Como Esquecer

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processo e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se pode despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!

É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de termina de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distraímos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento conseguido com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar..

Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade. A felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos participar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.

Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar. Afonso Lopes Vieira dizia que Portugal estava tão mal que era preciso exilar-se para poder continuar a amar a Pátria dele. Deixar de vê-la para ter vontade de a ver. Às vezes, a presença do objecto amado provoca a interrupção do amor. É a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.

As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar. É preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, dar murros na mesa, não perceber. E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.

Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sitio onde se tenha sido feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.

Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem só conseguem amar-se bem quando não se dão.

Mas como esquecer? Como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.

Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor.No meio do remoinho de erros que nos revolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor - temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.

As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, abandonam-se, fazem o maior dos disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las é preciso chocá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar em como ainda temos esperanças de contorná-la. Nos uivos das mulheres nas praias da Nazaré não há «histerias» nem «ignorância» nem «fingimentos». Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me-fazes, os anestesiados, temos medo de enfrentar.

Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia - só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o fôlego.

Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciencia e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado natural. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somos feitos para aguentar com ela.

Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos, de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhes compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isso conta como lembrança. Tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita do coração, uma peste inexterminável, barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.

O que é preciso é iguala a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer, é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça nas paredes, dar sangue, dar um pedacinho de carne (eu quero do lombo, mesmo por cima da tua anca de menina, se faz favor).

E mesmo assim, mesmo magoando, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia da Nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.

Quanto mais fácil amar e lembrar alguém - uma mãe, um filho, um grande amor - mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo. Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com o tempo e com paciência, aqueles que amamos com paciência, aqueles que amamos sinceramente, que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem.

E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde. Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltarmos atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar? Aí, está o maior sofrimento de todos. O luto verdadeiro. Aí está a maior das felicidades.

Miguel Esteves Cardoso em Último Volume

Hearts Were Made To Be Broken



- "... Mas toda a gente sabe que não há pessoas certas, só alturas certas, não é?"

Não consegui deixar de pensar nisso, os dias, as noites, as semanas que lhe seguiram. A certeza na voz com que ela o disse, como se fosse algo que todos soubessem, todos menos eu, que passo a vida à procura da miúda certa, sem nunca ter esperado que a altura certa chegasse. Mas não é tão verdade assim nem o amor é só feito de alturas certas seja com quem for, é preciso a pessoa certa também, e uma sem a outra, é tão inútil como o contrário.

Assim que cheguei a essa conclusão, fiz aquilo que faço sempre, peguei em todos os amores que não deram certo e dissequei e moldei-os até entrarem numa das caixas, rapariga errada na altura errada, rapariga errada na altura certa, rapariga certa na altura errada, e rapariga certa na altura certa, e foi tudo tão fácil, como se o padrão tivesse estado sempre lá se apenas me tivesse dado ao trabalho de olhar.

Das raparigas erradas na altura errada nem vale a pena falar, é a maior de todas as caixas, e são todas aquelas por quem nunca tive qualquer interesse, todas aquelas raparigas que sei que conheço mas troco-lhes o nome com alguém parecido, os números desconhecidos nas mensagens de boas festas que se despedem com um beijinho e que eu nunca vou saber quem são.

As raparigas erradas na altura certa, lamento dizer que também não é uma caixa pequena, todos os engates inconsequentes, todos os romances de uma noite, todos os erros, os impulsos, tudo aquilo que não deu em nada e que nunca foi suposto dar em nada, aconteceu por acontecer, sem se pensar mais nisso.

As raparigas certas na altura errada. Todos os amores que não deram certo, todas os namoros que chegaram ao fim, os nós na garganta e aquilo que podia ter sido, as vidas que nos passaram ao lado. Todas aquelas que não consigo esquecer, em quem penso quando me sinto sozinho, e em como tudo tinha dado certo se isto ou aquilo tivesse sido diferente. É com as raparigas certas que as coisas se complicam, e por mais que tentemos uma e outra vez, não as conseguimos tirar das caixas onde pertecem, e nela fica para sempre. Não há-de haver uma altura certa, para aquela que entrou na nossa vida fora de tempo.

A Zá, se me cruzasse com ela na rua amanhã, apaixonava-me na hora e passava o resto da vida com ela, não tenho dúvidas de que éramos felizes os dois, mas conheço-a há demasiados anos, tantos que quando demos conta do amor que havia, era tarde demais para sermos amores, e tarde demais para continuarmos amigos. A Elsa, se pudéssemos escolher quem amar, ela escolhia-me a mim, e eu escolhia a ela. Sabemos os dois que em teoria somos o casal ideal, mas a teoria aplicada à prática nem sempre dá resultado, e qualquer tentativa de sermos algo mais, põe em risco uma amizade sem a qual já não consigo viver, e ainda que tenhamos tudo a ganhar, temos demasiado a perder.

Todos os namoros que não deram certo, e a certeza de que agora não iam sofrer de nenhum dos problemas que tiveram antes, já que elas foram para o rapaz que se seguio, tudo aquilo que nós queríamos que elas tivessem sido e o não serem por detrás de todas as discussões que então levaram aquele fatídico fim. Os erros que se cometem uma vez e que depois se aprende, e que a elas calhou a terem de o aprender connosco, e a namorada exemplar que foram (que ainda são) para o próximo namorado, que já não somos nós. A questão que vos vai tirar o sono é a dúvida de que até que ponto, é que ser a rapariga certa na altura errada para nós, não fez dela a rapariga certa na altura certa para outra pessoa qualquer, por tudo aquilo que a nossa relação lhe ensinou, e os erros que nos mataram que ela não voltou a fazer... a Tânia, a Andreia, exemplos clássicos, gritantes! de raparigas que agora seriam a certa, mas que vieram na altura errada.

E por fim, aquilo com que todos sonhamos, aquilo que todos queremos, a rapariga certa, na altura certa, "alguém que se reconheça por entre a multidão, sem hesitar" e seja tudo aquilo que sonhámos, e apareça na altura em que mais precisamos dela. Devia bastar para se ser feliz, não é? Não é justo. É difícil quanto baste encontrar a pessoa certa, e muito mais difícil encontrá-la na altura certa, na altura certa para ela, na altura certa para nós. Soa quase impossível, e quase que é, quase.

Mas encontrei-te. Eras tudo o que eu queria e chegasta na altura em que eu mais precisava de ti. Vivemos uma vida inteira em 4 meses, e fomos felizes. Obrigado por todas as gargalhadas, por todas as recordações, a nossa casa, a nossa passadeira, por tudo aquilo que me fizeste ver, tudo o que me mostráste, a tua paciência para o meu inglês sofrível, por tudo aquilo que aprendi contigo, por me teres ensinado que até a altura certa chega ao fim.


I would have followed you to end of the world; I would have waited for you down the aisle; I would have loved you forever.

For Lacey Berkshire, a minha rendinha.

The Last Time We Were Happy

"It was a Thursday morning, you were wearing that ratty little "Dartmouth" T-shirt you look so good in, the one with the hole in the back of the neck. You'd just washed your hair and you smelled like some kind of... flower. I was running late for surgery. You said you were going to see me later, and you leaned to me, you put your hand on my chest and you kissed me. Soft. It was quick. Kind of like a habit. You know, like we'd do it everyday for the rest of our lives. And you went back to reading the newspaper and I went to work. That was the last time we kissed."

Magnolia.

In the New York Herald, November 26, year 1911, there is an account of the hanging of three men. They died for the murder of Sir Edmund William Godfrey; Husband, Father, Pharmacist and all around gentle-man resident of: Greenberry Hill, London. He was murdered by three vagrants whose motive was simple robbery. They were identified as: Joseph Green, Stanley Berry, and Daniel Hill. Green, Berry, Hill. And I Would Like To Think This was Only A Matter Of Chance. As reported in the Reno Gazette, June of 1983 there is the story of a fire, the water that it took to contain the fire, and a scuba diver named Delmer Darion. Employee of the Peppermill Hotel and Casino, Reno, Nevada. Engaged as a blackjack dealer. Well liked and well regarded as a physical, recreational and sporting sort, Delmer's true passion was for the lake. As reported by the coroner, Delmer died of a heart attack somewhere between the lake and the tree. A most curious side note is the suicide the next day of Craig Hansen. Volunteer firefighter, estranged father of four and a poor tendency to drink. Mr. Hansen was the pilot of the plane that quite accidentally lifted Delmer Darion out of the water. Added to this, Mr. Hansen's tortured life met before with Delmer Darion just two nights previous. The weight of the guilt and the measure of coincidence so large, Craig Hansen took his life. And I Am Trying To Think This Was All Only A Matter Of Chance. The tale told at a 1961 awards dinner for the American Association Of Forensic Science by Dr. Donald Harper, president of the association, began with a simple suicide attempt. Seventeen-year-old Sydney Barringer. In the city of Los Angeles on March 23, 1958. The coroner ruled that the unsuccessful suicide had suddenly become a successful homicide. To explain: The suicide was confirmed by a note, left in the breast pocket of Sydney Barringer. At the same time young Sydney stood on the ledge of this nine-story building, an argument swelled three stories below. The neighbors heard, as they usually did, the arguing of the tenants and it was not uncommon for them to threaten each other with a shotgun, or one of the many handguns kept in the house. And when the shotgun accidentaly went off, Sydney just happend to pass. Added to this, the two tenants turned out to be: Faye and Arthur Barringer. Sydney's mother and Sydney's father. When confronted with the charge, which took some figuring out for the officers on the scene of the crime, Faye Barringer swore that she did not know that the gun was loaded. A young boy who lived in the building, sometimes a visitor and friend to Sydney Barringer, said that he had seen, six days prior, the loading of the shotgun. It seems that the arguing and the fighting and all of the violence was far too much for Sydney Barringer, and knowing his mother and father's tendency to fight, he decided to do something. Sydney Barringer jumps from the ninth floor rooftop. His parents argue three stories below. Her accidental shotgun blast hits Sydney in the stomach as he passes the arguing sixth-floor window. He is killed instantly but continues to fall, only to find, three stories below, a safety net installed three days prior for a set of window washers that would have broken his fall and saved his life if not for the hole in his stomach. So Faye Barringer was charged with the murder of her son, and Sydney Barringer noted as an accomplice in his own death. And it is in the humble opinion of this narrator that this is not just "Something That Happened." This cannot be "One of Those Things... ” This, please, cannot be that. And for what I would like to say, I can't. This was not just a matter of chance. Ohhhh. These strange things happen all the time.

O Monstro da Monogamia

Não vejo porque razão um casamento apenas possa ser celebrado entre duas pessoas de sexo diferente. Porque não entre duas pessoas do mesmo sexo? E já que é pá barrasquice, porquê só duas?

Life In Pieces

É tudo ridículo sabem? Tudo o que eu já disse, tudo o que eu já escrevi, tudo, desde o primeiro post, aliás, a começar pelo primeiro, o primeiro mais que todos os outros por tudo aquilo que vos vou dizer a seguir, e quem sabe no fim isto também faça sentido, nem que seja só por um bocadinho, porque foi isso que percebi, que as coisas só fazem sentido aos bocadinhos, durante um curto espaço de tempo, depois acontece qualquer ou a nossa vida dá uma volta e esse bocadinho acaba, e tudo aquilo que fez sentido até agora, deixa de fazer, e olhamos para o bocadinho de tempo em que tudo aquilo fazia sentido e pensamos em como acreditavamos piamente em algo que agora não faz sentido nenhum.

Queria desesperadamente mudar o mundo (ainda quero, mas já lá chego), queria tanto que acreditava (ainda acredito, mas já lá chego) que a única maneira de fazê-lo é fazer ver a todos aqueles que não tem uma noção tão clara da realidade quanto a minha, e educa-los, da mesma maneira que se ensina alguém a ler, a escrever, eu chamava a mim a responsabilidade de educar os demais a viver, ou como viver em sociedade, a explicar da maneira que eu achava mais eficaz o sentido que eu via em tudo, e que eu estava certo que depois de lhes mostrar, também eles iam ver, e isso nunca aconteceu.

Pelo caminho arranjei mais problemas que aqueles que me propus resolver, e para quem tenta resolver os maiores problemas do mundo, não é dizer pouco, e provavelmente arranjei mais problemas e compliquei a minha vida, mais que aquilo que consegui emendar no mundo. O pouco lucro nunca deu para cobrir as despesas, e não deu certo, ou eu não tenho o que é preciso para dar certo, o altruísmo, a paciência, a tolerância para perseverança, o espírito de sacrifício para que tudo resulte.

E depois lembrei-me duma parte do Waking Life, onde deitados os dois o Jesse conta á Celina duma experiencia onde todos os dias davam a fazer palavras-cruzadas originais a um grupo isolado, e mediam o tempo que eles demoravam a completá-las, e que um dia, deram as palavras-cruzadas de um qualquer jornal do dia anterior, e que o tempo que o grupo isolado demorou a resolver foi muito menor. A explicação era "Synchronicity" e a ideia de que estamos todos ligados numa onda cerebral partilhada e que a partir do momento em que o conhecimento se torna disponível, o mesmo é partilhado inconscientemente entre todos através dessa estar onda cerebral que une a humanidade. A razão pela qual quando alguém descobre uma estrela da qual nunca ninguém soube durante milhões de anos, à mesma altura 3 outras pessoas em cantos distintos do planeta a descobrem também.

Se calhar é cobardia ou só comodismo, preguiça. A ideia de que podia fazer do mundo um sítio melhor só por saber como ele devia ser, que só a ideia chegava. Achar que ao perceber aquilo que o mundo podia ser, tornava disponível o conhecimento, conhecimento esse que ia chegar a outros, a outros que iam assim ver o que eu vejo, até pensarmos todos no mesmo e remar no mesmo sentido, na direcção certa. Sei lá, se calhar até eu devo o facto de pensar nisto a outro alguém que pensou nisto primeiro e o passou para mim como uma doença que nos infecta o cérebro sem que eu soubesse, não importa, o plano mantêm-se o mesmo, e quantos mais de nós melhor, mais esperança há para o mundo.

Mas depressa percebes que há demasiado a fazer para te poderes dar ao luxo de não fazer nada e deixar tudo na mão de uma ideia utópica de que à medida que evoluis, o mundo evolui contigo e também ele se torna num sitio melhor à medida que tu te tornas em alguém melhor. Não funciona ou se funciona, demora demasiado tempo a funcionar para que lhe consigas ver os frutos, num género de karma, que uma pessoa espera que chegue, um género de justiça cósmica do universo, e ele chega, garanto-vos, até porque toda a gente tem um dia mau, e é fácil acharmos que é fruto de alguma má acção que tivemos no passado pela qual pagamos agora, mas acho que o karma tem demasiado trabalho nas mãos e que essa tal justiça cósmica, se existe, é mais lenta que a portuguesa.

E voltas a tomar tu as rédeas do destino do mundo, mais ou menos, do mundo que consegues, isto é, apercebes-te de todos os males do mundo, todos os problemas da terra, mas mais consciente, ganhas também noção das tuas limitações e percebes que não vais conseguir corrigir-lhe todos os males, tapar todos os buracos, remediar todos os problemas. Quando te apercebes que não vais conseguir fazer tudo, decides fazer o que podes. Foi então que saiu a frase que a Sara adora. "Sou a melhor pessoa do mundo, porque sou a melhor pessoa que posso ser, e faço tudo o que posso, e quem faz o que pode, a mais não é obrigado". Isto tudo para dizer, que fiz aquilo que podia, que sempre foi mais que aquilo que devia, muito para lá da minha obrigação ou do que as pessoas podiam esperar de mim. Fiz por mim, e fiz pelos outros que não faziam sempre que o pude fazer. E se todos fizessem o que podem, garanto-vos que ninguém precisava de fazer mais nada. Palavra!

Mas esse bocadinho passou, e como tal, este ultimo paragrafo também deixou de fazer sentido, e até vos consigo dizer quando. Há duas semanas atrás, estava na casa da Vanessa e uma bátega de água alagou o Estoril. Ouvimos lá fora uma senhora a lamentar-se da tamanha desgraça que era a vida dela. Fomos ver, e debaixo da copiosa chuva, a D. Mercedes tentava destapar um ralo que tinha entupido e que fazia a água subir até lhe entrar em casa. Pensei na minha avó, e imaginei-a ali, debaixo daquela chuva, e em como gostava que no dia em que lhe acontecesse algo assim, aparecesse alguém a ser a melhor pessoa que podia ser e a ajudasse, e eu ajudei. Já submerso em 10cm's de água, lá estava o ralo, assim que lhe conseguir tirar a tampa, ele sorveu a água que enchia o pátio. Senti-me bem, heróico por ter ajudado alguém numa hora de necessidade quando mais ninguém o podia ter feito, que ali, naquele instante, eu era tudo aquilo de que o mundo devia ser feito.

Voltei para casa a pensar nas minhas avós. Tudo o que há de bom em mim é graças a elas. Quero deixa-las orgulhosas do neto mais que qualquer outra coisa no mundo. Se calhar porque as vou perder mais depressa que aquilo que vou perder os meus pais. Quero que elas saibam que eu fui alguém de quem elas se podiam orgulhar. Não há nada que eu não faça por elas, seja o que for.

Estive quatro meses fora, achei que entre filhos, e genros e outros netos, arranjavam alguém que lhes fizesse o que eu faço enquanto eu não estava, que tomasse conta delas e ajudasse no que fosse preciso. Assim que cheguei, liguei à avó Mª Antónia, a dizer que já cá estava e ela responde:

- Ainda bem meu querido, não imaginas a falta que fazes, à espera que voltasses, já tenho 3 lâmpadas fundidas e um espelho para pendurares.

Aqueceu-me o coração mais que falar-me das saudades que tinha minhas. Saber que faço falta, que precisam de mim, mesmo que seja só uma percentagem daquilo que eu preciso delas, e mais que isso, que sabem que eu vou estar sempre lá, mesmo que não seja já a seguir, mas que voltava e que assim que voltasse, voltava a fazer tudo aquilo que sempre fiz, tudo aquilo que fui capaz.

E foi aqui que aconteceu. Pensei na D. Mercedes e em como fui para ela, aquilo que gostava que outra pessoa qualquer fosse para as minhas avós quando eu não estivesse, mas a verdade é que eu estou, e estou sempre, e mesmo quando não estou, elas esperam, porque sabem que eu volto, e não precisam de mais ninguém porque me têm sempre a mim, e isso sempre foi o suficiente. Não preciso que ninguém faça por elas, porque eu faço o que me compete, a minha obrigação, e não é tanto "se todos fizessem o que podem", mas sim "se cada um fizer o que lhe compete", garanto-vos que ninguém precisa de fazer mais nada.

Mais tarde vim a saber que na noite da chuvada em que "salvei" a D. Mercedes, o filho dela, estava deitado no sofá da sala, como se não fosse nada com ele, e se não era nada com ele, muito menos era comigo. Porque é que hei-de fazer o papel de alguém, que na situação inversa não ia fazer o meu? Pela D. Mercedes? Isso ia levantar uma serie de questões para as quais eu não tenho resposta a nenhuma. Porque se o filho não a ajuda, é porque ela não ajudou o filho, ou porque não o soube criar, ou não lhe deu a educação que devia, sei lá, não quero saber, não me interessa. Eu? Eu sei de mim, e sei dos meus, e faço por eles tudo o que posso por aqueles que sei que merecem, e eles, enquanto me tiverem a mim, não vão precisar de mais ninguém.

E foi ai que mudou tudo e que o bocadinho acabou, deixei de acreditar que cada um deve fazer tudo aquilo que pode. É mentira, não deve, dá trabalho a mais e frutos a menos. Fazerem para alguém à espera que alguem faça por voces, e deixar o coração aberto à espera que alguem o parta. É caminho certo para a desilusão. Quem nem sequer faz o que deve, não vái concerteza fazer mais que aquilo que deve. Não podem contar com terceiros para nada, melhor dizendo, com estranho, porque eu sei bem com quem contar, e quem eu sei, tambem conta comigo. Durante este bocadinho então, até ele acabar, vái ser assim, não vou fazer mais o que posso, por quem não sei se merece. Vou cumprir com as minhas obrigações e fazer o que devo, a quem precisa de mim, e garanto-vos, que se cada um fizesse aquilo que lhe compete, se cada um cumprisse com a sua obrigação, ninguem precisava de fazer mais nada... Palavra!
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