Constant State of Departure

Há poucos dias ou instantes de tamanha plenitude como a que sinto quando atravesso a 25 de Abril ao fim da tarde dum dia de verão, o vento a atravessar o carro pelas janelas abertas e a mão do lado de fora do carro a dançar com ele, o sol a por-se ao longe no estuário, como se tb ele fosse desaguar para para o outro lado do mundo, e a sensação de que não há outro sitio no mundo como este.

É incrível a velocidade com que o copo passa de meio-vazio a meio-cheio. Mesmo antes de me ir embora o ano passado, dava por mim a pensar naquilo que me ia fazer mais falta, se a família, se os amigos, se os amores, se Lisboa, se Portugal, se a Europa inteira, e tudo me fez falta. Passei o tempo lá, desejoso de voltar para cá, tudo lá me incomodava, mesmo aquelas que agora, mais tarde, sinto saudades. O mesmo com Portugal, sinta a falta das mesmas coisas que cá me incomodavam, e pior que sentir a falta das coisas que me incomodavam, sentia a falta do incomodo que elas causavam, as imperfeições que aprendemos a ver como particularidades que conferem a tudo um outro encanto. Não via a hora de voltar para casa.

Eventualmente voltei, e não podia estár mais feliz. O mar de amigos a ligar, a perguntar se já tinha voltado, os cafés, os jantares, as saidas para por a conversa em dia, a agenda preenchidissima a saltar de festa em festa. A família em redor da mesa de jantar na vespera de natal, o mar de presentes que se estende até meio da sala, os mais pequeninos a correr pela casa aos berros, um casa cheia, cheia de vida, uma vida cheia... e Lisboa a namorar o Tejo, o Bairro Alto, Alfama, o Castelo, Chiado, Rossio, a Av. da Liberdade a estender-se como um tapete vermelho aos pés do Marquês e o Parque como um manto verde que ele trás ás costas, e no alto, uma bandeira de Portugal desfraldada ao vento e ao Fado.

Mas as semanas passam, e eventualmente os amigos teem outros planos, a familia separa-se até ao próximo natal, casamento, funeral, aquele que acontecer primeiro, e até Lisboa, volta a ser só Lisboa, e numa tarde de terça-feira passada em casa sem ter que fazer, damos por nós a pensar porque era mesmo que estávamos tão desejosos de voltar? Queremos sempre aquilo que não temos, e começamos a pensar no que ficou para trás ao voltarmos, e agora, sem o julgamento toldado pelas saudades que tinhamos de tudo, apercebemo-nos que o que tinhamos não era tão mau quanto o pintámos, e agora que desapareceu, como gostavamos de o ter de volta, e movemos o mundo, vamos onde for preciso, fazemos o que tiver de ser feito, para o conseguirmos recuperar.

Hoje foi um desses dias de plenitude, a viagem de barco até Lisboa, a extraordinária e inesperada companhia da Claudia, tropeçar na Priscila no Bairro Alto, e o trajecto de volta à conversa com o Virgílio que me fala da Rosa, e da Irís, e o copo volta a estar meio cheio, e voltamos a ver o quaõ dificil é não ter os amigos por perto, as saudades que vais ter da familia, a falta que Lisboa te vai fazer, e foi tão fácil voltar a ver tudo isso, a unica coisa que foi preciso, foi saber que me vou embora outra vez.
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