Don't Die Wondering!

Custa a acreditar que já passaram 10 anos, mas a data por debaixo da assinatura assegura-me que sim. Conhecemo-nos no festival de Vilar de Mouros, e lembro-me com uma clareza que assusta a primeira vez que a vi. É giro, como há imagens que nos acompanham para o resto da vida. Assim é a imagem que guardo dela e o sol a espreitar-lhe por entre os caracóis do cabelo.

Era cedo, mesmo que já fosse de tarde, as horas têm um contorno estranho em festivais de verão, mas sei que ainda estava deitado na tenda a dormir. O Paulo correu o fecho e perguntou-me se não queria ir até à barragem com umas amigas que eles tinham feito na noite anterior. Abri os olhos para lhe responder e foi quanto a vi pela primeira vez, enquanto tentava foca-la com olhos de sono, e fazia por construir uma frase coerente para responder ao Paulo.

Passámos o resto do festival juntos, ou pelo menos é assim que me lembro de ter acontecido, lembro-me de uma noite escuríssima e nós de lanterna em punho, mato adentro, à procura de lenha para a fogueira que ardia junto ás tendas. Lembro-me de lhe ter dado a mão, e foi tão intimo, como se fossemos amantes. Foi mesmo o nosso momento mais íntimo, porque não chegou a acontecer nada, que é o mesmo que dizer que ficou tudo por acontecer.

Passado uns dias o festival acabou, e já em Caminha antes de entrarmos no autocarro, despedimo-nos como quem faz de conta que não acabou de tropeçar em algo maior que nós, trocamos telefones e moradas, porque era o que se fazia na época antes dos emails, mas provavelmente já na altura sabíamos que não nos íamos voltar a ver.

Passado umas semanas chegou uma carta, porque era o que se fazia na época antes dos emails, e em oposição ao meu nome e morada completa no destinatário, no remetente dizia simplesmente "Sílvia". Era perfeito, o envelope, o papel da carta, e cada linha dizia tudo aquilo que não tínhamos tido coragem de dizer um ao outro quando tínhamos tido a oportunidade.

" - Só dei conta daquilo que se estava a passar comigo na altura em que foste embora e o meu coração pediu para que ficasses... Quando é que te vou voltar a ver? Talvez nunca mais, ou talvez o destino nos tenha reservado mais algum encontro. Será?"

Não sei como foi que tudo se perdeu, provavelmente aconteceu aquilo que acontece sempre, a vida. Tenho ideia de lhe ter escrito de volta, sei que lhe liguei para casa uma vez, a ultima vez, ela não estava, deixei recado que nunca cheguei a saber se foi entregue, sei no entanto que não voltei a ter notícias dela.

Não sei, provavelmente tem a ver com a maneira como os meus fios estão ligados ou como fui desenhado, mas nunca consigo ultrapassar estas coisas. Não o que não aconteceu, mas tudo aquilo que ficou por acontecer, tudo aquilo que podia ter sido, sem que nunca chegue a saber o que foi que se perdeu, o que foi que perdemos, e de vez em quando, mesmo anos mais tarde ainda procurava pelo nome dela num motor de busca na esperança de a encontrar... e um dia, encontrei.

Era qualquer coisa da Câmara Municipal e a colocação de auxiliares de educação nas escolas da região, não sei bem, sei que depois disso, e com a ajuda de uma rede social qualquer encontrei uma amiga dela que ficou de lhe dar o meu mail e perguntar se ela se lembrava de mim. Passado uns dias a mesma amiga respondeu-me, "Ela disse que sim, que claro que se lembra de ti, que espera que esteja tudo bem e para te mandar um beijinho."

... Ridículo não é? Quando penso nos anos que passei a pensar como seria o dia em que nos voltássemos a encontrar, em que voltasse a saber dela, no tal próximo encontro que o destino nos tinha guardado, em tudo o que tinha ficado por acontecer e como iria ser, a expectativa do reencontro todos estes anos depois, para nada, por um "espero que esteja tudo bem", por um beijinho.

Gostava de conseguir fazer algum sentido de tudo isto, do que aconteceu, do que não aconteceu e de tudo aquilo que ficou por acontecer ao não ter acontecido, nem então, nem agora, nem nunca, e não consigo, se calhar é isso, se calhar é essa a lição, o moral no fim da história, de que o universo se desdobra sempre da maneira que é entende, da maneira que é suposto, e que sei lá, ás vezes (quase sempre), se não aconteceu então, é porque não tinha de ter acontecido, ou melhor, não ter acontecido era o que tinha de acontecer, e não acontecendo, aconteceu.
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