A noite em que conheci a minha mulher

Lembro-me como se fosse ontem, ás vezes acho que se fechar os olhos e me abstrair de tudo o resto ainda consigo cheirar o perfume dela em mim. Foi numa manhã de domingo, consequência de um sábado à noite e um jantar de amigos e amigos dos amigos mais as suas amigas, depois fomos dançar até ser manhã, ou quase, eram seis e meia quando entrei no metro quase deserto que saia de Sta. Apolónia rumo a casa.

Duas estações depois vi-a entrar na Baixa-Chiado, com um vestido curto e na mão os sapatos de salto-alto que a tinham torturado toda a noite. Entrou no metro em pontas, nos pequenos passinhos que o vestido a deixava dar. Percebia-se pelo brilhar dos olhos azuis, da cor da linha onde seguiamos, e pela maquilhagem escorrida ao longo da cara que tinha estado a chorar. Sentou-se ao meu lado no lugar junto á janela, cabisbaixa, ainda a soluçar.

Passáram os Restauradores, subimos a Avenida, e os chegar ao Marquês os poucos passageiros que restavam na nossa carruagem sairam até só sobrarmos nós. Não sei se foi por estarmos sozinhos, ou por sentir o coração estalar a cada soluço que pousei a minha mão por cima da dela no banco, e a apertei, como quem tenta dizer que não faz mal, que vái ficar tudo bem, só aí é que ela olhou para mim.

Tirou a mão de debaixo da minha e pousou-a na minha perna, foi subindo devagarinho até me desabotoar as calças com a agilidade de um carteirista. Olhou-me nos olhos ao deslizar para a outra ponta do banco, voltou-me as costas, subiu o vestido e olhou-me por cima do ombro à medida que se debruçava contra o vidro, á medida que eu me debruçava sobre ela.

Parque, S. Sebastião, Praça de Espanha, e ao passarmos o Jardim Zoológico ajeitou-se á pressa como quêm não tem tempo a perder. Levantou-se sem dizer uma unica palavra e chegou á porta tempo quanto bastava para olhar para mim um segundo antes do tunel acabar e a luz das Laranjeiras nos iluminar a cara. As portas abriram, ela saiu, parou na plataforma a calçar os sapatos enquanto as portas fechavam e o metro arrancava, olhamo-nos uma ultima vez antes da estação acabar e a penumbra voltar a engolir a carruagem, e sorrimos envergonhados um para o outro. Duas estações mais tarde estava em casa, de volta ao Colegio Militar e a Benfica.

Voltei ás Laranjeiras todos os dias durante semanas, semanas que depressa se tornaram meses, sempre na esperança de a ver. Três anos depois estava casado com a Margarida, a amiga de um amigo que conheci no jantar daquela noite, nunca voltei a ver a rapariga do metro. Estamos casados há dois anos e em todo este tempo, não houve um dia que passasse em que não pensasse na noite em que ofereci todo o amor que havia em mim para dar, e no vazio que ficou em mim sem ele, sem ela.

Daqui a pouco vou-me deitar, atirar o meu braço por cima dela e dizer que a amo ao ouvido - mentira! - adormecer e sonhar com ela e o com amor que lhe dei, os dois, ainda perdidos no metro das Laranjeiras.
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