Would I lie to you?

Sei anos de blog é tempo quanto basta para falar de tudo aquilo em que consigo pensar, logo, aquilo de que ainda não falei, mais que por falta de tempo, foi por falta de saber como. É facil então perceber, que aquilo de que ainda não falei, é provavelmente o que de mais importante tenho para vos dizer.

O post que se segue vai, portanto ser estranho, pretensioso, até mesmo arrogante, estão desde já avisados, mas prometo que vou tentar explicar o que há tanto tempo tenho para dizer da melhor maneira que consigo, contextualizando o melhor que posso.

De todas as vezes em que penso nisto, sou remetido para uma conversa com 2 dos tipos por quem tenho mais estima, o Pedro e o BB. Os 3 sentados no carro a falar sobre ser como nós, o Pedro diz "se pudesse escolher, preferia ser menos inteligente", porque tal como tudo na vida que peca por excesso, intelegência a mais também é defeito.

Sou inteligente! Mentira, sou muito inteligente, bem acima da média! Mais que interessante, sou interessado, gosto de saber, de aprender, perceber e saber fazer tudo aquilo de que se possam lembrar, e com maior ou menos facilidade, sei, e aprendo, e percebo, e sempre acabei por fazer e ter tudo aquilo que queria.

É aqui que as coisas se complicam, e onde a frase do Pedro encaixa. O problema com os tipos inteligentes que conseguem sempre aquilo que querem, é não quererem nada. É o que acontece comigo. Saber à partida que consigo, faz com que nem sequer tente, porque sei como vái acabar, e todos sabenos que nunca se quer aquilo que se pode ter, e o resultado pratico de poder ter tudo o que quero é então, nunca querer nada.

Fiz o secundário sem ir às aulas, cheguei ao último ano de jornalismo sem um caderno, a estudar de véspera ou 5 minutos antes do exame pelas cábulas da Ju e da Carla, e passar. E isto faz imensa confusão a muita gente, que pelos vistos não sabem aquilo de que eu sou capaz.

Entrei para a faculdade com 25 anos, porque não me apeteceu entrar antes. Sabia que no dia em que me apetecesse entrar, entrava, até porque tinha mais que fazerna altura, mesmo que o ter mais que fazer fosse não fazer nada. Não trabalho, porque não me apetece, e não é ter 28 anos que me incomoda, o estár a ficar velho para o primeiro emprego, seja lá o que for. No dia em que decidir ir trabalhar, vou, e crise e desemprego, são coisas que não me dizem respeito. Despedi-me de todos os trabalhos que tive, trabalhos que qualquer outra pessoa que não eu, se dava por contente de os ter. Mas eu estou guardado para maior e melhor, que aquilo que fosse que eles queriam que eu fizesse.

Chega a ser ridiculo, tanto que tenho a certeza que tentasse eu qualificar para os jogos olímpicos, também conseguia, e o meu unico problema ia ser escolher o desporto em que queria ganhar uma medalha. Absurdo, eu sei, mas é assim que os meus fios estão ligados~, não há nada que eu posso fazer. Consigo tudo aquilo que quero, normalmente sem esforço, porque sou simplesmente melhor, quando não sou melhor, consigo-o porque me esforço mais que o próximo, e faço o que for preciso para atingir os meus objectivos.

Mas toda esta arrogância torna-se mais tolerável, até mesmo aceitável, se houver efectivamente alguma verdade em tudo aquilo que disse, e a única maneira que tenho de mostrar que não estou a ser arrogante mas sincero, é pegar em algo impossivel, e fazê-lo acontecer.

Aqui entre nós, é assustador! E se estava enganado? E se não conseguir? Quer isso dizer que desperdicei grande parte dos meus 20 anos, sem pensar no curso ou na carreira, porque achava eu que era melhor que os outros, e não sou? Que tive errado todo este tempo, todas as vezes que disse a mim mesmo que era capaz, estava a enganar toda a gente e a mim também?

É um grande risco para ser correr, daqueles que ora corre muito bem, e só nos mostra que tivemos razão todo este tempo, ou daqueles que nos abala a vida até às raízes e te faz olhar para trás para o tempo desperdiçado, e até a tua vida deixa de fazer sentido, quando achas que viveste todo este tempo numa farsa que tu mesmo criaste.

Há 4 meses atrás, por razões que agora não importam, decidi mudar-me para Washingtgon D.C., arranjar um trabalho em jornalismo, ter uma casa minha, ganhar a experiência que me destaque dos demais quando voltar para casa, e com isso provar aos menos crentes aquilo que eu sempre soube ser capaz.

Moro no apartamento 412 do nº. 35 da rua E. Trabalho do lado de lá da estrada, no 6º andar do nº 400 de North Capitol St. para a C-SPAN, no andar de baixo fica a Fox News, no andar de cima a NBC, do lado de lá da rua o Capitólio dos Estados Unidos. É dia 19 de Setembro de 2009, são 7 da manhã em Lisboa, 2 da manhã aqui, em Washington D.C.

... alguma vez vos menti?

Passagem das Horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

(...)

Álvaro de Campos

Washington Thoughts

"Bem sei que há ilhas ao Sul e grandes paixões cosmopolitas, e se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para Rua dos Douradores."

Bernardo Soares, em Livro do Desassossego
Free counter and web stats