Future Me!

É o último dia do ano e estava aqui sentado a pensar na minhas resoluções para o ano que chega amanhã e como sempre deixei-me levar pela imaginação. Imaginei as minhas resoluções para o ano que virá depois deste e o seguinte e o outro. Quando dei conta estava a imaginar a minha vida daqui a 20 anos, e lembrei-me do site que a Carla me mostrou no outro dia, onde podemos agendar um e-mail para nos ser entregue na data que estipular-mos, e pensei no ia ter para me dizer daqui a 20 anos, e no e-mail que me ia enviar.

Fodeste tudo não fodeste? Eu sei que sim. Não moramos em Chicago pois não? Não guiamos um Aston Martin em British Racing Green para o trabalho e quase que aposto que não há uma loura de olhos verdes, com um nome que nos aquece a alma, como Haley, Catherine ou Elizabeth, que tratamos por "Liz" e nos faz lembrar a Rosamund Pike à nossa espera em casa depois de um dia de trabalho no jornal, que nos recebe com um beijo e um martini dentro dum vestido novo, como um episódio de "Bewitched". Não nos mudámos para os Estados Unidos e não nos casámos com uma americana adorável do Mid-West cujos pais visitamos fim-de-semana sim, fim-de-semana não, não foi? Pode dizê-lo, a verdade é que eu sempre soube que não ia acontecer. Deixaste-te engordar não foi, e toda a cera e gel e parvoíce destes anos deram-nos cabo do cabelo, desculpa lá, "ma bad!", podes tirar algum conforto em saber que ao menos isso não foi culpa tua e não havia nada que podias ter feito. Mas e o resto?

Estou-te a escrever isto do apartamento de Nova Iorque depois do estágio na faculdade do Indiana. Prometemos a nós mesmos que iamos voltar para Portugal daqui a uns dias, acabar as cadeiras que estavam penduradas do curso e conseguir uma bolsa para voltar para a IU em Agosto para o graduate program em Jornalismo. Tirar a pós-graduação e com o curso e a pós-graduação a acabados, concorrer a um trabalho em Chicago. O que é que correu mal? Onde é que falhámos? Quanto tempo passou até baixarmos os braços e deixámos a vida levar a melhor de nós? Quando foi que desistimos do nosso sonho? Por quanto é que o vendemos? Por que é que o trocámos?

Sim, por favor, diz-me ao menos que não foi desistir, que foi trocá-lo por um outro, mais realista, que nos fez tão mais feliz que as ridículas ideias utópicas dos meus 20 anos. Eu sei, eu sonhava tão alto que estávamos condenados ao fracasso desde o início, a culpa não foi tua, foi minha, que meti a fasquia tão alta que era impossível não a derrubar, por melhor que fosse o nosso salto. Mas diz-me que demos o nosso melhor, que nos esforçámos, que batemos a todas as portas, e fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, e que no fim, não havia mais nada que pudéssemos ter feito, e que não há "Ses" a pesarem-nos no peito que nos fazem pensar naquilo que podia ter sido, se tivéssemos feito isto ou aquilo de maneira diferente ou se apenas nos estivéssemos esforçado mais um bocadinho. Está tudo bem, desde que me dês a tua palavra de que demos o nosso melhor, sempre foste um tipo de palavra, eu confio em ti, em mim, em nós!

Pela altura que leres isto, tudo o que resta de mim e das minhas ideias ridículas vive em ti, e provavelmente por entre uma vida a sério com problemas de verdade, já não sobra muito espaço para as minhas parvoíces de adolescente, mas daquilo que vale, quero que saibas que me enches de orgulho, seja no que for que fazes. Espero que tenhas filhos, que adores e sejam a luz da tua vida, que tenhas uma mulher que ames e te ame de volta mais que qualquer outra coisa no mundo, espero que tenhas um trabalho que gostes e te faça sentir que faças a diferença, que estás a deixar a tua marca no mundo, mas se nada disto tiver acontecido, quero que saibas que não faz mal, que eu tenho tanto orgulho em ti como teria caso o contrário tivesse acontecido e tivessemos nós conseguido. Sei que deste o teu melhor, e que se não aconteceu, não aconteceu, não há nada de errado contigo, tal como não havia nada de errado comigo há 20 anos atrás e também ai as coisas nem sempre corriam como nós queríamos, nunca fomos muito bons nisto de viver, mas continuámos a tentar e a dar o nosso melhor, esforçámo-nos mais que ninguém e que mesmo que não tenha dado certo (muitas das vezes não deu) tentámos sempre, e isso é tudo o que importa, é quanto basta para uma consciência tranquila, livre de arrependimentos.

E eu sei que sou um bocado suspeito, mas lembra-te disto, ÉS UMA BOA PESSOA, a melhor que eu conheço, e não te preocupes com Chicago, com o Aston, nem mesmo com a Liz... só quero que sejas feliz, eu perdoo-te por tudo aquilo que eu queria e tu não conseguis-te para nós, provavelmente muito daquilo que não tens agora, foi porque eu o lixei na minha altura ao não fazer o que era suposto na altura em que era devido, e por isso espero que me perdoes também. "Só falhamos no dia em que deixamos de tentar", lembras-te como sempre adorámos essa frase? Sempre tivemos por hábito desafiar as probabilidades e talvez as coisas não tenham sempre resultado como nós queríamos, mas dêmos sempre o nosso melhor, e divertimo-nos o molhe pelo caminho, tivemos uma vida mais rica que os sonhos de maioria das pessoas e vimos e passamos por cosas que a grande parte das pessoas nem imagina que existe, não deixámos nada por fazer, desculpa se sobrou para ti pagar a conta, mas obrigado por tudo, e na eventualidade de já não te lembrares, eu recordo-te... valeu tudo a pena!

The Notebook

"My dearest Allie. I couldn't sleep last night because I know that it's over between us. I'm not bitter anymore, because I know that what we had was real. And if in some distant place in the future we see each other in our new lives, I'll smile at you with joy and remember how we spent the summer beneath the trees, learning from each other and growing in love. The best love is the kind that awakens the soul and makes us reach for more, that plants a fire in our hearts and brings peace to our minds, and that's what you've given me. That's what I hope to give to you forever. I love you. I'll be seeing you."

Paper Towns

"I stand in this parking lot, realizing that I've never been this far from home, and here is this girl I love and cannot follow. I hope this is the hero's errand, because not following her is the hardest thing I've ever done."

John Green

Family Tree

José Joaquim Serrano Laboreiro de Paula Risques (1981), filho de Joaquim José Ramalho Laboreiro de Paula Risques (1955), filho de Joaquim Augusto Laboreiro de Paula Risques, filho de Maria Amélia Nunes Laboreiro de Vila Lobos, filha de António Manuel Laboreiro de Vilalobos (1879), filho de António Maria Laboreiro de Vilalobos (1841), filho de António Maria de Laboreiro de Villa-Lobos Vasconcelos e Noronha (1807), filho de Maria Isabel Vilalobos Vasconcelos e Noronha (1755), filha de José Joaquim de Vilalobos e Vasconcelos (1739), filho de Inês Maria Tavares de Sousa (1709), filha de André Juzarte de Campos (1653), filho de Jorge Velez Tavares Juzarte de Campos (1611), filho de André Juzarte de Campos (1592), filho de Jorge Velez Tavares (1540), filho de Ana da Mota Caldeira Tavares (1520), filha de Fernão da Mota Caldeira, o Velho (1500), filho de Diogo Caldeira de Velez (1475), filho de Maria Pereira Tavares (1450), filha de Diogo Lopes de Sousa (1410), filho de Diogo Lopes de Sousa (1360), filho de D. Pedro Afonso de Sousa (1305), filho de D. Afonso Dinis (1260), filho de D. Afonso III (1210), filho de D. Afonso II (1185), filho de D. Sancho I (1154)… filho de D. Afonso Henriques (1109), El Rei de Portugal!

... and I did!

"Go after her. Fuck, don't sit there and wait for her to call, go after her because that's what you should do if you love someone, don't wait for them to give you a sign cause it might never come, don't let people happen to you, don't let me happen to you, or her, she's not a fucking television show or tornado. There are people I might have loved had they gotten on the airplane or run down the street after me or called me up drunk at four in the morning because they need to tell me right now and because they cannot regret this and I always thought I'd be the only one doing crazy things for people who would never give enough of a fuck to do it back or to act like idiots or be entirely vulnerable and honest and making someone fall in love with you is easy and flying 3000 miles on four days notice because you can't just sit there and do nothing and breathe into telephones is not everyone's idea of love but it is the way I can recognize it because that is what I do. Go scream it and be with her in meaningful ways because that is beautiful and that is generous and that is what loving someone is, that is raw and that is unguarded, and that is all that is worth anything, really."

As Noites de Swing!

Acho que foi a Jaquelyn Kennedy que disse era "uma optimista realista" e é assim que eu me sinto em relação a isto, à ideia de morrer e do que vem depois. A parte optimista de mim quer acreditar que há garantidamente um céu e um inferno, e que eu fiz mais que o suficiente para ir directamente para o primeiro, sem passar pela casa partida ou receber dois contos, a parte realista, acha a metafísica da coisa demasiado rebuscada para ser provável, e posso até nem acreditar no céu ou no inferno, mas acredita nas noites do Swing.

Estava a ler um estudo da Universidade George Washington, que acompanhou doentes terminais monitorizando-lhes a sua actividade cerebral, e era frequente um registar-se um aumento na actividade nas ondas cerebrais dos dos pacientes instantes destes falecerem. Provavelmente há explicação científica para isto, que resulta daqueles experiências próximas de morte, em que juramos ver a vida inteira passar-nos diante dos olhos, mas eu quero acreditar em mais qualquer coisa.

Se calhar é isso que acontece, ou aquilo a que a minha parte optimista quer acreditar e se gosta de agarrar. Provas documentadas, estudos realizados e milhões de testemunhos desde o início dos tempo de que antes de morrermos a vida inteira no passa diante dos olhos. Se calhar é esse o pico, o cérebro a tatuar-nos na mente tudo aquilo que a nossa vida foi, todas as recordações recalcadas, o acumular de experiências, momentos situações que nos fomos esquecendo mas que ficaram arquivados em seja qual for a percentagem do cérebro que não usamos, se calhar nunca foi suposto ser usada, quem sabe não é para isso mesmo que ela serve, uma arrecadação enorme onde nunca nada é deitado fora.

Sabem quando tentamos mudar de canal, carregamos no botão do telecomando e a televisão diz que o telecomando não tem pilhas? É mais ou menos isso, pelos vistos tem pilhas que chegue para fazer a mensagem chegar à televisão, só não tem pilhas que chegue para fazer a televisão mudar de canal, e é o que eu quero acreditar que acontece, é assim que eu imagino o meu céu e ao mesmo tempo, o meu inferno. Não temos mais pilhas para fazer nada nem criar nada de novo, resta apenas a energia suficiente, para rebobinar até onde quisermos, saltar anos como se fossem capítulos, deixar em loop a noite em que perdemos a virgindade, ou que juntamos a coragem para beijar a miúda gira do preparatório, coisas parvas que olhando em retrospectiva depois e ela acabar foram os momentos mais felizes da nossa vida.

É esse o contra, desculpem, odeio ser o portador de más notícias, mas levamos só aquilo que trazemos dentro de nós. Se nunca meteste o pé no mar das Caraíbas, não vais lá poder ir no teu céu, não há uma recordação para a qual saltar. Se nunca viste as pirâmides de Gize a mesma coisa. As boas notícias é que se estão a ler isto, não é tarde de mais para criar os momentos que vão querer reviver mais logo. Se em por outro lado tiveres sido uma má pessoa, infeliz e toda a tua vida se resumir a experiências desagradáveis, é com isso que tens de lidar para a eternidade, sem nenhuma recordação boa à qual te agarrares, e isso soa-me a uma muito fidedigna definição de "Inferno".

Tenho alguns infernos com que vou ter de lidar, algumas noites de choro e o coração destroçado mais vezes que me consigo lembrar agora, mas que vou certamente recordar-me mais tarde. Sei também qual é o meu céu, os capítulos do filme que foi a minha vida, nos quais vou ficar até o disco riscar. A primeira vez que dei à chave do meu carro novo e o guiei para fora do stand, a primeira vez que fiz amor com todas as minhas ex-namoradas, e os primeiros beijos, os meses do nosso apartamento em D.C., a noite de fados com a Fernanda e o Rui Veloso, a noite nos baloiços com a Regan debaixo do céu estrelado do Indiana, a ultima vez que vi a avó Custódia, todos os almoços com a avó Nita, o Avó Risques a refilar connosco do canto dele no sofá da sala da casa de Benfica ou ouvir-nos roubar rebuçados do móvel da entrada, os figos da casa de Vendas Novas, os verões na casa do Algarve...

... o “Swing”, tive dias a tentar lembrar-me do nome, já passaram por certo uns 10 anos desde que fechou, ficava no fundo da Miguel Pais, do lado direito, mesmo antes de chegar à igreja. Fechava às duas para toda a gente, um bocadinho mais tarde para nós, que esperávamos encostados ao carro a galar as miúdas giras que saiam do Camarro quando ele fechava. Daí seguíamos para o Swing já fechado, batíamos, e a dona cujo nome já não me consegui lembrar, vinha-nos abrir a porta. Já ao balcão perguntava-me se para mim era o "habitual" e eu dizia sempre que sim, ás vezes apetecia-me outra coisa, mas mesmo que soubessem melhor, nada me soava tão bem como "o habitual?" e acabava por comer sempre o mesmo. Ficávamos no Swing horas a fio pela noite dentro todos na conversa, eu, o Fatty, o Kappa, o BB, os outros todos, já não sei ou não me dou com metade deles, mas vão estar lá todos, todas as noites, no Swing, o meu céu, comigo a comer o habitual, mesmo que eu não queira, mas não tenho recordações de outra coisa.

Para o Fatty, o meu melhor amigo, que não tem tantos posts dedicados a ele quanto aqueles que ele merecia.

Adeus, Sr. do Adeus!



Até sempre Sr. João, o Restelo e o Saldanha não vão voltar a ser os mesmos e a nossa Lisboa fica tão mais triste sem si.

Para João Manuel Serra, o Sr. do Adeus.

Love Is a Great Thing

Love is a great thing,
yea,
a great and thorough good,
By itself it makes that is heavy light;
And it bears evenly all that is uneven.

It carries a burden which is no burden;
it will not be kept back by anything low and mean;
it desires to be free from all worldly affections,
and not to be entangled by any outward prosperity,
or by any adversity subdued.

Love feels no burden,
thinks nothing of trouble,
attempts what is above its strength,
pleads no excuse of impossibility.
It is therefore able to undertake all things,
and it completes many things,
and warrants them to take effect,
where he who does not love would faint and lie down.

Though weary,
it is not tired;
though pressed it is not straitened;
though alarmed,
it is not confounded;
but as a living flame it forces itself upwards and securely passes through all.

Love is active and sincere,
courageous,
patient,
faithful,
prudent and manly.

Thomas à Kempis

4000 from home, 40 from you.

Your hair is still everywhere, like the song. Found a few tenasiously holding on to the comforter, the pillows and those little blue blankets we used as drapes in our apartment in D.C., yeah, still sleeping in our covers, I guess I'm trying hard to hold on myself. Had another one on me after I wore that red jacket you've always hated. Everytime I find one, it still makes me smile. There were also twenty pence forgotten in the left pocket from the last time I was in London, the last time I was with you, the last time we were togehter and I would "wash away your fortune on Cokes". It made me smile too. Later I saw your doppelgänger at a bar dressed as Getty from your beloved Golden Girls. Thought it was you at first and my heart stopped, afterwards it raced trying to catch up. She was with some guy, they kissed. That made me cry. Before all this, no matter how far we were, you were never far from my mind. Now that I'm here, regardless of how distant we became, not only are you still never far from my mind, we're also never far appart. Hoped it would make a difference. It didn't, didn't change a thing, didn't bring us any closer, the harm was already done, and my only accomplishment, was ending up as far from home, as of being over you.

De vez em quando.

De vez em quando leio um texto ou uma frase, e gostava de ter sido eu a escrevê-la, e de vez em quando leio um texto ou uma frase, e gostava de ter sido eu a escrevê-la, e de vez em quando leio um texto ou uma frase, e gostava de ter sido eu a escrevê-la, e de vez em quando, fui.

My Blueberry Nights

"At the end of every night, the cheesecake and the apple pie are always completely gone. The peach cobbler and the chocolate mousse cake are nearly finished, but there's always a whole blueberry pie left untouched. There's nothing wrong with the blueberry pie, people just make other choices, you can't blame the blueberry pie, it's just... no one wants it."

Stopping By Woods on a Snowy Evening

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

Robert Frost

Compreendo Senhor!

Todos aqueles que acham a minha vida fascinante não fazem ideia da imensidão de maneiras em como a fodi por fazer tudo aquilo que outros têm como fascinante. Todas as viagens ou o ir para fora, a minha faculdade Americana e as “cheer leaders”, tudo aquilo que visto de fora pode até parecer invejável, visto de dentro condenou-me a uma vida miserável e a certeza de que nunca hei-de ser feliz.

Até vos podia dizer que a razão pela qual nunca vou ser feliz, é porque ao fazer tudo isto, abri uma porta que não pode mais ser fechada. A Patrícia odeia que eu diga isto, mas a ignorância é mesmo uma bênção, e todo o "mais vale ter amado e ter perdido, que nunca ter amado de todo" foi obviamente dito por alguem que não ama como eu amo, e sem sombra de duvida não sofre como eu sofro quando tudo acaba e tenho de apanhar do chão o milhão de cacos em que me parto. E por mais tempo que eu leve a tentar junta-me outra vez, nunca fico a mesma coisa e nunca volto a ser o mesmo. Sou o remendo daquilo que comecei por ser, e há muito que deixei de lhe fazer justiça.

Podia dizer-vos que é por ter trazido para a minha vida o conhecimento de tudo aquilo que lhe passa ao lado e faz com que seja impossível contentares-te com metade daquilo que o mundo tem para oferecer, agora que sabes que a outra metade lá está. Antes de ter morado em Washington, ou antes de ter vindo para o Indiana, Portugal e a Europa chegavam e tinham tudo aquilo que eu precisava para ser feliz. Agora sinto-me como a Sofia, a escolher entre um de dois amores sabendo à prior a falta que o outro vai fazer, seja qual for a metade que eu decida deixar para trás.

Gostava de vos conseguir explicar que as saudades vão ocupando o espaço deixado vazio por cada bocadinho que fica em cada lugar que passo, cada rua em que morei e em cada amigo que faço e leva com ele um bocado de mim ao partir. Estou espalhado por mais sítios no mundo que aqueles que consigo dizer, mais que os que me consigo lembrar, sítios a que nunca hei-de ir ou a que nunca hei-de voltar, ruas nas quais não vou passar com gente que nunca vou voltar a ver. Estou dividido em pedacinhos tão pequenos, espalhados por lugares tão distantes, guardados em amigos tão longinquos que são impossíveis de recuperar. Nunca hei-de ser inteiro outra vez, e já todo eu sou saudade.

Podia-vos dizer que é porque não tenho amigos. Os amigos de Portugal seguem com as vidas deles sem que eu faça parte delas, e quando volto, o espaço que era meu foi ocupado por outros amigos ou outras coisas, e não há mais lugar para mim. Os amigos daqui, vêm todos com um prazo de validade, e afeiçoar-mo-nos a quem nos vai deixar é amplificar a já de si gigante dor de ir embora, e quando eu for, tambem as vidas deles vão continuar como se eu nunca tivesse feito parte delas.

... e ainda que tudo isso seja verdade, não é por isso que eu sei o triste fim que me espera.

Nunca fui muito religioso, mas acredito que até isso é birra de adolescência e à medida que vamos ficando mais velhos e somos confrontados com a nossa mortalidade ao ver os anos passarem, sentimos a necessidade de acreditar em qualquer coisa, o conforto dum propósito para tudo aquilo que acontece, um bem maior se quiserem, e começas a acreditar tu também em algo ou alguém cuja designios rejam tudo aquilo que acontece. Se calhar não é tanto o acreditar como o querer acreditar, mas é acreditar ainda assim, e a razão pela qual eu não vou ser feliz, é porque Deus nunca o há-de deixar.

Maior parte das pessoas contenta-se, conforma-se, desiste da vida que sonhou porque dá demasiado trabalho ou requer demasiado esforço ou sacrifício. A verdade é que 90% das pessoas não vivem a vida que sonhou e há muito que deixou de lutar por aquilo que queria quando algures pelo caminho se deixaram vencer pelo comodismo daquilo que apareceu pelo caminho, porque estava mesmo ali e não dava trabalho, porque faz mais sentido um pássaro na mão, que os dois a voar, quando nem sequer sabemos se há mais passaros no mundo ou onde quer que seja, e é só a fé que nos move. A ideia de que se não desistirmos daquilo que queremos, eventualmente o conseguimos e que só falhamos no dia em que deixarmos de tentar. Ter fé é complicado por definição, como é que nos agarramos a algo que não é palpavél? Que não vimos, não cheiramos, que a maior parte das vezes nem sequer sentimos quando o contrario é tão fácil, e esta mesmo ali à nossa frente? Mesmo que não seja exacta, ou mesmo remotamente, aquilo que sonhámos. Normalmente, quase sempre, qualquer coisa é melhor que coisa nenhuma.

Vim para o Indiana tentar reconquistar a miúda dos meus sonhos. Não vai acontecer, naturalmente, mas para o bem do argumento, vamos imaginar que eu conseguia? Imaginem todos os amores que acabaram por ele ou ela a/o deixar fugir e não correram atrás como eu corri? Por não deixaram tudo para trás atrás dum sonho que tiveram e que não quiseram que acabasse! Se nós voltássemos, que ideia passava para o resto do mundo? Para todos aqueles que desistiram? Passava a ideia de que o tinham conseguido também se se tivessem dado ao trabalho de tentar. Que podiam estar a viver a vida que sonharam, ao lado de quem sonharam, antes de se venderem ao plano B da vida em que acabaram.

Mas ninguém tenta, ninguém se esforça, ninguém faz o que eu faço, eu sou a excepção que nunca desiste e que depois de ir ao tapete, se levanta, sacode o pó e se volta a atirar de cabeça sem nunca aprender a lição na esperança que no fim tudo faca sentido. Ninguem disse que ia ser fácil, a unica coisa que prometeram foi que ia valer a pena, e como tal nego-me a abrir mão da vida que sonhei para mim!

Sei lá, faz matematicamente sentido e quero acreditar que Deus é um tipo que se deixa guiar pela lei dos grandes números, um fã da probabilidade e estatística, e o bem maior requer que eu não seja feliz, para que a maioria possa continuar medianamente feliz na vida que os escolheu, ao invés da vida que eles escolheram, e ter-me a mim como exemplo. Aquele que tentou mais que eles, e que nem por isso conseguiu melhor, que apesar de todos os meus esforços titãnicos, das minhas entregas desmedidas a histórias de amor absurdas, no fim, acabei com uma vida tão miserável quanto a deles, e que não faz mal não terem tentado, porque tentar não é sinonimo de conseguir, e no fim, não só eles conseguiram tanto ou mais que aquilo que eu consegui, como o conseguiram muito mais cedo por não terem perdido tempo nestas aventuras ridículas, em busca de nem sei bem o quê.

E como acredito em Deus, acredito no céu, e sei que quando lá chegar, o Senhor me vai chamar à parte, congratular-me por tentar com uma pancadinha nas costas e pedir-me para compreender, e vai dizer que nunca me podia deixar ser feliz para o bem de todos os outros, que não foi nada pessoal, que dei um óptimo espectaculo, e fui divertidissimo de acompanhar, um dos Seus preferidos, mas que ao fim do dia foi tudo uma questão de números, e no grande plano, um sacrifício necessário para o bem maior!

Too Soon To Joke?

"I've learned that you can't make someone love you. All you can do is stalk them and hope they panic and give in."

In today's news!



http://www.youtube.com/watch?v=drB6-B9piPE
http://www.youtube.com/watch?v=kTyxoES3J6I

"Maybe you won't mean to but you'll see me on the news
And you'll come running to the corner
cause you'll know it's just for you..."

Bye Bye Blackbird

This isn't what I wanted, but I'll take the high road. Maybe because I try to look at everything as a lesson, or because I don't want to walk around angry anymore, or maybe it's because I finally understand. There are things that we don't want to happen but have to accept; things we don't want to know but have to learn; and people we don't want to live without... but have to let go. <3

Compromise 101

Sonhar é muita fácil não é? Imaginámos um cenário qualquer, ou como gostávamos que a nossa vida fosse daqui a 20 anos, damos largas à imaginação, e voilá! Tá feito, não tem nada que saber e a dificuldade é zero! Dizemos aos amigos aquilo que imaginámos para nós ou o rumo que queremos que a nossa vida tome, os nossos objectivos a curto, médio e longo prazo, e tentamos convênce-los de que os nossos sonhos não é assim tão inatingiveis e que as coisas ate vão bem encaminhadas. E quando a nossa vida não se desenrola de acordo com o que sonhamos, bem, melhor ainda! Ou pelo menos é a ideia que todos aqueles que viram os sonhos que andavam a apregoar a meio mundo sair furados nos andam a tentar vender, em como ver o sonho duma vida desfeito em cacos, foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Fascinante!

Ia começar pela Liliana mas a Liliana vai ter de esperar porque um outro valor mais alto se alevanta!

São de longe o meu casal preferido pelo ridículo daquela relação, vamos chamar-lhes a Tânia e o Velmo, para preservar o seu anonimato. O Velmo é um granda falhado, não há volta a dar-lhe e ao fim do dia é importante chamar as coisas pelos nomes. Mas claro que o Velmo, pois então, o Velmo acha que não é culpa dele, e o universo não passa duma enorme conspiração para lhe arruinar a vida. Pobre Velmo não conseguiu entrar para o curso que queria porque, e cito "é impossível entrar para o curso que se quer porque as médias são altíssimas", o que o Velmo não percebe, é que a razão pela qual as médias são altíssimas, porque graças a Deus, há gente mais inteligente, mais esforçada ou mais dedicada que ele, que lutaram por aquilo que queriam, e como tal, esforçaram-se para ter uma boa média para entrarem para o curso que gostavam. O Velmo não vê isso, e de costas voltadas ao sistema, vê-se obrigado a entrar para uma Engenharia Electrotecni..nguem quer saber na Universidade do Algarve e surpresa das surpresas, e não o consegue acabar, porque e cito "é um curso impossível de acabar, e as cadeiras impossíveis de fazer" sem dar conta que se calhar só é impossível para ele que está longe de ser o expoente máximo da raça humana.

Mas aos olhos do Velmo, é Portugal que anda a ver se dá cabo dele, e se ele está obviamente certo e Portugal errado, e ele não vai mudar, tem de mudar-se, e isto é comum neste tipo de gente, desenvolver desde tenra idade um fascínio pelos Estados Unidos, já que tudo o que ele é não chegou para vingar no pais de origem. Mas a culpa não é dele, é o ser de todo impossível vingar em Portugal, ou na Europa, e qualquer historia de sucesso são a excepção que confirma a regra, uma aberração da natureza ou puro golpe de sorte. A única coisa para que Portugal serve, é para puxar galões na hereditariedade Europeia de que gosta de se gabar, sem o coitado perceber que a razão pela qual é Europeu, foi por ter nascido em Portugal, e so é uma porque é a outra, e não se pode ser só uma, já que as duas são indissociáveis uma da outra!

Quem é que está à espera do lado de lado do mundo? A Tânia, cujos pais há 20 anos, fizeram exactamente a mesma coisa, foram para os Estados Unidos à procura duma vida melhor que aquela que conseguiram para eles em Portugal, mas com uma diferença fundamental, humildade aos montes! Sem rancor nem um dedo rápido no gatilho quando toca de dizer mal do sitio onde nasceram, tanto que sonham para a filha, um marido português, que a mantenha em contacto com tudo aquilo que eles deixaram para trás. Ora bem, junta-se a fome à vontade de comer, e o Velmo conhece a Tânia, começam a namorar, e num gesto de puro *cof* romantismo *cof*, ele decide ir para os Estados Unidos ter com ela, e mudar-se para a casa dela, e por dela, leia-se, dos pais onde ela ainda mora.

Nos primeiros tempos, o Velmo não faz nada, e é um caso de sucesso tão estrondoso nos Estados Unidos como o que era em Portugal, e se o pais agora é outro, conseguem ver a constante? Eu consigo!

Mas isto tudo é contextualização, esta é a parte que importa! Eventualmente o visto provisório do Velmo vai expirar, e Deus proíba que ele tenha de voltar para o caso perdido que é Portugal. Depois de ter tentado por todos os meios renovar o visto, mas ouvi dizer que é preciso ser a entidade empregadora que faz questão de não o perder como trabalhador a tratar disso, é natural que as coisas se tenham complicado para o Velmo, mas ele é um tipo cheio de recursos, aliás, ele leu o Segredo, logo o mundo não lhe reserva mais nenhum.

Num rasgo de génio, e mais uma vez, motivado pela mais pura noção de romance, que reconhecemos dos filmes lamechas das tardes de chuva enrolados na manta em cima do sofá, *cof* *cof*, também ele enrolado numa manta em cima do sofá cama na cave da casa dos pais da namorada, onde sim, ele um ano mais tarde ainda mora, entre uma explosão e outra do filme sacado da Internet na noite anterior, ele vira-se para a Tânia e diz "tava aqui a pensar se não querias casar comigo" e entre um mergulho e outro da mão dela no balde das pipocas, ela diz que sim, e na televisão explode outra coisa qualquer.

E agora a parte gira que motivou tudo isto para ver se chegamos à parte da Liliana.

Passados uns tempo, muito pouco tempo depois eles casaram para o Velmo e a Tânia poderem ficar juntos, porque o amor é lindo, ou se calhar para o ver se o Velmo não era corrido do pais pelos serviços de imigração, mas isso sou só eu que sou um cínico nestas coisas de amor e acredito piamente que o romance está morto, e foi o Rock & Roll que o matou.

Um ano depois, estamos todos sentados num Starbucks a vê-los tentar vender-nos a ideia de que o casamento é só um papel, que não significa nada e que não tem qualquer impacto na nossa vida, para lá do, deixar-nos ficar no pais da miúda com quem casamos, essa sim é a parte que importa, tudo resto, como luas-de-mel e bodas de prata e de ouro e o vestido de noiva dos sonhos dela, são coisas de gente desligada da realidade e com noções ultrapassadas de romance, porque eles é que sabem!

... e sabem que mais? Pois sabem! Porque só se vive uma vez, e eles precisam de acreditar piamente em toda aquela conversa de chácha para conseguirem continuar a ser medianamente felizes na vidinha que levam. Pobres deles se vissem, ou melhor, se tivessem continuado a ver o casamento por tudo aquilo que ele é suposto representar e o impacto que tem na nossa vida, em vez de uma maneira de contornar o sistema para que ele não fosse deportado. A parte chata é a Tânia que vive sem saber se o marido casou com ela por amor, ou por conveniência, ou pior que isso, é até saber e não gostar da resposta que encontra. Pior ainda quando à mesa do jantar, vê o marido dizer de peito cheio "Eu queria vir para o Estados Unidos, e arranjei maneira de conseguir!". Ouch! Claro que o que ele quer dizer é que foi por amor, que é uma coisa linda, e que o casamento é só um papel que não importa nada, que remédio né, mal deles se importasse, mas meus amigos, "whatever gets you through the night"! (;

E agora a Liliana, em quem eu acabei de descarregar há umas horinhas atrás e que mereceu cada palavra do que acabou de ouvir.

Desde as ultimas vezes que saiamos juntos que eu ouvia Liliana a falar com um brilhozinho nos olhos e uma tremura da voz da ambição com contornos de sonho que era comprar a casinha dela com vista pá baía do seixal! Ficar perto do trabalho, e sentar-se no parapeito da janela com uma chávena de chá a ver a lua reflectir na água. E sejamos sinceros, quando a casa dos nossos sonhos tem vista pá baía do Seixal, até não estamos a sonhar muito alto.

Hoje, finalmente a Liliana contava-me o quanto entusiasmada estava por ter finalmente conseguido a casa dos seus sonhos, a excitação por detrás de cada coisinha que comprava, as borboletas na barriga com o enxoval, e a contagem decrescente até ao dia de S. Receber para uma tarde em cheio no IKEA. Contava-me em como a casa de banho ia ser um sonho, e o quão desejosa estava de comprar o quarto, e tornar cada cantinho da casa dela na Moita, A-D-O-R-Á-V-E-L-!-.

... esperem? Eu disse Moita?

Disse Moita sim! Lembram-se da casa dos sonhos da Liliana? Aquela de há dois parágrafos acima tinha vista para a baía do Seixal e da janela se via a lua reflectida na água? Pois, afinal não é no Seixal e diz que não há água por perto. Afinal era Moita, a Liliana é que não sabia. Ela achava que era no Seixal, mas isso era só porque ela estava confusa. Ficar perto do trabalho? Era confusão também, o que ela queria dizer era ficar perto dos pais! Porque a Moita tá só a 10 minutos, e o Seixal... bem... a uns bons 12, e com o universo a expandir-se, sabe-se lá onde é que ele não vai parar! Mas esperem, há melhor ainda, fica só a 1 minutos DO ginásio! Sim, DO, e não DUM, porque é o tal, o ginásio de todos ouvimos falar e nunca conseguimos encontrar, o mito, o unicórnio dos ginásios, o único de Portugal. Há-de o inferno gelar antes do Seixal ter um ginásio também.

E sabem que mais, não me incomoda nada. Tiveram de casar para o Velmo não ser deportado? Epah, o que tem de ser tem muita força, e pelos vistos teve de ser. Querias comprar uma casa no Seixal e por força das circunstâncias tiveste de alugar uma outra na Moita? Epah paciência, baby steps, acho óptimo que estejas entusiasmada com a casa nova, mas poupem-me os póneis e os arco-íris, a chuva de chupa-chupas e nuvens de algodão doce, e deixem de tentar convencer-me que afinal este é que sempre foi o vosso sonho de criança porque sabemos os dois, ou os quatro, bem melhor que isso, e a minha tolerância para hipocrisia é zero!

Se querem saber a verdade, até vos invejo! Invejo essa vossa capacidade abdicar daquilo que sonharam, daquilo que VERDADEIRAMENTE SONHARAM, à troca da óbvia atracção pelo caminho que oferecia menos resistência. Adorava ser assim, mas sou parvo, insisto em querer para mim a vida que eu acho que mereço, a vida com que sonhei e me recuso a abrir mão, e puto, se eu sonho alto! Era tão mais fácil acordar um dia e dar conta que afinal o emprego dos meus sonhos é ser caixa do Modelo, e o amor da minha vida é aquela miúda de quem eu nunca gostei mas que sempre gostou de mim (desculpa lá Helena). Era tão fácil, se querem saber a verdade, até já tentei, mas não consigo, e não só vos admiro por conseguirem, como vos saluto pela facilidade com que o conseguem! Imagino que não deva ser fácil vergar o nosso desejo até ele caber no molde de seja aquilo que for que apareceu pelo caminho, e convencer-mo-nos a nós mesmo que foi isto que quisemos o tempo todo? Quanto tempo é que precisam de ficar sentadas no escuro e dizer a vocês mesmas - "Sempre quis morar na Moita!", "Sempre quis morar na Moita!", "O Casamento é só um papel!", "O casamento é só um papel!" ... até começarem efectivamente a acreditar no monte de conversa fiada que se impingem? Sério, adora umas instruções!

Até digo mais, estou genuinamente feliz pela Liliana e pela sua casa nova, e ainda acrescento que tenho a certezinha absoluta, que logo logo, vai encontrar o rapaz dos seus sonhos, alto, esbelto com um corpo em 'V', bem-sucedido, carinhoso, que guia um todo-o-terreno e adora desportos ao ar livre! Ou se calhar conhece só um tipo qualquer que não é nada daquilo que ela imaginou, mas que é conveniente, e que ajuda nas contas da casa, e porque verdade seja dita, andar de camisa de flanela aos quadrados e pertencer aos forcados da Moita, também tem o seu encanto.

A Promise Made, A Promise Kept

Conhecemo-nos 3 dias depois de eu chegar a Washington, dia 8 de Setembro de 2009 na manhã de uma Terça-feira, conseguia ate dizer-vos a hora, mas pouco importa. Estavam todos os estagiários juntos para a apresentação, e entre eles, ela. Gostava de vos dizer que me chamou a atenção desde o momento que a vi, mas não é verdade, ou não tão verdade quanto o contrário, sei que ela gostou de mim desde que me viu entrar pela porta.

Almoçámos todos juntos nesse dia, almoçámos todos juntos o dia seguinte no terraço do Hall of State. Ela pediu-me para lhe dizer qualquer coisa em português e eu recitei um poema de Miguel Torga. Mais tarde voltámos ao trabalho e ela escreveu-me a pedir para traduzir fosse o que fosse que lhe tinha dito "in my devil speaking language", eu disse. A esse mail seguiram-se outros 737 ao longo de 3 meses, mas isso é adiantarmo-nos na história.

As primeiras semanas foram passadas a tratar do apartamento, a alugar mobílias ou a tentar ultrapassar/contornar todos os problemas que iam aparecendo pelo caminho, e ela, que não fazia questão de voltar para o quarto que dividia com a Kelly Miller, no 3° andar do numero 208 de Massachusetts Avenue, ia comigo, e eu agradecia pagando as bebidas na happy hour, no bar meticulosamente escolhido 10 minutos antes de sairmos do escritório. Caipirinhas em Chinatown, Margaritas em Dupond Circle, e entre umas e outras eu ia gostando mais dela, e ela apesar dos meus "double dips", quero acreditar que ela também, gostando mais de mim.

Passávamos as noites a trocar enormes mensagens no facebook que maior parte das vezes tinham de ser divididas por partes por serem demasiado longas para ser enviadas, escrevíamos um para o outro bem para la da hora de deitar, e combinávamos encontrar-nos no escritório dali a poucas horas junto à maquina do chá, e nunca estávamos muito tempo sem saber um do outro. Depois do English Breakfast Tea, trocávamos email até à hora de almoço, almoçávamos juntos, e voltávamos a trocar mensagens ate eu arranjava uma qualquer desculpa para passar pela secretária dela, nem que a desculpa fosse entregar-lhe uma Zebra para colorir porque ela dizia estar aborrecida, ela respondia com, "Zebras are already black and white, thank you genius!" e eu corrigia o meu erro com um cisne para colorir. E assim eram as nossas tardes até ser altura de sair, encontrávamo-nos na recepção, e descíamos juntos no elevador para outra happy hour num canto qualquer da cidade, eu de fato e gravata, ela de vestido e saltos altos, a fazer de conta que éramos crescidos.

Depois de duas semanas de tardes assim, depois de uma desculpa qualquer para passar a tarde com ela, levava-a a casa, que é como dizer que acompanhava-a ate ao prédio dela, para ter a certeza que ela entrava no prédio antes de voltar para o metro que me levava para Bethesda. Nessa noite, antes de me deixar ir embora, perguntou-me o que é que eu esperava dela, porque se era amigos que íamos ser, ela não podia alimentar por mais um minuto que fosse a ideia de nós os dois juntos, e precisava saber o que ia ser de nós. Eu meti o braço à volta da cintura dela, puxei-a de encontro a mim e beijei-a. Depois disse-lhe que não tinha a certeza se aquilo servia de resposta à pergunta dela, até porque em conversa já me tinha dito o quão importante o primeiro beijo era para o futuro das relações. Ela retorquiu "that did not break the deal!" enquanto atirava os braços à volta do meu pescoço e me beijava de volta. Não nos preocupámos em oficializar o namoro, mas daí em diante, tanto quanto queríamos saber, foi nesse dia que começou, dia 22 de Setembro, outra terça-feira, 2 semanas depois de nos termos conhecido.

Outras duas semanas depois, no dia 6 de Outubro do ano passado, há precisamente um ano atrás, o apartamento 412 do número 35 da rua "E" ficou disponível, e comigo desejoso de ter o meu apartamento, e com ela desejosa de se livrar da roommate, fomos morar juntos. A entrega das mobílias ficou marcada para o dia seguinte, mas assim que tivemos um sitio onde ficar os dois, já nenhum de nós quis sair. Há precisamente um ano atrás, estava sentado no chão do meu, desculpa querida, do nosso apartamento, a vê-la dormir no chão enrolada no meu edredon. Abri o computador e mandei-lhe uma mensagem enquanto a via dormir, na mensagem dizia -

"José Risques, 6 de Outubro de 2009 às 0:00

This is going to sound strange... but anyway.

You're here, lying asleep next to me while I write you this, I should wake you up and walk you home but I don’t have it in me to do it, you're the most beautiful thing I've seen, you look like an angel, wrapped like a burrito in my white fluffy conforter on the floor of my empty apartment, and maybe thats why I don’t want to wake you up, because I don't want you to leave, not now, not ever. I don’t want this night to be over. Sure, there will be other nights, I know, but not like this one, not again, you'll never look more beautiful and nothing will ever be as perfect as right now, with me sitting on the floor of my empty apartment with my back against the wall and my computer on my lap, watching you sleep. This is my memory, the one I'll keep with me for the years to come. Whatever happens next, this night will last forever.

... It’s 0.00, I'm going to wake you up now.

Love you.

Ze"


Carreguei em enviar, acordei-a e levei-a a casa. Depois dessa noite, nunca mais deixámos o nosso apartamento.

Eventualmente as saudades começaram a levar a melhor de mim e comecei a pensar no que era que eu realmente queria, e a verdade é que maior parte do tempo era voltar para casa, e não os Estados Unidos, e se não os queria na minha vida, não era justo, prendê-la a ela, a uma vida que eu não queria ter, ou a mim, a algo que eu sabia que não ia durar.

Ás vezes ia sair, e ela ficava em casa. No regresso a casa, alguma miúda se metia comigo no metro, e perguntava-me de onde ao ouvir-me falar com pronuncia, se eu não queria que ela voltasse para casa comigo, ou se não lhe dava o meu numero para nos encontrarmos durante a semana. E eu pensava na minha namorada, à minha espera no nosso apartamento, a namorada que eu tinha, na vida que não queria ter, e que devia era aproveitar ao máximo o meu tempo em D.C. e não me prender a algo que eu sabia agora não querer, e não era não a querer a ela, o problema nunca foi ela, o meu amor, era o egoísmo de querer aproveitar ao máximo o meu tempo em D.C. mesmo que isso significasse, levar para a cama miúdas que não me diziam nada, só porque aparentemente podia. Era a ideia de que para ficarmos juntos, a tinha de privar da vida que ela adorava, para uma outra que ela não queria ter, a minha, e "A bird may love a fish, but where would they live?"

Voltava para casa, e dizia-lhe que não estava a funcionar, que não estava a dar certo para mim, que queria acabar! E ela, o meu amor, pedia-me a chorar para não dizer isso, avisava-me que eram só as saudades de casa a falar e que eu não sentia nada daquilo que dizia. Pedia-me para pensar enquanto eu dormir, e ela, o meu bem, adormecia a chorar.

Na manhã seguinte acordava, olhava para ela a dormir ao meu lado, e passavam-me todas as saudades de casa, o meu anjo, acordava-a com um beijo, pedia-lhe desculpa e para compreender, que eu nunca tinha estado tão longe, e tão longe durante tanto tempo, e que custa e que eu estava a tentar lidar com tudo o melhor que eu sabia, e que às vezes não chegava. Houve mais noites assim, mas ela nunca desistiu de mim, e ficamos juntos até ao fim.

Moramos juntos 3 meses, e sim, as probabilidades estiveram sempre contra nós, não podíamos ser mais diferentes. Eu, um rapaz de Lisboa, a maior cidade do país mais ocidental da Europa, ela, uma rapariga de Logansport, uma terrinha no meio do Indiana no Mid-West dos Estados Unidos, com 7 anos de diferença que se conheciam há um apenas mês, a viverem juntos num estúdio com 20 metros quadrados, a trabalharem juntos, a almoçarem juntos, a jantarem juntos, a dormirem juntos, parece juntar todos os ingredientes de um desastre, mas não foi, e quando Dezembro chegou e cada um teve de voltar para a sua casa, em continentes diferentes, em lados opostos do mundo, nenhum dos dois quis que o nosso namoro acabasse, ainda que todos dissessem desde o início que a distância certificar-se-ia de que nunca ia dar certo.

E não era o fim, ela tinha sido aceite para um semestre na Universidade de Kent, em Canterbury, no Reino Unido, e se um oceano não chegava para se meter no meio do nosso amor, não iam ser 4 países que o iam fazer.

Estava desejoso de voltar para casa, matar saudades de tudo, e de todos, de Lisboa, dos amigos, das amigas, que vistas à distância confundi com amores mas que de volta a Portugal percebi que foram amigas o tempo todo, e na rotina dos dias, as saudades passaram, e a minha vida voltou ao normal, e as saudades que eu tinha, era de tudo aquilo que de anormal a minha vida tinha, tudo aquilo que a tornava interessante, e no cimo dessa lista, a minha namorada americana, tão diferente de todas as outra raparigas que eu conhecia.

Passei os dias desejoso que ela chegasse, tinha a passagem para Lisboa comprada à meses, e uma semana em Lisboa antes de voar para Londres, mas quando chegou, não era só o continente que era outro, ela estava diferente e as coisas não foram mais o mesmo. Uma semana depois voou para Londres, e duas semanas mais tarde, mandou-me uma mensagem a acabar comigo. Na mensagem dizia que tinha percebido que nunca havíamos de ser felizes a longo prazo. Que sabia o quanto eu não queria os Estados Unidos na minha vida, e que a imaginar uma vida comigo, tinha de abdicar da dela, e que este tempo em casa lhe tinha mostrado que nunca ia ser capaz de deixar para trás a vida dela.

Falamos os dois, e as coisas resolveram-se e continuamos juntos, e uma semana mais tarde, ela volta a querer acabar comigo, tal como das outras vezes em que eu queria acabar com ela, e que ela nunca deixou. E eu resolvi não deixar também. Voei para Londres para ir ter com ela, mesmo depois de todas as vezes que ela me disse para não ir, eu fui, porque também eu já tinha tido a certeza que não a queria na minha vida, e foi só quando voltei para a vida que tinha sem ela, que dei conta da falta que ela fazia.

Era um Sábado o dia em que fui ter com ela, e tentar reconquistar a minha ex-namorada, que jurava a pés juntos que não me queria voltar a ver. Acabei por ficar um mês com ela, e voltou a ser tudo como dantes, do acordar juntos ao almoçar juntos, ao jantar juntos e mais tarde adormecer lado a lado. Engoli todo o meu orgulho em nome do amor que lhe tinha, e porque sabia que quando a situação era a inversa, quando era eu a querer voltar para casa, ela nunca desistiu de mim, e que o mínimo que eu podia fazer, era não desistir dela também.

Um mês depois voltei para Portugal, e deixei-a Kent, e com uma certeza quase matemática, argumentando com as mesmíssimas palavras com que eu argumentava em D.C. queria acabar comigo outra vez. Percebi que a grande diferença entre o que tinha acontecido comigo, e o que estava a acontecer com ela, era que sempre que eu queria acabar, ela estava ao meu lado para não deixar, e que agora que ela queria acabar comigo, eu estava a 4 países de distancia. Ainda consegui fazê-la mudar de ideias da vez que estive lá para ela, como ela antes tinha estado para mim, mas não podia estar lá sempre.

Não havia então nada a fazer enquanto ela não voltasse para casa. Foi só depois de tirar as saudades de equação, que eu consegui ver a falta que ela me fazia, e resolvi fazer o mesmo por ela, mentira, por nós, ou se calhar só por mim, que morro só de me imaginar sem ela. Comecei a procurar uma maneira de voltar para os Estados Unidos, depois de ela voltar para casa, para poder estar por perto, quando as saudades de casa lhe passassem. Ela soube que eu vinha, e disse tudo aquilo que se lembrou para tentar fazer com que eu não viesse, coisas que doeram ouvir, mas que não bastaram para me dissuadir, ela nunca desistiu de mim, e Deus me livre se eu ia desistir dela.

Disse-lhe para não se preocupar comigo, que podia voltar para casa e para a vida dela e fazer de conta que eu nunca tinha feito parte dela, que eu não a ia incomodar de maneira nenhuma, mas que precisava saber que o que lhe estava a acontecer a ela, não era o que me tinha acontecido a mim, e não eram só as saudades a falar mais alto e a fazer-nos dizer coisas que não sentíamos, e se estar aqui, a 40km's dela, não mudasse nada, então eu ia saber que ela tinha razão, que não foram as saudades que mataram o nosso amor, foi ele que simplesmente morreu. Ela estava certa, eu estava errado, agora sei.

Prometi-lhe que ia estar aqui, bem pertinho dela, quando fizesse um ano do dia em que nós nos conhecemos, que ia estar aqui, mesmo ao lado, quando fizesse um ano do dia em que nos beijamos, que ia estar aqui, a escrever para ela outra vez, um ano depois, tal como escrevi para ela, enquanto a via dormir no chão do nosso apartamento, e estou.

Se calhar não é por ela, que aqui estou, se calhar é por mim, que vivia com o peso de consciência por não ter sido inteligente o suficiente para gerir as saudades, e ter prejudicado o meu namoro com alguém que merecia mais de mim. Se calhar estou aqui, pelo sentimento de culpa de não ter sido o melhor namorado que podia ter sido, o namorado que ela tinha merecido, mesmo quando ela dizia que tinha o melhor namorado do mundo. Aos meus olhos tinha de a compensar por todas as vezes que errei, e saber que fiz mais e fui mais longe para lhe mostrar que a queria, que as vezes em que lhe disse o contrário. Mas estou aqui, tal como prometi, ilibado de qualquer mal que lhe fiz, a 7000 km de casa, a 40 km dela. Ando há 10 meses a tentar compensar, o punhado de vezes que errei nos 3 meses de há um ano atrás, e pouco importa se ela foi tão pior para mim quando as saudades lhe tocaram a ela, é comigo que eu tenho de viver.

Se estão a pensar se fez diferença, se voltamos a estar juntos? Não, não voltámos, não a voltei a ver, eles tinham razão, não deu certo, tal como eles disseram que não ia dar. Se calhar a surpresa maior foi o ter durando o tempo que durou ao invés de como acabou. Mas não foi pela distância, nunca foi pela distância, tanto que um ano depois, eu ainda estou aqui, tal como prometi.



I told you I'd follow you to end of the world; I said I'd wait for you; I told you I'd love you forever... Would I lie to you?

For Lacey Berkshire, a minha rendinha. Sempre!

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada


Miguel Torga

The Curious Case of Woody Allen

"In my next life I want to live my life backwards. You start out dead and get that out of the way. Then you wake up in an old people's home feeling better every day. You get kicked out for being too healthy, go collect your pension, and then when you start work, you get a gold watch and a party on your first day. You work for 40 years until you're young enough to enjoy your retirement. You party, drink alcohol, and are generally promiscuous, then you are ready for high school. You then go to primary school, you become a kid, you play. You have no responsibilities, you become a baby until you are born. And then you spend your last 9 months floating in luxurious spa-like conditions with central heating and room service on tap, larger quarters every day and then Voila! You finish off as an orgasm!"

"You must know...

... surely, you must know it was all for you. You are too generous to trifle with me. I believe you spoke with my aunt last night, and it has taught me to hope as I'd scarcely allowed myself before. If your feelings are still what they were last April, tell me so at once. My affections and wishes have not changed, but one word from you will silence me forever. If, however, your feelings have changed, I will have to tell you: you have bewitched me, body and soul, and I love, I love, I love you. I never wish to be parted from you from this day on."

Michael meet Vonda, Vonda, this is Michael.



... I have a feeling you guys arew going to get along great! (;

Back in B-Town

"When you first arrive in a new city, nothing makes sense. Everythings unknown, virgin... After you've lived here, walked these streets, you'll know them inside out. You'll know these people. Once you've lived here, crossed this street 10, 20, 1000 times... it'll belong to you because you've lived there. That was about to happen to me, but I didn't know it yet."

"Our deepest fear ...

... is not that we are inadequate. Our deepest fear is that we are powerful beyond measure. It is our light, not our darkness that most frightens us. We ask ourselves, Who am I to be brilliant, gorgeous, talented, fabulous? Actually, who are you not to be? You are a child of God. Your playing small does not serve the world. There is nothing enlightened about shrinking so that other people won't feel insecure around you. We are all meant to shine, as children do. We were born to make manifest the glory of God that is within us. It's not just in some of us; it's in everyone. And as we let our own light shine, we unconsciously give other people permission to do the same. As we are liberated from our own fear, our presence automatically liberates others.”

Marianne Williamson

Know Her By Heart...



There's a secret path I follow
To a place no one can find
Where I meet my perfect someone
I've kept hidden in my mind
Where my heart makes my decisions
'Till my dream becomes a vision
And the love I feel
Makes her real someday

'Cause I know she's out there somewhere
Just beyond my reach
Though I've never really touched her
Or ever heard her speak
Though we've never been together
We've never been apart
No we've never met
Haven't found her yet
But I know her by heart

Am I living in an illusion?
Wanting something I can't see
If I compromise, I'd be living lies
Pretending love's not meant to be
'Cause I know my heart's worth saving
And I know that she'll be waiting
So I'll hold on and I'll stay strong 'till then

'Cause I know she's out there somewhere
Just beyond my reach
Though I've never really touched her
Or ever heard her speak
Though we've never been together
We've never been apart

No we've never met
Haven't found her yet
But I know her by heart
No we've never met
Haven't found her yet
But I know her by heart...

Vonda Shepard

My Expiration Date

O meu visto de permanência nos Estados Unidos acabou de expirar à meia-noite. Achei que pela altura que começasse a escrever, arranjaria uma maneira de explicar o que tenho para vos dizer, e foi o melhor que consegui arranjar. O meu visto acabou de expirar.

Pode não parecer importante, mas é, não o prazo do visto em si, mas o que isso significa, como uma etapa que acaba, ou um ciclo que se fecha, o ter de voltar para a vida que tinha antes de tudo isto acontecer, é isso que custa, é isso que faz com que seja importante, o significado por detrás de tudo isso.

Todo o tempo em que tive em Washington, não conseguia deixar de pensar em casa, em voltar, nos amigos, na família, só queria voltar, mas depois de voltar as coisas não correram exactamente como eu tinha planeado. Depressa demais aquilo de que passei a ter saudades foi do que ficou para trás. O sentimento de culpa por ter sabotado o meu tempo lá com saudades de cá, e agora cá, só penso em voltar para o que deixei para trás.

Tenho uma vida privilegiada, passo o ano em Lisboa e os verões na casa do Algarve. Na Páscoa vamos para a neve no sul de Espanha, para Andorra, ou para a Suíça. Mais vezes que aquelas que devia, meto-me num avião e vou ter como Kiko a Londres, nem que seja só para passar o fim-de-semana e irmos sair para o West End, a porta aberta da casa dos primos de Paris e dos de Bruxelas, um fim-de-semana em Barcelona só porque a passagem custa menos que um bilhete de cinema. É assim a minha vida cá, em Portugal, na Europa, e é extraordinária, a única coisa que lhe falta para ser perfeita, é a vida que desapareceu com o visto que acabou de expirar.

Até podem dizer que é um exemplo clássico de querermos sempre aquilo que não temos, que a relva é sempre mais verde do lado de lá da cerca, mas não é, é provavelmente um exemplo clássico sim, mas de querermos sempre mais que aquilo que temos, não obstante de quão bom é aquilo que temos. Esta é a minha vida, e não vai a lado nenhum. Nasci em Portugal, hei-de ser Português até ao fim dos meus dias, foi aqui que nasci, foi aqui que cresci, há-de sempre ser aqui que está a minha família e os meus amigos, hei-de ter sempre uma razão para voltar, mesmo que seja só pelo Natal, ou duas semanas no Verão.

Agora, quero aquilo que eu não tenho, a metade do mundo que falta, a metade que eu tive e perdi. Quero-a outra vez, e mais que a querer outra vez, quero-a de vez, quero que volte para ficar como parte da vida que hei-de ter. Quero que os meus filhos tenham um pai Português e uma mãe Americana, quero que passem o ano nos Estados Unidos, na escola, no secundário, na faculdade, que se juntem a uma fraternidade ou irmandade, e que passem o verão em Portugal e a passear pela Europa, tal como o pai fazia, que tenham eles a vida que eu tenho agora, dar-lhes também o melhor dos dois mundo. Quero que falem Inglês com a mãe e Português com o pai. Quero as praias do Algarver, e um carro com um V8 estacionado na driveway, quero o Benfica a pagá-las em Alvalade aos Domingos, e a noite de terça-feira num Sports bar com amigos, a ver os Colts vingarem-se do Saints mergulhados num balde de asas de galinha.

Não me interpretem mal, não quero com isto dizer que o lado de lá do mundo é muito melhor que o de cá, garanto-vos que não é, mas este, quer eu queira quer não, e quero-o muito, quer eu goste quer não, e gosto muito, há-de estar sempre aqui para mim. É fácil contentarmo-nos com o que temos e dar graças pela sorte da vida que vivemos, quando não sabemos quanto da vida nos está a passar ao lado, aquilo que estamos a perder, mas agora eu sei, e esta é uma daquelas portas que depois de aberta não dá para fechar. Há um mundo inteiro, meio mundo do lado de lá do mar, e mesmo meio mundo, é grande demais para ignorar, para não ligar. Como é que se perde meio mundo?

Está a ficar tarde, devia-me ir deitar, tenho amanhã cedo uma entrevista na Embaixada, não quero chegar atrasado, tenho meio mundo à minha espera.

Les Poupées Russes

If I think about all the girls I've known or slept with or just desired, they're like a bunch of Russian dolls. We spend our lives playing the game dying to know who'll be the last, the teeny-tiny one hidden inside all the others. You can't just get to her right away. You have to follow the progression. You have to open them one by one wondering, "Is she the last one?"

When a Man Loves a Woman

"It's horrifying how much you can hate yourself for being low and weak and he couldn't save me from that. So I turned it on him; I tried to empty it onto him. But there was always more, you know. When he tried to help I told him that he made me feel small and worthless. But nobody makes us feel that, we do that for ourselves. I shut him out because I knew if he ever really saw who I was inside, that he wouldn't love me. And we're separated now, he's moved away, and it was so hard not to beg him to stay. And I don't know if I'm going to get a second chance but I have to believe. That I deserve one. Because we all do."

Constant State of Departure

Há poucos dias ou instantes de tamanha plenitude como a que sinto quando atravesso a 25 de Abril ao fim da tarde dum dia de verão, o vento a atravessar o carro pelas janelas abertas e a mão do lado de fora do carro a dançar com ele, o sol a por-se ao longe no estuário, como se tb ele fosse desaguar para para o outro lado do mundo, e a sensação de que não há outro sitio no mundo como este.

É incrível a velocidade com que o copo passa de meio-vazio a meio-cheio. Mesmo antes de me ir embora o ano passado, dava por mim a pensar naquilo que me ia fazer mais falta, se a família, se os amigos, se os amores, se Lisboa, se Portugal, se a Europa inteira, e tudo me fez falta. Passei o tempo lá, desejoso de voltar para cá, tudo lá me incomodava, mesmo aquelas que agora, mais tarde, sinto saudades. O mesmo com Portugal, sinta a falta das mesmas coisas que cá me incomodavam, e pior que sentir a falta das coisas que me incomodavam, sentia a falta do incomodo que elas causavam, as imperfeições que aprendemos a ver como particularidades que conferem a tudo um outro encanto. Não via a hora de voltar para casa.

Eventualmente voltei, e não podia estár mais feliz. O mar de amigos a ligar, a perguntar se já tinha voltado, os cafés, os jantares, as saidas para por a conversa em dia, a agenda preenchidissima a saltar de festa em festa. A família em redor da mesa de jantar na vespera de natal, o mar de presentes que se estende até meio da sala, os mais pequeninos a correr pela casa aos berros, um casa cheia, cheia de vida, uma vida cheia... e Lisboa a namorar o Tejo, o Bairro Alto, Alfama, o Castelo, Chiado, Rossio, a Av. da Liberdade a estender-se como um tapete vermelho aos pés do Marquês e o Parque como um manto verde que ele trás ás costas, e no alto, uma bandeira de Portugal desfraldada ao vento e ao Fado.

Mas as semanas passam, e eventualmente os amigos teem outros planos, a familia separa-se até ao próximo natal, casamento, funeral, aquele que acontecer primeiro, e até Lisboa, volta a ser só Lisboa, e numa tarde de terça-feira passada em casa sem ter que fazer, damos por nós a pensar porque era mesmo que estávamos tão desejosos de voltar? Queremos sempre aquilo que não temos, e começamos a pensar no que ficou para trás ao voltarmos, e agora, sem o julgamento toldado pelas saudades que tinhamos de tudo, apercebemo-nos que o que tinhamos não era tão mau quanto o pintámos, e agora que desapareceu, como gostavamos de o ter de volta, e movemos o mundo, vamos onde for preciso, fazemos o que tiver de ser feito, para o conseguirmos recuperar.

Hoje foi um desses dias de plenitude, a viagem de barco até Lisboa, a extraordinária e inesperada companhia da Claudia, tropeçar na Priscila no Bairro Alto, e o trajecto de volta à conversa com o Virgílio que me fala da Rosa, e da Irís, e o copo volta a estar meio cheio, e voltamos a ver o quaõ dificil é não ter os amigos por perto, as saudades que vais ter da familia, a falta que Lisboa te vai fazer, e foi tão fácil voltar a ver tudo isso, a unica coisa que foi preciso, foi saber que me vou embora outra vez.

Morre Lentamente

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece. Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos. Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar. Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante. Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

Só de Sacanagem

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

by Elisa Lucinda

Finalmente, o amor.

Esqueci-me o nome de uma das miudas com quem andei. Não é bazófia, é a verdade, e provavelmente diz-vos muito mais da minha capacidade para memorizar nomes que o que vos diz da extensa lista de ex-namoradas, que adianto-vos já não ser assim tão extensa nem tem assim tanto nomes, mas aparentemente tem já um nome a mais que aqueles que devia de ter, nem que seja só um a mais, foi esse um que acabou por fazer a diferença.

É sempre igual, e foi preciso chegar a este ponto ridiculo para me dár conta disso. É tudo perfeito quando começa, o fogo da paixão arde mais quente que nunca e não nos conseguimos largar, não pensamos em mais nada, não queremos outra coisa. Eventualmente os meses vão passando e as coisas arrefecem porque não teem como não arrefecer. É lógico, é mais que lógico, é natural! Começamos a olhar para outras raparigas e a pensar em como seria diferente com elas, diferente daquilo que temos com o amor de agora, e começamos a minar a relação em que estamos a pensar em como seria com outra qualquer, uma mais certa, e se as coisas não iam arrefecer como arrefeceram com a nossa, que ainda que tenha começado como certa, tão depressa se tornou na errada. Achamos que é deixár de gostar, que os nossos sentimentos mudaram, que se o fogo que havia inicialmente se extinguiu, então é porque não é ela o amor da nossa vida, com quem é suposto ficarmos, que não era ela a tal. E acabamos.

Eventualmente conhecemos outra pessoa qualquer e temos a certeza que ele é que é. Que é tão mais sexy que as outras (não é), que é tão mais interessante que a nossa ex (não é), tão mais gira, boa, alta, divertida que todas as outras raparigas que conhecemos (não é, não é, não é, não é!). E começa tudo outra vez, até esse fogo passar tambem e tudo acalmar, como é suposto, como é natural quando deixa de ser novidade, quando nos habituamos ao corpo um do outro e perdemos a conta ao numero de vezes que estivemos juntos. E voltamos a olhar para outras raparigas, que parecem tão mais giras que a nossa, que agora que olhamos para ela, não é tão sexy quanto achavamos que era ao inicio (ainda é), tão interessante (ainda é), tão gira, boa, alta ou divertida (ainda é, ainda é, ainda é, ainda é!), tanto que é, que vai ser para o tipo que vier depois depois de nós, para quem ela vái ser tudo aquilo que foi para nós ao inicio, quando tudo começou, antes do hábito lhe roubar o encanto. E acaba tudo outra vez, para começar outra vez com outra qualquer, para tambem isso acabar vitima dos mesmo sintomas que todas as relações que vieram antes tiveram.

E um dia, seja porque motivo for, tentas lembrar-te do nome de todas as raparigas que já achaste que eram a tal, e não consegues, e falta-te um nome, e dás conta que te escapou o obvio. Que estavas tão empenhado a procurar um amor que não se desvanecesse ao fim de um par de anos, que nunca desta conta que é mesmo assim que o amor é, e que o atenuar da chama da paixão, e tão sinal de amor, quanto a intensidade com que ela arde de inicio. Que é a maneira que o amor tem de dár lugar a outras coisas e te preparar para o próximo passo, para os planos a dois, os projectos a longo-prazo, o casar, o ter filhos, e o resto da vida. Muitas vezes o problema é nós não estarmos preparados para o próximo praso, e deixarmo-nos assustar com aquilo que está a acontecer, e saltamos fora de uma relação para cair dentro de outra que eventualmente nos vái levar exactamente ao mesmo sitio.

Um dia atinge-te, que o amor, é mais que um sentimento, é um estado de alma uma predisposição do espirito. Faz-se amor, e sente-se amor, e no fim, vive-se o amor, por aquilo que ele é e aquilo que tem para no dár, e é muito mais que o fogo com que começa, é o que vem depois, quando ele esmorece, e o resto começa.

The Holiday

I've found almost everything ever written about love to be true. Shakespeare said "Journeys end in lovers meeting." What an extraordinary thought. Personally, I have not experienced anything remotely close to that, but I am more than willing to believe Shakespeare had. I suppose I think about love more than anyone really should. I am constantly amazed by its sheer power to alter and define our lives. It was Shakespeare who also said "love is blind". Now that is something I know to be true. For some quite inexplicably, love fades; for others love is simply lost. But then of course love can also be found, even if just for the night. And then, there's another kind of love: the cruelest kind. The one that almost kills its victims. Its called unrequited love. Of that I am an expert. Most love stories are about people who fall in love with each other. But what about the rest of us? What about our stories, those of us who fall in love alone? We are the victims of the one sided affair. We are the cursed of the loved ones. We are the unloved ones, the walking wounded. The handicapped without the advantage of a great parking space! Yes, you are looking at one such individual.

As Vidas dos Outros

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
Há sempre um conselho a dar p'rás vidas dos outros
Nada é eterno e se aguentarmos todo o mal tem fim
É fácil ter calma quando a alma não me dói a mim
Eu sou tão bom a tornar todo o mal inerte
Se é aos outros que lhes custa que o passado aperte
Mas quando a inquietude vem toda para o meu lado
Deita-se, desnuda e não desgruda até me ter vergado

É tão simples quando estou de fora
A ver passar as nuvens pelo ar
Aplaudir, rever-me e concluir
Que eu também já lá estive e...
Já soube ultrapassar
Só a mim é que ninguém me entende
E a minha dor não tem como acabar
Ai quão melhor era acordar um dia
E ter as vidas dos outros todas em meu lugar

As vidas dos outros nunca me soam mal
Veêm problemas no que é no fundo normal
Ai se eles soubessem como é viver assim
As vidas dos outros são tão simples para mim

Eu sou tão bom a falar das vidas dos outros
Sempre me sei comportar nas vidas dos outros
Volta, revolta, o melhor está para vir
Solta tudo agora, não demora, tornas a sorrir
Eu são tou bom a apagar qualquer mau momento
Se é aos outros que lhes bate à porta o sofrimento
Mexe, remexe, alguma coisa hás-de encontrar
A solução é procurar

Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a cantar
Eu sou tão bom a contar as vidas dos outros
Eu sou tão bom a falar
Eu sou tão bom a curar
Tudo menos o meu próprio mal

As vidas dos outros nunca me soam mal
Veêm problemas no que é no fundo normal
Ai se eles soubessem como é viver assim
As vidas dos outros são tão simples para mim

by Anaquim

Onegin

"I can forsee the bitter scorn blazing at me from your proud eyes when you have read my secret sorrow. When we first met, through chance, I saw tenderness like a shooting star but did not dare to put my faith in it. Then Lensky fell, which parted us til further. Then I tore my heart away from everything I loved, rootless, estranged from all, I thought that liberty and peace would serve instead of happiness. My God, how wrong I was. How I have been punished. No, day by day to be with you, follow you everywhere, alive to every smile, each movement of your eyes, to dwell upon you soul's perfection, listen to your voice and grow faint with yearning. That is bliss and I'm cut off from it. My time is short, each day and hour is precious yet I just drag myself around in boredom. Everyday a desert unless when I wake up I know the day will bring a glimpse of you. If you but knew the flames that burn in me, which I attempt to beat down with my reason, but let it be. I cannot struggle against my feelings anymore, I am entirely in your will."

Falling In Love

"No, I think about him every day. Last thought before I fall asleep and first thought when I wake up. I talk to myself all day about him, even when I'm talking to somebody else, even when I'm talking to you now I'm talking to myself about him. Brian thinks I'm ill, he thinks that it has to do with my father, he thinks the stress and, you know, all that... Thinks I'm having a breakdown, but I'm not, there's nothing wrong with me. Except that I love him."

True Romance

"I had to come all the way from the highway and byways of Tallahassee, Florida to MotorCity, Detroit to find my true love. If you gave me a million years to ponder, I would never have guessed that true romance and Detroit would ever go together. And til this day, the events that followed all still seems like a distant dream. But the dream was real and was to change our lives forever. I kept asking Clarence why our world seemed to be collapsing and things seemed to be getting so shitty. And he'd say, "that's the way it goes, but don't forget, it goes the other way too." That's the way romance is... Usually, that's the way it goes, but every once in awhile, it goes the other way too."

It Happened One Night

"Sure I've thought about it. Who hasn't? If I could ever meet the right sort of girl. Aw, where you gonna find her? Somebody that's real. Somebody that's alive. They don't come that way anymore. Have I ever thought about it? I've even been sucker enough to make plans. You know, I saw an island in the Pacific once. I've never been able to forget it. That's where I'd like to take her. She'd have to be the sort of a girl who'd... well, who'd jump in the surf with me and love it as much as I did. You know, nights when you and the moon and the water all become one. You feel you're part of something big and marvelous. That's the only place to live... where the stars are so close over your head you feel you could reach up and stir them around. Certainly, I've been thinking about it. Boy, if I could ever find a girl who was hungry for those things..."

Voyager Golden Record

No verão de 1977 a NASA lançou a Voyager 1 e Voyager 2, as naves tinham com o objectivo estudar os planetas Júpiter e Saturno numa missão de 5 anos. Depois de bem sucedidas nas suas missões, os cientistas da NASA acharam que era possivel re-programar as Voyager para, e já que estavam na vizinhança, seguirem viagem até Urano e Neptuno, e as Voyager seguiram assim viagem até aos gigantes longiquos do nosso sistema solar, e a missão de 5 anos, estendeu-se por outros 7, para um total de 12 anos. Em 1998, a Voyager 1 passou a Pionneer 10, e tornou-se assim no objecto construido pelo Homem mais distante do nosso planeta.

Mas por mais fascinante que tudo isto seja, não foi por isso que falei nelas. Com as Voyager, a NASA enviou um disco de bronze banhado a ouro, o "Voyager Golden Record", com sons e imagens da Humanidade e da Terra, na esperança que num futuro distante, alguém numa galáxia longinqua o encontre, e fique a saber nós, aqui, sozinhos, neste cantinho do universo. Mas o espaço é grande e as Voyager pequenas, tanto que o mais certo é nunca ninguem as encontrar, mesmo que daqui a 40.000 anos, a Voyager 1 passe a "apenas" 1,6 anos-luz da estrela AC+79 3888 na constelação de Ophiuchus.

Na verdade, o objectivo do Voyager Golden Record, é o de ser uma cápsula do tempo, uma declaração simbólica do nosso mundo e de quem somos, mais que uma tentativa de comunicar com vida extra-terreste.

E é aqui que as coisas encaixam, este blog, tal como o disco dourado das Voyager, não tem pretensões a mudar o mundo, ou re-inventar o modo como a humanidade se vê, pouca gente sabe dele, e eu não faço questão de falar. Este blog é assim uma capsula do tempo mais que outra coisa qualquer. É escrito por mim, independente de toda a minha estima por aqueles que aqui passam para o ler, é escrito para mim, para tambem eu num futuro distante, me possa lembrar de quem fui quando era mais novo.

No outro dia decidi tirar a Nintendo 8 bits de dentro da caixa que a guardava, escondida no fundo do roupeiro, e para lhe chegar, tive de abrir caminho por uma série de livros da primária, cadernos antigos com uma letra que já nem reconheço como minha, mas minha, e escrito nessa mesma letra, uma lista com o titulo "Os Nomes Meus Colegas" do tempo da minha 3ª classe no Queen Elizabeth School:

Ana Inês Pimentel Alves Carvalho
Candice Anita Clara Machado
Carlina Gauvinet de Andrêa e Sousa de Oliveira
Clara Patrícia Costa Faveiro
Frâncisca Castanho Lombo da Cunha Rêgo
Guilherme Xavier Brito Machado
Hugo Marques Ventura da Luz
Inês Maria Amorim Pacheco
Inês Pereira Marcelly Coelho de Carvalho
Ivân Silvand Graça Abrantes
Jaime Manuel Carvalho Vicente
Joana Concha Morgado Bernardino Bogarim
Joana da Silva Teodoro
José Joaquim Serrano Laboreiro de Paula Risques
Margarida Almeida Quintino
Paulo Mendonça Jorge Duarte
Pedro Tiago Amarao Loves Palhota de Matos
Rui Miguel Sousa Henriques
Shamez Pyarali Amarshi Jamal
Tatiana Ventura Bernardo Machado
Valerie Ann Lynce de Faria

... e aqui ficam, numa versão muito mais modesta que a da Voyager, a minha capsula do tempo, e os nomes deles lançados no universo na esperança que eles os encontrem, e que ao os encontrarem, me encontrem a mim também.

You’ve Got Mail

"People are always saying that change is a good thing. But all they're really saying is that something you didn't want to happen at all... has happened. My store is closing this week. I own a store, did I ever tell you that? It's a lovely store, and in a week it'll be something really depressing, like a Baby Gap. Soon, it'll be just a memory. In fact, someone, some foolish person, will probably think it's a tribute to this city, the way it keeps changing on you, the way you can never count on it, or something. I know because that's the sort of thing I'm always saying. But the truth is... I'm heartbroken. I feel as if a part of me has died, and my mother has died all over again, and no one can ever make it right."

Live Lessons (Learnt the Hard Way)

De vez em quando há esta ou aquela frase que insiste em aparecer-nos na vida, num filme, num livro, num status dum amigo no facebook, onde menos esperavamos, como se nos estivesse a tentar dizer qualquer coisa. A ultima frase com que isso aconteceu, foi com "o Universo desdobra-se da maneira que é suposto", e sabem que mais? Desdobrou-se mesmo! Está a acontecer outra vez, com outra frase, "Se tiver de resumir tudo aquilo que aprendi sobre a vida, é que ela continua.", e provavelmente daqui a uns tempos fará muito mais sentido que aquele que faz agora, porque agora, e acho que acontece exactamente o contrário,

A vida não continua, a vida acaba, e acaba, e acaba, e acaba, e dos escombros das vidas que acabam, sobrevivemos nós, magoados, doridos, esfolados, saimos de debaixo do entulho e seguimos em frente, e continuamos, para uma vida nova, muitas vezes (maior parte das vezes) não por vontade própria, mas por imposição da vida que acabou e ficou para trás que nos obriga a seguir em frente, para uma nova que mais tarde ou mais cedo há-de vir, que começa, e que muito provavelmente vái acabar tambem.

Há três semanas que estou longe de casa outra vez, desta vez em Canterbury, volto quarta-feira para Portugal. Sei que no momento que me meter no comboio para Londres, esta vida acaba tambem, e muito dificilmente cá volto. Por agora, sei o nome das ruas, os "footpaths" até à cidade, o nome do café da esquina (Cafe Des Ami), o autocarro que apanho para a estação (6A) e ate a hora a que o comboio parte para London-Victoria (23:05), habituei-me ao contorno da catedral na linha do horizonte, à torre de St. Dunstand Street, a Humpty Dumpty Meadow de Whistable Road, a Ring Road, o canal, e tudo aquilo que nas ultimas semanas tem sido a minha vida e que depressa se vai transformar em memória de mais uma vida que acabou, mais uma vida que ficou para trás.

Há três meses atrás estava a escrever um post no autocarro a chegar a Nova Iorque, um mês antes disso a escrever outro do meu apartamento em D.C., em outras vidas que acabaram também, e eu claro esta, por imposição mais que por vontade, continuei. Posso lá voltar, é certo, mas para quê? Para o trabalho que não mais meu? Para os outros estagiários da hora de almoço que já não lá estão? Para o meu (nosso) apartamento alugado a outra pessoa qualquer? Não vale a pena. Há verdades tão universais que é incrivel como ainda lhes tentamos dár volta, e eu sempre ouvi dizer que não se deve voltar onde um dia se foi feliz, voltar é tentar agarrar uma vida que já se perdeu, fazer por manter em nós aquilo que não é mais nosso, a âncora no passado que nos impede de seguir em frente.

O Paulo! Foi o meu primeiro melhor amigo, tinha eu uns 3 anos, e é tudo o que resta dele, o nome, não me lembro de mais nada. A minha ama, a D. Mª José, que durante anos, me levou e foi buscar ao colégio, até ao dia em que me tornei crescido o suficiente para ir e voltar sozinho. Mudei de escola, e houveram outros Paulos com outros nomes, que eventualmente também se perderam em vidas passar e deram lugar a outros "Paulos" por quem passo hoje na rua e fazemos sinais de luzes ou cumprimentamos com um toque na buzina. Os amigos lá da rua com quem cresci, que compraram casa e mudaram-se e que não voltei a ver. Pessoas que chegam e tornam-se parte da nossa vida, ou duma delas pelo menos, e que morrem com ela quando ela acaba, com sorte, há um ou outro amigo que fica, e levamo-lo connosco para a vida que se segue, enquanto todo o resto fica para trás.

Tão certo como as vidas acabarem, é haver vidas que não começam, há rapazes e raparigas para quem me dou há anos, por achar que são alguem de quem eu era capaz de ser amigo, ou mais que amigo, e que nunca falámos para além do "Olá, tudo bem?" há espera duma amizade que nunca chegou. Que não vai chegar. A miúda gira adicionada no messenger há anos, há espera do dia em que combinamos o café que mude tudo, o café que nunca chegou. Desculpem dizer-vos como tudo acaba, mas se nao aconteceu até agora, o mais certo é não ir acontecer de todo.

Estou perto de fazer trinta anos, e se calhar e isto que se aprende por esta altura da vida, ou se calhar não se aprende nada, e eu tento à força tirar lições de tudo aquilo que me vai acontecendo para me convencer de que valeu a pena, e que todo este sofrimento teve um propósito, de que não foi em vão, e estou mais preparado para seja o que for que as próximas vidas tiverem guardado para mim. Passamos a vida a ouvir uma serie de clichés que chega a dar vontade de rir, as crises de meia idade, os dramas dos 30 anos, toda a psicologia por detrás das fases da vida, e achas que é tudo uma treta, que cada caso é um caso, e que tu és diferente, longe de ti encaixares no padrao pelo qual os outros se regem, caber nas mesmas caixas que os outros. E quando dás por ti, sem que percebas, ou sem razão aparente comecas a pensar em coisas que nunca tinhas pensado antes, a ter posturas diferentes em relação a algo com que lidaste todo os dias da tua vida e nunca o viste de outra maneira, e das conta que se tudo continua igual, só podes ser tu que mudáste.

Aprendi outra coisa, há uns 10 anos atrás, tinhamos a piada corrente no grupo de amigos, sempre que um de nós se comecava a fartar das saídas, das noitadas, das viagens e festas, e falava em "assentar", era ciclíco e tocou a todos a dada altura, coincidente mente sempre que um novo romance aparecia. E foi sempre isso que assentar significou, estar disposto a comecar qualquer coisa nova, diferente daquela que se tinha então, pronto para ver uma vida acabar para deixar uma nova ocupar o seu lugar. Não tinhamos a minima ideia do que estávamos a falar. Estou pronto para assentar outra vez, ou melhor, estou pronto para assentar de vez, e pela primeira vez, sei o que isso significa, estou farto de vidas a acabarem, vidas que adorei e que me partiu o coração deixar para trás, estou cansado (velho?) demais para continuar, para comecar do principio sempre que mais uma não dá certo. Pela primeira vez, assentar não é mais querer que uma vida comece, mas antes que a vida de agora não acabe, é agarrarmo-nos a ela com quanta força temos, cerrar o punho e não abrir mão, rezar que para que dê certo, jurar que desta é de vez e fazê-la durar para sempre.

Trivial Pursuit

O coração é um dos músculos mais fortes temos, e sabendo eu aquilo que ele sofre, não podia ser de outra maneira.

José Risques, Versão 5.0

Tenho 28 anos, e estou a morrer, um bocadinho a cada dia, mais dia, menos dia agora, mais mês menos mês, já falta pouco, não faz mal, não é a primeira vez que eu morro, e com sorte, não vai ser a ultima, e vou morrer muitas mais vezes, até chegar a vez em que morro, de vez. É que desta, e das outras vezes que já morri, nasce um bocadinho novo, por cada bocadinho que morre. Quero acredita que o próximo, o novo Zé, vai ser melhor que este, mais inteligente, mais sensato, se não for pedir muito, um bocadinho mais alto, como que uma versão melhorada do Zé que havia antes.

A primeira vez que eu morri, tinha 7 anos, vejo-o em fotografias na maternidade, no berço, ao lado da Inês quando ela nasceu e consigo ver que ele foi feliz, acredito piamente que ele o mais feliz de todas as minhas versões que já viveram, nunca teve nada com que se preocupar, e é certo que tinha um bocadinho de dificuldade a pronunciar os L's, mas não me parece que isso fosse algo que preocupasse alguém com 3 anos. Esse Zé não era filho de pais separados, tinha duas avós, e um avô, uma bisavó, uma irmã bebé e todos achavam que ele era um milagre, e viveu e morreu sem uma única preocupação no mundo.

O Zé que lhe seguiu não foi tão feliz quanto o primeiro, teve uma vida bem mais complicada, perdeu um avô e a lembrança da noite em que o telefone tocou com as notícias ficou até ele morrer também, mudou de escola e ficou sem amigos, um ano depois mudou de escola outra vez, e outra vez perdeu os amigos que tinha feito, teve de ser operado, viu os pais divorciarem-se. Dizem que Deus nunca nos dá mais que aquilo que conseguimos aguentar, mas se calhar Deus esperava demais de um rapaz de 14 anos, e esse Zé morreu também.

E nasceu o Zé antes de mim, e se alguém achava que tinha sido complicado antes, ninguém podia tê-lo preparado para o que o esperava. Teve de crescer sem um pai, partiram-lhe o coração mais vezes que aquelas que ele se consegue lembrar, a primeira namorada que ele teve traiu-o com o melhor amigo, mudaram-no outra vez de escola, e ele, estúpido, pediu para voltar para a antiga, e voltou, para outra turma que foi o mesmo que nada, um ano mais tarde mudou outra vez de turma, e quaisquer amigos que ele pudesse ter feito, iam-se perdendo pelo caminho, e ele acabou sempre sozinho. Chegou ao secundário e perdeu-se com más companhias, ou se calhar era ele a má companhia para os outros, chumbou dois ou três anos, confusões, cenas de pancada, problemas com a polícia, foi a tribunal, estava visto que ora acabava preso, ou morto... e com 21 anos, tal como os Zé's antes dele, morreu.

E apareci eu, e a verdade, é que mal posso esperar para morrer, ganhei um pai, mas perdi uma bisavó, passei grande parte dos anos que me foram dados a remediar as asneiras que o Zé que veio antes de mim criou, mas não o culpo por nada, ele não teve a vida nada fácil, que descanse em paz, propus-me a resolver aquilo que ele deixou pendente, fui a tribunal por aquilo que ele fez, e resolvi isso também, entrei para a faculdade, tirar o meu curso, arranjei um estágio que com sorte vai tornar a vida do Zé que vier a seguir um bocadinho mais fácil. Fiz o melhor que pude, nos 7 anos que me foram dados, esforcei-me para ser o melhor Zé que conseguia ser, espero que tenha sido o suficiente, mas estou cansado, esta vida exige demais da gente, mal posso esperar para que a minha hora chegue e possa tambem eu descansar, dar lugar ao proximo Zé que há-de vir.

Sinto-me a ir aos bocadinhos, uma célula de cada vez. Cada célula tem uma esperança média de vida de 7 anos, e passado esse tempo, morre, e quando morre, vem uma célula nova para ocupar o seu lugar. E assim, de 7 em 7 anos somos uma pessoa nova, feita de células completamente diferentes daquelas que nos faziam antes. Tenho 28 anos, 7 vezes 4, já está na hora, sinto-as a morrer, uma a uma, de cada vez, as do coração foram as primeiras a ir, sofreram demais este 7 anos, custa a crer que tenham durando tanto, sabendo aquilo pelo que elas passaram, depois foi o cérebro a ir, sem surpresas, pensou demais, trabalhou de sobra, deixá-o ir, deixá-lo morrer, deixa o corpo seguir-lhe, deixa o próximo Zé chegar, deixa-o começar de onde eu parei, que faça melhor que aquilo que eu fiz, ele seja melhor que aquilo que eu fui.

Saying Something!

Relationships don't work they way they do on television and in the movies. Will they? Won't they? And then they finally do, and they're happy forever. Gimme a break. Nine out of ten of them end because they weren't right for each other to begin with, and half of the ones who get married get divorced anyway, and I'm telling you right now, through all this stuff I have not become a cynic. I haven't. Yes, I do happen to believe that love is mainly about pushing chocolate covered candies and, y'know, in some cultures, a chicken. You can call me a sucker, I don't care, because I do believe in it. Bottom line: it's couples who are truly right for each other wade through the same crap as everybody else, but the big difference is they don't let it take them down. One of those two people will stand up and fight for that relationship every time. If it's right, and they're real lucky, one of them will say something.

Como Esquecer

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processo e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se pode despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!

É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de termina de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distraímos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento conseguido com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar..

Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade. A felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos participar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.

Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar. Afonso Lopes Vieira dizia que Portugal estava tão mal que era preciso exilar-se para poder continuar a amar a Pátria dele. Deixar de vê-la para ter vontade de a ver. Às vezes, a presença do objecto amado provoca a interrupção do amor. É a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.

As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar. É preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, dar murros na mesa, não perceber. E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.

Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sitio onde se tenha sido feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.

Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem só conseguem amar-se bem quando não se dão.

Mas como esquecer? Como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.

Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor.No meio do remoinho de erros que nos revolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor - temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.

As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, abandonam-se, fazem o maior dos disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las é preciso chocá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar em como ainda temos esperanças de contorná-la. Nos uivos das mulheres nas praias da Nazaré não há «histerias» nem «ignorância» nem «fingimentos». Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me-fazes, os anestesiados, temos medo de enfrentar.

Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia - só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o fôlego.

Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciencia e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado natural. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somos feitos para aguentar com ela.

Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos, de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhes compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isso conta como lembrança. Tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita do coração, uma peste inexterminável, barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.

O que é preciso é iguala a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer, é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça nas paredes, dar sangue, dar um pedacinho de carne (eu quero do lombo, mesmo por cima da tua anca de menina, se faz favor).

E mesmo assim, mesmo magoando, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia da Nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.

Quanto mais fácil amar e lembrar alguém - uma mãe, um filho, um grande amor - mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo. Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com o tempo e com paciência, aqueles que amamos com paciência, aqueles que amamos sinceramente, que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem.

E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde. Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltarmos atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar? Aí, está o maior sofrimento de todos. O luto verdadeiro. Aí está a maior das felicidades.

Miguel Esteves Cardoso em Último Volume
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