My Expiration Date

O meu visto de permanência nos Estados Unidos acabou de expirar à meia-noite. Achei que pela altura que começasse a escrever, arranjaria uma maneira de explicar o que tenho para vos dizer, e foi o melhor que consegui arranjar. O meu visto acabou de expirar.

Pode não parecer importante, mas é, não o prazo do visto em si, mas o que isso significa, como uma etapa que acaba, ou um ciclo que se fecha, o ter de voltar para a vida que tinha antes de tudo isto acontecer, é isso que custa, é isso que faz com que seja importante, o significado por detrás de tudo isso.

Todo o tempo em que tive em Washington, não conseguia deixar de pensar em casa, em voltar, nos amigos, na família, só queria voltar, mas depois de voltar as coisas não correram exactamente como eu tinha planeado. Depressa demais aquilo de que passei a ter saudades foi do que ficou para trás. O sentimento de culpa por ter sabotado o meu tempo lá com saudades de cá, e agora cá, só penso em voltar para o que deixei para trás.

Tenho uma vida privilegiada, passo o ano em Lisboa e os verões na casa do Algarve. Na Páscoa vamos para a neve no sul de Espanha, para Andorra, ou para a Suíça. Mais vezes que aquelas que devia, meto-me num avião e vou ter como Kiko a Londres, nem que seja só para passar o fim-de-semana e irmos sair para o West End, a porta aberta da casa dos primos de Paris e dos de Bruxelas, um fim-de-semana em Barcelona só porque a passagem custa menos que um bilhete de cinema. É assim a minha vida cá, em Portugal, na Europa, e é extraordinária, a única coisa que lhe falta para ser perfeita, é a vida que desapareceu com o visto que acabou de expirar.

Até podem dizer que é um exemplo clássico de querermos sempre aquilo que não temos, que a relva é sempre mais verde do lado de lá da cerca, mas não é, é provavelmente um exemplo clássico sim, mas de querermos sempre mais que aquilo que temos, não obstante de quão bom é aquilo que temos. Esta é a minha vida, e não vai a lado nenhum. Nasci em Portugal, hei-de ser Português até ao fim dos meus dias, foi aqui que nasci, foi aqui que cresci, há-de sempre ser aqui que está a minha família e os meus amigos, hei-de ter sempre uma razão para voltar, mesmo que seja só pelo Natal, ou duas semanas no Verão.

Agora, quero aquilo que eu não tenho, a metade do mundo que falta, a metade que eu tive e perdi. Quero-a outra vez, e mais que a querer outra vez, quero-a de vez, quero que volte para ficar como parte da vida que hei-de ter. Quero que os meus filhos tenham um pai Português e uma mãe Americana, quero que passem o ano nos Estados Unidos, na escola, no secundário, na faculdade, que se juntem a uma fraternidade ou irmandade, e que passem o verão em Portugal e a passear pela Europa, tal como o pai fazia, que tenham eles a vida que eu tenho agora, dar-lhes também o melhor dos dois mundo. Quero que falem Inglês com a mãe e Português com o pai. Quero as praias do Algarver, e um carro com um V8 estacionado na driveway, quero o Benfica a pagá-las em Alvalade aos Domingos, e a noite de terça-feira num Sports bar com amigos, a ver os Colts vingarem-se do Saints mergulhados num balde de asas de galinha.

Não me interpretem mal, não quero com isto dizer que o lado de lá do mundo é muito melhor que o de cá, garanto-vos que não é, mas este, quer eu queira quer não, e quero-o muito, quer eu goste quer não, e gosto muito, há-de estar sempre aqui para mim. É fácil contentarmo-nos com o que temos e dar graças pela sorte da vida que vivemos, quando não sabemos quanto da vida nos está a passar ao lado, aquilo que estamos a perder, mas agora eu sei, e esta é uma daquelas portas que depois de aberta não dá para fechar. Há um mundo inteiro, meio mundo do lado de lá do mar, e mesmo meio mundo, é grande demais para ignorar, para não ligar. Como é que se perde meio mundo?

Está a ficar tarde, devia-me ir deitar, tenho amanhã cedo uma entrevista na Embaixada, não quero chegar atrasado, tenho meio mundo à minha espera.
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