O coração também se parte.

Sabiam que um osso não parte duas vezes pelo mesmo sítio? Depois de recuperado, a zona por onde partiu acaba por se tornar mais forte que aquilo que era anteriormente e torna-se muito mais provável o mesmo osso partir em outro ponto qualquer, que aquele por onde partiu antes. Acho fascinante a maneira como o corpo se adapta de modo a garantir que não nos magoados outra vez, se ao menos tudo funcionasse tão bem.

O coração também se parte, e tal como um osso, recupera de modo a não voltar a partir no mesmo sitio, mas mais frágil que um osso, vai partindo em todos os outros sítios que sobram, sítios esses que eventualmente também recuperam e se tornam mais duros, inquebráveis, e assim se vai partindo um coração, e recuperando, e partindo em outro sítio, até se tornar tão duro, que não tem mais por onde partir.

O que acontece então é extraordinário! Sem ter por onde partir, o coração encolhe e diminui em tamanho, ficando cada vez mais pequeno. A cada demonstração de afecto, ignorada, ele encolhe, cada entrega desmedida, fracassada, ele encolhe, cada gesto largo de amor, indiferente, ele encolhe, cada desgosto amoroso, ele encolhe, cada paixão não correspondida, ele encolhe, e encolhe, e encolhe, até nele não haver espaço para nada, para ninguém, até desaparecer por completo, e quando desaparece, o vazio que deixa em nós, é capaz de engolir o mundo.
Free counter and web stats