Little Big Adventure!

Ainda há dias em que acordo em sobressalto sem saber onde estou. Os primeiros segundos do dia são sempre passados a mentalizar-me de que não é um sonho, de que tudo isto está mesmo a acontecer, e que a cama onde acordo está a 5720kms de casa, da minha casa, do meu quarto, da minha cama.

Quando olho para trás para os últimos meses da minha vida, fica fascinado com a sucessão de acontecimentos que me trouxeram até aqui, pareceu tudo tão fácil, como se fosse suposto acontecer, e eu me tivesse apenas deixado levar por algo que se foi desenrolando até ter este desfecho. Sempre achei que foi tudo tão simples, tão fácil, até alguém me perguntar como é que eu tinha feito.

A primeira coisa que lhe disse foi que foi fácil, porque sinceramente, é essa a ideia que tenho, de que não foi complicado chegar cá. Que decidi que queria vir para cá, e que depois da decisão tomada, fui ao Google pesquisar estágios na área de jornalismo em Washington D.C.

Comecei pelos jornais, depois as revistas, mais tarde as televisões. Primeiro em D.C. depois em Annapolis, Baltimore, Bethesda, Rockville. Os prazos de candidaturas, os pré-requisitos, o método de candidatura, os documentos de necessários, os e-mails com pedidos de informação. Reescrever o curriculum, uma carta de apresentação, arranjar as referências, pedir as cartas de recomendação, as provas escritas, o artigo do jornal da faculdade, e reestruturar o blog para lhe dar um ar profissional, ajuda do Jorge com o site, da Prof. Alice com a carta de recomendação, do Prof. Paulo, da Kikas com o jornal da faculdade, da Rita com o Rostos, da Inês com o curriculum, mais os que me estou a esquecer.

Depois de enviadas as candidaturas, vieram as entrevistas telefónicas, o inglês sofrível, o nervosismo a tornar tudo pior, as perguntas absurdas e o que se perde na tradução, aquilo que me é familiar e que não diz nada a ninguém que vive do lado de lá do mundo, aquilo que é importantíssimo para eles, e de que eu nunca tinha ouvido falar, e no fim, a noticia de que o estágio era meu se estivesse interessado.

Era suposto ser tudo mais fácil daí em diante, não era? Não foi. O requerer o visto, o impresso que é preciso, o passaporte actualizado, a entrevista com a embaixada, o papel que não serve, o impresso que não era aquele, o estágio é pago? Não é pago? Mais de 90 dias? Menos de 90 dias? Onde é que vai ficar? Quem é que conhece? Quando é que vai voltar? A viagem para cá, a viagem para lá, o voo de ligação, até aterrar em Nova Iorque.

Finalmente, estava cá, e daí em diante só podia melhorar não é? Nem por isso! O autocarro para D.C., a segunda-feira que é feriado, o short-term lease de 6 meses para quem só cá vai estar 4, o apartamento sem mobílias, o numero de segurança social americano que não tenho, o credito bancário que não existe, o cartão português que falha nos multi-bancos no dia antes de pagar, a renda, o co-lease, a Cremilde e o Paulo a salvarem-me vezes sem conta, a ajuda da Vânia e do Telmo, os país da Vânia... a saudades de estar sozinho longe de tudo e de todos.

Só ao tentar explicar é que me dei conta de tudo aquilo que foi preciso para aqui chegar, para que tudo isto fosse possível, e no fim foi isso que percebi, que não é o que se aprende por estar longe que faz a diferença, não é a experiência profissional que é uma mais-valia, sinceramente, não sei se é, não aprendo nada aqui que não aprendesse aí, é antes, o que tudo isto diz de ti, sobre aquilo que és, aquilo que és capaz e até onde estás disposto a ir para conseguires aquilo que queres, a tua dedicação, empenhamento, o espírito de sacrifício para ires até onde queres chegar, lutar por aquilo que queres até torna-lo realidade, e isso então, mais que complicado... é raro.
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