As vida de uma vida.

Vinicius de Moraes escreveu no Soneto da Fidelidade, "Que eu possa dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure", e sempre foi assim que eu o vi, desde o inicio, desde antes do inicio, não sei explicar porque ou como acontece, mas sei-vos dizer que foi sempre assim que eu soube que era amor. Quando faço planos a longo-prazo, quando consigo imaginar a rua onde vamos morar ou como será a tarde de uma terça-feira daqui a 10 anos, o "teste do alpendre", e são sempre coisas parvas, ínfimas, mas foi assim com todas as raparigas de que gostei, das que gostei de verdade, sempre consegui ver desde o inicio, a vida que íamos ter para nós os dois.

Namorei com a Marta quando tinha 16 anos, oficialmente foi a minha quarta namorada, mas a primeira com quem me lembro de acontecer, provavelmente por causa das circunstancias. Ela morava no Porto, e eu em Lisboa, e quando se tem 16 anos, o Porto bem que podia ficar na Polónia, já que se não dá para lá chegar com um pré-comprado, provavelmente é demasiado longe para dar certo. Mas nós esforçámo-nos, ou pelo menos eu esforcei-me todos os fins-de-semana apanhava o barco para Lisboa, andava até Santa Apolónia, e apanhava o Inter-Regional para o Porto com as nossas forças armadas de regresso a casa para o fim-de-semana, acho que era o único tipo naquelas carruagens que ainda não tinha passado pela recruta. Namorámos dois anos e meio, mas depressa percebi que as viagens de comboio que eu pagava com o escasso ordenado de distribuidor de pizzas, não iam durar para sempre, que era preciso traçar um plano de como as coisas iam ser para ver um futuro naquilo que tínhamos, porque ainda que toda a gente diga o contrario, só amor não chega. A necessidade é a mãe da invenção, e provavelmente foi ai que começou, precisei de imaginar a vida que eu e a Marta íamos ter, uma sem comboios ou 400km's entre nós, e imaginei.

Quando fizesse 18 anos, mudar-se-ia para Lisboa para tirar Arquitectura, o Sr. Cordeiro tratava de lhe alugar uma casa na Ajuda onde ficar, onde eu ficava com ela, onde acabaria por passar mais noites que na minha, até acabarmos o curso. Depois de acabado, ela voltava para o Porto, e eu voltava com ela, provavelmente porque a Marta sempre fez o Porto parecer tão mais mágico que Lisboa, magia que ficou, mesmo depois da Marta, talvez a Marta não tivesse nada a ver com isso e o Porto brilha por si só... já nunca cheguei a imaginar onde é que íamos morar no Porto, acabamos antes de qualquer um dos dois entrar para a faculdade, não sei dela há tantos anos que nem sei que curso tirou... quero acreditar que foi arquitectura, e que a vida que eu imaginei teve tão perto de ser.

Depois namorei com a Carolina... e passado uns tempos acabámos... e depois voltámos... mas eu já chego a essa parte.

Muito depois da Carolina, namorei com a Tânia, mas para o que importa é como se tivesse sido imediatamente depois, já que não houve outras vidas pelo meio. A Tânia estava a tirar arquitectura na mesma universidade onde a Marta havia tirado o curso dela, tivesse a vida que eu imaginei para nós se realizado. O Sr. Correia é construtor, quando a filha fosse arquitecta, ele oferecia-lhe um apartamento de um dos prédios que tivesse a construir. Quando eu acabasse o meu curso, pedia um empréstimo para a minha casa, ela vendia o apartamento dela, e com o dinheiro da casa dela e o meu, ela tratava de projectar a vivenda que há muito tenho imaginada para mim, e o pai dela fazia o favor de a construir. Morávamos na Margem Sul, longe de Lisboa, mas perto de um acesso à auto-estrada e os nossos carros eram rápidos. Ela trabalhava com o pai na empresa de Arquitectura e Construção, eu ficava em casa, a escrever, a restaurar o carro velho e ferrugento na garagem da cave... e essa vida também acabou.

E veio a Andreia, que antes de eu namorar com ela, posso jurar que ela queria ser enfermeira, depois de eu namorar com ela, seguiu fisioterapia, porque lhe disse que por melhor que um enfermeiro fosse, ia sempre precisar de um médico, e que um fisioterapeuta, vale por si só... como o Porto. (Mas não lhe digam que eu disse isto, tenho a certeza que ela prefere morrer uma morte lenta e dolorosa a admitir que eu tive qualquer impacto na vida dela). Mas na vida que imaginei para nós (e na de verdade também) ela tirou fisioterapia e desde o inicio que quis construir um império! Tivemos de começar aos pouquinhos, mas eu ajudei-a no que pude, mais que não fosse com compreensão e todo o meu apoio. Morávamos em Lisboa, mais por ela que por mim, que sempre adorou o raio da cidade, mesmo quando moramos na Av. mais poluída de todas, a da Liberdade. Morávamos a meio da Av. do lado esquerdo para quem sobe, junto à praça da Alegria e nas noites mais calmas conseguimos ouvir o Jazz do Hot Club na janela da cozinha, a casa é velha, mas é nossa, e a palete de cores que ela escolheu para as paredes disfarçam-lhe a idade, tem um pé direito muito alto, e portas a condizer. A sala tem duas varandas, lado a lado, pequeninas, eu tenho a minha, ela a dela, e nas noites mais românticas, "fazemo-nos" um ao outro como quem tenta engatar a vizinha gira do prédio numa viagem de elevador. Ela é a vizinha gira do prédio, mas da varanda dela para dentro, da minha varanda para dentro, estamos juntos na mesma sala, no mesmo quarto, na mesma casa... e é toda minha!

Ela trabalha numa clínica, ou duas... ou mesmo três, depende do dia e todas elas a um milhão de km's de casa. Eu trabalho no Diário de Noticias mais acima na rua. É o mais parecido que temos com o Daily Planet e eu sinto-me o mais parecido que posso com o Clark Kent de todas as vezes que lá entro. Vou a pé para o trabalho, volto a pé do trabalho, vou almoçar a casa, e numa qualquer terça-feira á tarde vou busca-la á clínica, uma delas, tento (em vão) acertar, mas acabo sempre por ter de ligar para saber em qual está. Paro o carro á porta, abro o jornal e espero por ela. Ela abre a porta e acaba automaticamente o sossego dentro daquele carro, descalça-se e mete os pés nas baquects do meu carro, insiste que são uma sala e há anos que desistir de a tentar contrariar, pelo caminho ela conta-me o dia dela, e pergunta se mudei muito o mundo no meu, eu digo sempre que não, e ela responde "deixa, mudas amanhã querido!". Voltamos para casa, para as nossas varandas... ou voltávamos, ñ tivesse essa vida acabado também.

De volta a Carolina, e a vida de nós os dois. Moramos no último andar dum prédio baixinho da Rua Ferreira Borges, adoro-a! A ela também, mas estou a falar da rua! A copa das árvores cobre a estrada em toda a sua largura num tunel verde de folhas e ramos, que mais se pode dizer, é uma rua monopólio, e sempre achei muito digno morar num rua monopólio, e Campo de Ourique, adoro Campo de Ourique! Não sei porque, talvez por ser um bairrinho colado ás amoreiras, trato pelo nome o senhor da mercearia e ficamos a dever quando não temos dinheiro que chegue, no café pela manhã perguntam-me só se vou tomar "o costume" e 90% das vezes, até me sento no mesmo sitio, adoro esta rotina que me faz sentir que é ali que faço sentido! Tenho a certeza que quando morrer vão afixar um placa por cima da cadeira onde se pode ler, "Aqui se sentava José Risques". Sou jornalista, a Carolina advogada. Ela tenta chegar a sócia da empresa, eu a editor, mas ainda temos os dois um longo caminho pela frente. Não lhe digo nada, mas em segredo junto todo o dinheiro que consigo, e morro de medo que ela ache que eu tenho uma amante. Quando ela fizer 30 anos, vou-lhe oferecer um armazém na periferia, duas carrinhas compradas em segunda mão e a precisar de revisão, onde ela possa abrigar todos os animais que as carrinhas consigam tirar das ruas. Faço-o tanto por ela como por mim, por ela cujo sonho é ter um abrigo para animais, para mim que odeio cães a ladrar na rua... e em casa, mas que remédio, as vezes acho que ela gosta mais da Inês que de mim, e não, não estou a falar da minha irmã, estou a falar da cadela que é como uma filha para ela. A única que ela tem, por enquanto, por muito enquanto, não fazemos conta de ter filhos tão cedo, há demasiado que queremos fazer, demasiados sítios para ver, passear, passar o fim-de-semana fora, só porque sim, até porque a Inês dá trabalho que chegue, quem sabe depois de esta filha morrer, não pensamos numa filha de verdade... mas nunca chegamos a pensar, essa vida acabou tal como as outras, sem que nunca a Carolina, ou a Andreia, a Tânia ou a Marta chegassem a saber delas... enfim... "the old dreams were good dreams; they didn't worked out, but I'm glad I had them."

... Fica a faltar uma vida, mas conto-vos essa tarde.
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