Live Lessons (Learnt the Hard Way)

De vez em quando há esta ou aquela frase que insiste em aparecer-nos na vida, num filme, num livro, num status dum amigo no facebook, onde menos esperavamos, como se nos estivesse a tentar dizer qualquer coisa. A ultima frase com que isso aconteceu, foi com "o Universo desdobra-se da maneira que é suposto", e sabem que mais? Desdobrou-se mesmo! Está a acontecer outra vez, com outra frase, "Se tiver de resumir tudo aquilo que aprendi sobre a vida, é que ela continua.", e provavelmente daqui a uns tempos fará muito mais sentido que aquele que faz agora, porque agora, e acho que acontece exactamente o contrário,

A vida não continua, a vida acaba, e acaba, e acaba, e acaba, e dos escombros das vidas que acabam, sobrevivemos nós, magoados, doridos, esfolados, saimos de debaixo do entulho e seguimos em frente, e continuamos, para uma vida nova, muitas vezes (maior parte das vezes) não por vontade própria, mas por imposição da vida que acabou e ficou para trás que nos obriga a seguir em frente, para uma nova que mais tarde ou mais cedo há-de vir, que começa, e que muito provavelmente vái acabar tambem.

Há três semanas que estou longe de casa outra vez, desta vez em Canterbury, volto quarta-feira para Portugal. Sei que no momento que me meter no comboio para Londres, esta vida acaba tambem, e muito dificilmente cá volto. Por agora, sei o nome das ruas, os "footpaths" até à cidade, o nome do café da esquina (Cafe Des Ami), o autocarro que apanho para a estação (6A) e ate a hora a que o comboio parte para London-Victoria (23:05), habituei-me ao contorno da catedral na linha do horizonte, à torre de St. Dunstand Street, a Humpty Dumpty Meadow de Whistable Road, a Ring Road, o canal, e tudo aquilo que nas ultimas semanas tem sido a minha vida e que depressa se vai transformar em memória de mais uma vida que acabou, mais uma vida que ficou para trás.

Há três meses atrás estava a escrever um post no autocarro a chegar a Nova Iorque, um mês antes disso a escrever outro do meu apartamento em D.C., em outras vidas que acabaram também, e eu claro esta, por imposição mais que por vontade, continuei. Posso lá voltar, é certo, mas para quê? Para o trabalho que não mais meu? Para os outros estagiários da hora de almoço que já não lá estão? Para o meu (nosso) apartamento alugado a outra pessoa qualquer? Não vale a pena. Há verdades tão universais que é incrivel como ainda lhes tentamos dár volta, e eu sempre ouvi dizer que não se deve voltar onde um dia se foi feliz, voltar é tentar agarrar uma vida que já se perdeu, fazer por manter em nós aquilo que não é mais nosso, a âncora no passado que nos impede de seguir em frente.

O Paulo! Foi o meu primeiro melhor amigo, tinha eu uns 3 anos, e é tudo o que resta dele, o nome, não me lembro de mais nada. A minha ama, a D. Mª José, que durante anos, me levou e foi buscar ao colégio, até ao dia em que me tornei crescido o suficiente para ir e voltar sozinho. Mudei de escola, e houveram outros Paulos com outros nomes, que eventualmente também se perderam em vidas passar e deram lugar a outros "Paulos" por quem passo hoje na rua e fazemos sinais de luzes ou cumprimentamos com um toque na buzina. Os amigos lá da rua com quem cresci, que compraram casa e mudaram-se e que não voltei a ver. Pessoas que chegam e tornam-se parte da nossa vida, ou duma delas pelo menos, e que morrem com ela quando ela acaba, com sorte, há um ou outro amigo que fica, e levamo-lo connosco para a vida que se segue, enquanto todo o resto fica para trás.

Tão certo como as vidas acabarem, é haver vidas que não começam, há rapazes e raparigas para quem me dou há anos, por achar que são alguem de quem eu era capaz de ser amigo, ou mais que amigo, e que nunca falámos para além do "Olá, tudo bem?" há espera duma amizade que nunca chegou. Que não vai chegar. A miúda gira adicionada no messenger há anos, há espera do dia em que combinamos o café que mude tudo, o café que nunca chegou. Desculpem dizer-vos como tudo acaba, mas se nao aconteceu até agora, o mais certo é não ir acontecer de todo.

Estou perto de fazer trinta anos, e se calhar e isto que se aprende por esta altura da vida, ou se calhar não se aprende nada, e eu tento à força tirar lições de tudo aquilo que me vai acontecendo para me convencer de que valeu a pena, e que todo este sofrimento teve um propósito, de que não foi em vão, e estou mais preparado para seja o que for que as próximas vidas tiverem guardado para mim. Passamos a vida a ouvir uma serie de clichés que chega a dar vontade de rir, as crises de meia idade, os dramas dos 30 anos, toda a psicologia por detrás das fases da vida, e achas que é tudo uma treta, que cada caso é um caso, e que tu és diferente, longe de ti encaixares no padrao pelo qual os outros se regem, caber nas mesmas caixas que os outros. E quando dás por ti, sem que percebas, ou sem razão aparente comecas a pensar em coisas que nunca tinhas pensado antes, a ter posturas diferentes em relação a algo com que lidaste todo os dias da tua vida e nunca o viste de outra maneira, e das conta que se tudo continua igual, só podes ser tu que mudáste.

Aprendi outra coisa, há uns 10 anos atrás, tinhamos a piada corrente no grupo de amigos, sempre que um de nós se comecava a fartar das saídas, das noitadas, das viagens e festas, e falava em "assentar", era ciclíco e tocou a todos a dada altura, coincidente mente sempre que um novo romance aparecia. E foi sempre isso que assentar significou, estar disposto a comecar qualquer coisa nova, diferente daquela que se tinha então, pronto para ver uma vida acabar para deixar uma nova ocupar o seu lugar. Não tinhamos a minima ideia do que estávamos a falar. Estou pronto para assentar outra vez, ou melhor, estou pronto para assentar de vez, e pela primeira vez, sei o que isso significa, estou farto de vidas a acabarem, vidas que adorei e que me partiu o coração deixar para trás, estou cansado (velho?) demais para continuar, para comecar do principio sempre que mais uma não dá certo. Pela primeira vez, assentar não é mais querer que uma vida comece, mas antes que a vida de agora não acabe, é agarrarmo-nos a ela com quanta força temos, cerrar o punho e não abrir mão, rezar que para que dê certo, jurar que desta é de vez e fazê-la durar para sempre.
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