Life In Pieces

É tudo ridículo sabem? Tudo o que eu já disse, tudo o que eu já escrevi, tudo, desde o primeiro post, aliás, a começar pelo primeiro, o primeiro mais que todos os outros por tudo aquilo que vos vou dizer a seguir, e quem sabe no fim isto também faça sentido, nem que seja só por um bocadinho, porque foi isso que percebi, que as coisas só fazem sentido aos bocadinhos, durante um curto espaço de tempo, depois acontece qualquer ou a nossa vida dá uma volta e esse bocadinho acaba, e tudo aquilo que fez sentido até agora, deixa de fazer, e olhamos para o bocadinho de tempo em que tudo aquilo fazia sentido e pensamos em como acreditavamos piamente em algo que agora não faz sentido nenhum.

Queria desesperadamente mudar o mundo (ainda quero, mas já lá chego), queria tanto que acreditava (ainda acredito, mas já lá chego) que a única maneira de fazê-lo é fazer ver a todos aqueles que não tem uma noção tão clara da realidade quanto a minha, e educa-los, da mesma maneira que se ensina alguém a ler, a escrever, eu chamava a mim a responsabilidade de educar os demais a viver, ou como viver em sociedade, a explicar da maneira que eu achava mais eficaz o sentido que eu via em tudo, e que eu estava certo que depois de lhes mostrar, também eles iam ver, e isso nunca aconteceu.

Pelo caminho arranjei mais problemas que aqueles que me propus resolver, e para quem tenta resolver os maiores problemas do mundo, não é dizer pouco, e provavelmente arranjei mais problemas e compliquei a minha vida, mais que aquilo que consegui emendar no mundo. O pouco lucro nunca deu para cobrir as despesas, e não deu certo, ou eu não tenho o que é preciso para dar certo, o altruísmo, a paciência, a tolerância para perseverança, o espírito de sacrifício para que tudo resulte.

E depois lembrei-me duma parte do Waking Life, onde deitados os dois o Jesse conta á Celina duma experiencia onde todos os dias davam a fazer palavras-cruzadas originais a um grupo isolado, e mediam o tempo que eles demoravam a completá-las, e que um dia, deram as palavras-cruzadas de um qualquer jornal do dia anterior, e que o tempo que o grupo isolado demorou a resolver foi muito menor. A explicação era "Synchronicity" e a ideia de que estamos todos ligados numa onda cerebral partilhada e que a partir do momento em que o conhecimento se torna disponível, o mesmo é partilhado inconscientemente entre todos através dessa estar onda cerebral que une a humanidade. A razão pela qual quando alguém descobre uma estrela da qual nunca ninguém soube durante milhões de anos, à mesma altura 3 outras pessoas em cantos distintos do planeta a descobrem também.

Se calhar é cobardia ou só comodismo, preguiça. A ideia de que podia fazer do mundo um sítio melhor só por saber como ele devia ser, que só a ideia chegava. Achar que ao perceber aquilo que o mundo podia ser, tornava disponível o conhecimento, conhecimento esse que ia chegar a outros, a outros que iam assim ver o que eu vejo, até pensarmos todos no mesmo e remar no mesmo sentido, na direcção certa. Sei lá, se calhar até eu devo o facto de pensar nisto a outro alguém que pensou nisto primeiro e o passou para mim como uma doença que nos infecta o cérebro sem que eu soubesse, não importa, o plano mantêm-se o mesmo, e quantos mais de nós melhor, mais esperança há para o mundo.

Mas depressa percebes que há demasiado a fazer para te poderes dar ao luxo de não fazer nada e deixar tudo na mão de uma ideia utópica de que à medida que evoluis, o mundo evolui contigo e também ele se torna num sitio melhor à medida que tu te tornas em alguém melhor. Não funciona ou se funciona, demora demasiado tempo a funcionar para que lhe consigas ver os frutos, num género de karma, que uma pessoa espera que chegue, um género de justiça cósmica do universo, e ele chega, garanto-vos, até porque toda a gente tem um dia mau, e é fácil acharmos que é fruto de alguma má acção que tivemos no passado pela qual pagamos agora, mas acho que o karma tem demasiado trabalho nas mãos e que essa tal justiça cósmica, se existe, é mais lenta que a portuguesa.

E voltas a tomar tu as rédeas do destino do mundo, mais ou menos, do mundo que consegues, isto é, apercebes-te de todos os males do mundo, todos os problemas da terra, mas mais consciente, ganhas também noção das tuas limitações e percebes que não vais conseguir corrigir-lhe todos os males, tapar todos os buracos, remediar todos os problemas. Quando te apercebes que não vais conseguir fazer tudo, decides fazer o que podes. Foi então que saiu a frase que a Sara adora. "Sou a melhor pessoa do mundo, porque sou a melhor pessoa que posso ser, e faço tudo o que posso, e quem faz o que pode, a mais não é obrigado". Isto tudo para dizer, que fiz aquilo que podia, que sempre foi mais que aquilo que devia, muito para lá da minha obrigação ou do que as pessoas podiam esperar de mim. Fiz por mim, e fiz pelos outros que não faziam sempre que o pude fazer. E se todos fizessem o que podem, garanto-vos que ninguém precisava de fazer mais nada. Palavra!

Mas esse bocadinho passou, e como tal, este ultimo paragrafo também deixou de fazer sentido, e até vos consigo dizer quando. Há duas semanas atrás, estava na casa da Vanessa e uma bátega de água alagou o Estoril. Ouvimos lá fora uma senhora a lamentar-se da tamanha desgraça que era a vida dela. Fomos ver, e debaixo da copiosa chuva, a D. Mercedes tentava destapar um ralo que tinha entupido e que fazia a água subir até lhe entrar em casa. Pensei na minha avó, e imaginei-a ali, debaixo daquela chuva, e em como gostava que no dia em que lhe acontecesse algo assim, aparecesse alguém a ser a melhor pessoa que podia ser e a ajudasse, e eu ajudei. Já submerso em 10cm's de água, lá estava o ralo, assim que lhe conseguir tirar a tampa, ele sorveu a água que enchia o pátio. Senti-me bem, heróico por ter ajudado alguém numa hora de necessidade quando mais ninguém o podia ter feito, que ali, naquele instante, eu era tudo aquilo de que o mundo devia ser feito.

Voltei para casa a pensar nas minhas avós. Tudo o que há de bom em mim é graças a elas. Quero deixa-las orgulhosas do neto mais que qualquer outra coisa no mundo. Se calhar porque as vou perder mais depressa que aquilo que vou perder os meus pais. Quero que elas saibam que eu fui alguém de quem elas se podiam orgulhar. Não há nada que eu não faça por elas, seja o que for.

Estive quatro meses fora, achei que entre filhos, e genros e outros netos, arranjavam alguém que lhes fizesse o que eu faço enquanto eu não estava, que tomasse conta delas e ajudasse no que fosse preciso. Assim que cheguei, liguei à avó Mª Antónia, a dizer que já cá estava e ela responde:

- Ainda bem meu querido, não imaginas a falta que fazes, à espera que voltasses, já tenho 3 lâmpadas fundidas e um espelho para pendurares.

Aqueceu-me o coração mais que falar-me das saudades que tinha minhas. Saber que faço falta, que precisam de mim, mesmo que seja só uma percentagem daquilo que eu preciso delas, e mais que isso, que sabem que eu vou estar sempre lá, mesmo que não seja já a seguir, mas que voltava e que assim que voltasse, voltava a fazer tudo aquilo que sempre fiz, tudo aquilo que fui capaz.

E foi aqui que aconteceu. Pensei na D. Mercedes e em como fui para ela, aquilo que gostava que outra pessoa qualquer fosse para as minhas avós quando eu não estivesse, mas a verdade é que eu estou, e estou sempre, e mesmo quando não estou, elas esperam, porque sabem que eu volto, e não precisam de mais ninguém porque me têm sempre a mim, e isso sempre foi o suficiente. Não preciso que ninguém faça por elas, porque eu faço o que me compete, a minha obrigação, e não é tanto "se todos fizessem o que podem", mas sim "se cada um fizer o que lhe compete", garanto-vos que ninguém precisa de fazer mais nada.

Mais tarde vim a saber que na noite da chuvada em que "salvei" a D. Mercedes, o filho dela, estava deitado no sofá da sala, como se não fosse nada com ele, e se não era nada com ele, muito menos era comigo. Porque é que hei-de fazer o papel de alguém, que na situação inversa não ia fazer o meu? Pela D. Mercedes? Isso ia levantar uma serie de questões para as quais eu não tenho resposta a nenhuma. Porque se o filho não a ajuda, é porque ela não ajudou o filho, ou porque não o soube criar, ou não lhe deu a educação que devia, sei lá, não quero saber, não me interessa. Eu? Eu sei de mim, e sei dos meus, e faço por eles tudo o que posso por aqueles que sei que merecem, e eles, enquanto me tiverem a mim, não vão precisar de mais ninguém.

E foi ai que mudou tudo e que o bocadinho acabou, deixei de acreditar que cada um deve fazer tudo aquilo que pode. É mentira, não deve, dá trabalho a mais e frutos a menos. Fazerem para alguém à espera que alguem faça por voces, e deixar o coração aberto à espera que alguem o parta. É caminho certo para a desilusão. Quem nem sequer faz o que deve, não vái concerteza fazer mais que aquilo que deve. Não podem contar com terceiros para nada, melhor dizendo, com estranho, porque eu sei bem com quem contar, e quem eu sei, tambem conta comigo. Durante este bocadinho então, até ele acabar, vái ser assim, não vou fazer mais o que posso, por quem não sei se merece. Vou cumprir com as minhas obrigações e fazer o que devo, a quem precisa de mim, e garanto-vos, que se cada um fizesse aquilo que lhe compete, se cada um cumprisse com a sua obrigação, ninguem precisava de fazer mais nada... Palavra!
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