You’ve Got Mail

"People are always saying that change is a good thing. But all they're really saying is that something you didn't want to happen at all... has happened. My store is closing this week. I own a store, did I ever tell you that? It's a lovely store, and in a week it'll be something really depressing, like a Baby Gap. Soon, it'll be just a memory. In fact, someone, some foolish person, will probably think it's a tribute to this city, the way it keeps changing on you, the way you can never count on it, or something. I know because that's the sort of thing I'm always saying. But the truth is... I'm heartbroken. I feel as if a part of me has died, and my mother has died all over again, and no one can ever make it right."

Live Lessons (Learnt the Hard Way)

De vez em quando há esta ou aquela frase que insiste em aparecer-nos na vida, num filme, num livro, num status dum amigo no facebook, onde menos esperavamos, como se nos estivesse a tentar dizer qualquer coisa. A ultima frase com que isso aconteceu, foi com "o Universo desdobra-se da maneira que é suposto", e sabem que mais? Desdobrou-se mesmo! Está a acontecer outra vez, com outra frase, "Se tiver de resumir tudo aquilo que aprendi sobre a vida, é que ela continua.", e provavelmente daqui a uns tempos fará muito mais sentido que aquele que faz agora, porque agora, e acho que acontece exactamente o contrário,

A vida não continua, a vida acaba, e acaba, e acaba, e acaba, e dos escombros das vidas que acabam, sobrevivemos nós, magoados, doridos, esfolados, saimos de debaixo do entulho e seguimos em frente, e continuamos, para uma vida nova, muitas vezes (maior parte das vezes) não por vontade própria, mas por imposição da vida que acabou e ficou para trás que nos obriga a seguir em frente, para uma nova que mais tarde ou mais cedo há-de vir, que começa, e que muito provavelmente vái acabar tambem.

Há três semanas que estou longe de casa outra vez, desta vez em Canterbury, volto quarta-feira para Portugal. Sei que no momento que me meter no comboio para Londres, esta vida acaba tambem, e muito dificilmente cá volto. Por agora, sei o nome das ruas, os "footpaths" até à cidade, o nome do café da esquina (Cafe Des Ami), o autocarro que apanho para a estação (6A) e ate a hora a que o comboio parte para London-Victoria (23:05), habituei-me ao contorno da catedral na linha do horizonte, à torre de St. Dunstand Street, a Humpty Dumpty Meadow de Whistable Road, a Ring Road, o canal, e tudo aquilo que nas ultimas semanas tem sido a minha vida e que depressa se vai transformar em memória de mais uma vida que acabou, mais uma vida que ficou para trás.

Há três meses atrás estava a escrever um post no autocarro a chegar a Nova Iorque, um mês antes disso a escrever outro do meu apartamento em D.C., em outras vidas que acabaram também, e eu claro esta, por imposição mais que por vontade, continuei. Posso lá voltar, é certo, mas para quê? Para o trabalho que não mais meu? Para os outros estagiários da hora de almoço que já não lá estão? Para o meu (nosso) apartamento alugado a outra pessoa qualquer? Não vale a pena. Há verdades tão universais que é incrivel como ainda lhes tentamos dár volta, e eu sempre ouvi dizer que não se deve voltar onde um dia se foi feliz, voltar é tentar agarrar uma vida que já se perdeu, fazer por manter em nós aquilo que não é mais nosso, a âncora no passado que nos impede de seguir em frente.

O Paulo! Foi o meu primeiro melhor amigo, tinha eu uns 3 anos, e é tudo o que resta dele, o nome, não me lembro de mais nada. A minha ama, a D. Mª José, que durante anos, me levou e foi buscar ao colégio, até ao dia em que me tornei crescido o suficiente para ir e voltar sozinho. Mudei de escola, e houveram outros Paulos com outros nomes, que eventualmente também se perderam em vidas passar e deram lugar a outros "Paulos" por quem passo hoje na rua e fazemos sinais de luzes ou cumprimentamos com um toque na buzina. Os amigos lá da rua com quem cresci, que compraram casa e mudaram-se e que não voltei a ver. Pessoas que chegam e tornam-se parte da nossa vida, ou duma delas pelo menos, e que morrem com ela quando ela acaba, com sorte, há um ou outro amigo que fica, e levamo-lo connosco para a vida que se segue, enquanto todo o resto fica para trás.

Tão certo como as vidas acabarem, é haver vidas que não começam, há rapazes e raparigas para quem me dou há anos, por achar que são alguem de quem eu era capaz de ser amigo, ou mais que amigo, e que nunca falámos para além do "Olá, tudo bem?" há espera duma amizade que nunca chegou. Que não vai chegar. A miúda gira adicionada no messenger há anos, há espera do dia em que combinamos o café que mude tudo, o café que nunca chegou. Desculpem dizer-vos como tudo acaba, mas se nao aconteceu até agora, o mais certo é não ir acontecer de todo.

Estou perto de fazer trinta anos, e se calhar e isto que se aprende por esta altura da vida, ou se calhar não se aprende nada, e eu tento à força tirar lições de tudo aquilo que me vai acontecendo para me convencer de que valeu a pena, e que todo este sofrimento teve um propósito, de que não foi em vão, e estou mais preparado para seja o que for que as próximas vidas tiverem guardado para mim. Passamos a vida a ouvir uma serie de clichés que chega a dar vontade de rir, as crises de meia idade, os dramas dos 30 anos, toda a psicologia por detrás das fases da vida, e achas que é tudo uma treta, que cada caso é um caso, e que tu és diferente, longe de ti encaixares no padrao pelo qual os outros se regem, caber nas mesmas caixas que os outros. E quando dás por ti, sem que percebas, ou sem razão aparente comecas a pensar em coisas que nunca tinhas pensado antes, a ter posturas diferentes em relação a algo com que lidaste todo os dias da tua vida e nunca o viste de outra maneira, e das conta que se tudo continua igual, só podes ser tu que mudáste.

Aprendi outra coisa, há uns 10 anos atrás, tinhamos a piada corrente no grupo de amigos, sempre que um de nós se comecava a fartar das saídas, das noitadas, das viagens e festas, e falava em "assentar", era ciclíco e tocou a todos a dada altura, coincidente mente sempre que um novo romance aparecia. E foi sempre isso que assentar significou, estar disposto a comecar qualquer coisa nova, diferente daquela que se tinha então, pronto para ver uma vida acabar para deixar uma nova ocupar o seu lugar. Não tinhamos a minima ideia do que estávamos a falar. Estou pronto para assentar outra vez, ou melhor, estou pronto para assentar de vez, e pela primeira vez, sei o que isso significa, estou farto de vidas a acabarem, vidas que adorei e que me partiu o coração deixar para trás, estou cansado (velho?) demais para continuar, para comecar do principio sempre que mais uma não dá certo. Pela primeira vez, assentar não é mais querer que uma vida comece, mas antes que a vida de agora não acabe, é agarrarmo-nos a ela com quanta força temos, cerrar o punho e não abrir mão, rezar que para que dê certo, jurar que desta é de vez e fazê-la durar para sempre.
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