para mim.

Tirou a mão de debaixo da minha e pousou-a na minha perna, foi subindo devagarinho até me desabotoar as calças com a agilidade de um carteirista. Olhou-me nos olhos ao deslizar para a outra ponta do banco, voltou-me as costas, subiu o vestido e olhou-me por cima do ombro à medida que se debruçava contra o vidro, á medida que eu me debruçava sobre ela.

Parque, S. Sebastião, Praça de Espanha, e ao passarmos o Jardim Zoológico ajeitou-se á pressa como quêm não tem tempo a perder. Levantou-se sem dizer uma unica palavra e chegou á porta tempo quanto bastava para olhar para mim um segundo antes do tunel acabar e a luz das Laranjeiras nos iluminar a cara. As portas abriram, ela saiu, parou na plataforma a calçar os sapatos enquanto as portas fechavam e o metro arrancava, olhamo-nos uma ultima vez antes da estação acabar e a penumbra voltar a engolir a carruagem, e sorrimos envergonhados um para o outro. Duas estações mais tarde estava em casa, de volta ao Colegio Militar e a Benfica.

Voltei ás Laranjeiras todos os dias durante semanas, semanas que depressa se tornaram meses, sempre na esperança de a ver. Três anos depois estava casado com a Margarida, a amiga de um amigo que conheci no jantar daquela noite, nunca voltei a ver a rapariga do metro. Estamos casados há dois anos e em todo este tempo, não houve um dia que passasse em que não pensasse na noite em que ofereci todo o amor que havia em mim para dar, e no vazio que ficou em mim sem ele, sem ela.

Daqui a pouco vou-me deitar, atirar o meu braço por cima dela e dizer que a amo ao ouvido - mentira! - adormecer e sonhar com ela e o com amor que lhe dei, os dois, ainda perdidos no metro das Laranjeiras.

Quase

"Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

Sarah Westphal
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