Whatever I am, I am what I am becoming.

Mudou a hora, mas não mudou mais nada. Já é outro dia em Portugal, mas ainda é o mesmo dia aqui, e vai ser o mesmo dia por mais umas horas, e pouco importa que Portugal mude a hora para tentar compensar, são horas a mais para que faça diferença, é nestas alturas que dou conta de quão longe estou de tudo e de todos.

Passo a vida a pensar em coisas que penso que mais ninguém pensa. Chego mesmo a pensar que já pensei em tudo o que havia para pensar, que tenho uma opinião formada sobre tudo aquilo com que sou confrontado no dia-a-dia, e mesmo aquilo com que não sou, mas que por alguma razão acabei por pensar nisso também, e depois acontece algo de novo e inesperado, e vejo em quanto ainda me falta pensar, sem que nunca sequer tivesse pensado nisso, e pela quantidade de vezes que usei o verbo "pensar" nestas ultimas frases, dá para ter uma ideia das coisas absurdas em que eu penso.

Nunca pensei, por exemplo, na falta que ia sentir de Portugal, ou pensei, mas nunca pensei que fosse assim, assim tanta. Mesmo antes de partir, pensei nas coisas de que ia sentir falta, coisas que nunca tinha dado conta que adorava até ser confrontado com a ideia de as deixar de ter, coisas ridículas, insignificantes que fazem todo a diferença, diferença essa que é tudo menos insignificante.

Costumo dizer que a minha parte preferida duma viagem, é o espaço de tempo que vai desde aterrar em Lisboa, até descobrir que me perderam a mala. Estou desejoso que me percam a mala, e desejoso de todas as outras coisas que me dizem que estou de novo em casa. Temos um país melhor que aquilo que o pintamos, acreditem, e só nos apercebemos disso quando metemos um oceano entre nós. No outro dia a Andreia disse-me que se metermos o dedo na ponta do nariz, não o conseguimos ver, se calhar acontece o mesmo com Portugal, não o conseguimos ver pelo que é por estar debaixo do nosso nariz a toda a hora.

Enquanto pensava em tudo aquilo de que ia ter saudades, de tudo aquilo que me ia fazer falta, veio o medo de não voltar a mesma pessoa que era quando parti, de que toda esta aventura mudasse demasiadas coisas em mim, para conseguir voltar para a vida que deixei, e quando dei por mim, já não era o mesmo de antes, mesmo antes de partir.

Nunca pensei em nada disto, em fazer nada disto, sempre fui demasiado comodista, demasiado agarrado a tudo o que tenho e conheço para deixar uma vida inteira para trás e começar de novo em outro sitio qualquer, mesmo que por uns meses, no entanto, aqui estou, e nunca pensei que fosse capaz, ainda não penso que seja, mas tenho sido, e outra das coisas em que isso me fez pensar, é naquilo de que uma pessoa é capaz se carregarmos nos botões certos.

Penso na Avó Nita mais que em qualquer outra coisa. Tenho saudades delas mais de que ninguém. Era ela dizer, e metia-me no primeiro avião para casa, é essa a falta que ela me faz, e ainda assim, os dias continuam a passar mesmo quando ela não está. Não sei se nunca pensei nisso, ou se nunca quis pensar nisso. Na velocidade com que a vida se adapta e quão depressa nos habituamos a viver sem aquilo que mais gostamos no mundo. Sinto que conseguia viver o resto da minha vida sem a volta a ver, e que a vida ia continuar a igual, se ia adaptar à ausência dela, porque é isso que a vida faz, continua. A diferença, mais que saber que conseguia viver sem ela, sem a avó que é o amor da minha vida, é o não querer viver sem ela, e isso faz toda a diferença. Saber que a tenho por perto, não porque preciso, mas porque quero, escolho, faço questão de a ter sempre comigo, e também nunca tinha pensado nisso.

Penso em tudo aquilo em que nunca tinha pensado, e em todas as coisas que acontecem ao longo de uma vida de que te fazem ver o mundo de maneira diferente, todo aquilo que acontece, tudo aquilo que falta acontecer mas que sabes que não tarda a chegar, há qualquer coisa nova a casa dia que passa, casar, o ter filhos, ser pai, ser avô, envelhecer, morrer. Pela primeira vez pensei que nunca acaba, que há sempre qualquer coisa à espera de acontecer, que muda tudo aquilo que julgavas saber, e te faz pensar em coisas que nunca tinhas pensado antes. Mudou a hora, e com a hora… mudou tudo.
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