Compreendo Senhor!

Todos aqueles que acham a minha vida fascinante não fazem ideia da imensidão de maneiras em como a fodi por fazer tudo aquilo que outros têm como fascinante. Todas as viagens ou o ir para fora, a minha faculdade Americana e as “cheer leaders”, tudo aquilo que visto de fora pode até parecer invejável, visto de dentro condenou-me a uma vida miserável e a certeza de que nunca hei-de ser feliz.

Até vos podia dizer que a razão pela qual nunca vou ser feliz, é porque ao fazer tudo isto, abri uma porta que não pode mais ser fechada. A Patrícia odeia que eu diga isto, mas a ignorância é mesmo uma bênção, e todo o "mais vale ter amado e ter perdido, que nunca ter amado de todo" foi obviamente dito por alguem que não ama como eu amo, e sem sombra de duvida não sofre como eu sofro quando tudo acaba e tenho de apanhar do chão o milhão de cacos em que me parto. E por mais tempo que eu leve a tentar junta-me outra vez, nunca fico a mesma coisa e nunca volto a ser o mesmo. Sou o remendo daquilo que comecei por ser, e há muito que deixei de lhe fazer justiça.

Podia dizer-vos que é por ter trazido para a minha vida o conhecimento de tudo aquilo que lhe passa ao lado e faz com que seja impossível contentares-te com metade daquilo que o mundo tem para oferecer, agora que sabes que a outra metade lá está. Antes de ter morado em Washington, ou antes de ter vindo para o Indiana, Portugal e a Europa chegavam e tinham tudo aquilo que eu precisava para ser feliz. Agora sinto-me como a Sofia, a escolher entre um de dois amores sabendo à prior a falta que o outro vai fazer, seja qual for a metade que eu decida deixar para trás.

Gostava de vos conseguir explicar que as saudades vão ocupando o espaço deixado vazio por cada bocadinho que fica em cada lugar que passo, cada rua em que morei e em cada amigo que faço e leva com ele um bocado de mim ao partir. Estou espalhado por mais sítios no mundo que aqueles que consigo dizer, mais que os que me consigo lembrar, sítios a que nunca hei-de ir ou a que nunca hei-de voltar, ruas nas quais não vou passar com gente que nunca vou voltar a ver. Estou dividido em pedacinhos tão pequenos, espalhados por lugares tão distantes, guardados em amigos tão longinquos que são impossíveis de recuperar. Nunca hei-de ser inteiro outra vez, e já todo eu sou saudade.

Podia-vos dizer que é porque não tenho amigos. Os amigos de Portugal seguem com as vidas deles sem que eu faça parte delas, e quando volto, o espaço que era meu foi ocupado por outros amigos ou outras coisas, e não há mais lugar para mim. Os amigos daqui, vêm todos com um prazo de validade, e afeiçoar-mo-nos a quem nos vai deixar é amplificar a já de si gigante dor de ir embora, e quando eu for, tambem as vidas deles vão continuar como se eu nunca tivesse feito parte delas.

... e ainda que tudo isso seja verdade, não é por isso que eu sei o triste fim que me espera.

Nunca fui muito religioso, mas acredito que até isso é birra de adolescência e à medida que vamos ficando mais velhos e somos confrontados com a nossa mortalidade ao ver os anos passarem, sentimos a necessidade de acreditar em qualquer coisa, o conforto dum propósito para tudo aquilo que acontece, um bem maior se quiserem, e começas a acreditar tu também em algo ou alguém cuja designios rejam tudo aquilo que acontece. Se calhar não é tanto o acreditar como o querer acreditar, mas é acreditar ainda assim, e a razão pela qual eu não vou ser feliz, é porque Deus nunca o há-de deixar.

Maior parte das pessoas contenta-se, conforma-se, desiste da vida que sonhou porque dá demasiado trabalho ou requer demasiado esforço ou sacrifício. A verdade é que 90% das pessoas não vivem a vida que sonhou e há muito que deixou de lutar por aquilo que queria quando algures pelo caminho se deixaram vencer pelo comodismo daquilo que apareceu pelo caminho, porque estava mesmo ali e não dava trabalho, porque faz mais sentido um pássaro na mão, que os dois a voar, quando nem sequer sabemos se há mais passaros no mundo ou onde quer que seja, e é só a fé que nos move. A ideia de que se não desistirmos daquilo que queremos, eventualmente o conseguimos e que só falhamos no dia em que deixarmos de tentar. Ter fé é complicado por definição, como é que nos agarramos a algo que não é palpavél? Que não vimos, não cheiramos, que a maior parte das vezes nem sequer sentimos quando o contrario é tão fácil, e esta mesmo ali à nossa frente? Mesmo que não seja exacta, ou mesmo remotamente, aquilo que sonhámos. Normalmente, quase sempre, qualquer coisa é melhor que coisa nenhuma.

Vim para o Indiana tentar reconquistar a miúda dos meus sonhos. Não vai acontecer, naturalmente, mas para o bem do argumento, vamos imaginar que eu conseguia? Imaginem todos os amores que acabaram por ele ou ela a/o deixar fugir e não correram atrás como eu corri? Por não deixaram tudo para trás atrás dum sonho que tiveram e que não quiseram que acabasse! Se nós voltássemos, que ideia passava para o resto do mundo? Para todos aqueles que desistiram? Passava a ideia de que o tinham conseguido também se se tivessem dado ao trabalho de tentar. Que podiam estar a viver a vida que sonharam, ao lado de quem sonharam, antes de se venderem ao plano B da vida em que acabaram.

Mas ninguém tenta, ninguém se esforça, ninguém faz o que eu faço, eu sou a excepção que nunca desiste e que depois de ir ao tapete, se levanta, sacode o pó e se volta a atirar de cabeça sem nunca aprender a lição na esperança que no fim tudo faca sentido. Ninguem disse que ia ser fácil, a unica coisa que prometeram foi que ia valer a pena, e como tal nego-me a abrir mão da vida que sonhei para mim!

Sei lá, faz matematicamente sentido e quero acreditar que Deus é um tipo que se deixa guiar pela lei dos grandes números, um fã da probabilidade e estatística, e o bem maior requer que eu não seja feliz, para que a maioria possa continuar medianamente feliz na vida que os escolheu, ao invés da vida que eles escolheram, e ter-me a mim como exemplo. Aquele que tentou mais que eles, e que nem por isso conseguiu melhor, que apesar de todos os meus esforços titãnicos, das minhas entregas desmedidas a histórias de amor absurdas, no fim, acabei com uma vida tão miserável quanto a deles, e que não faz mal não terem tentado, porque tentar não é sinonimo de conseguir, e no fim, não só eles conseguiram tanto ou mais que aquilo que eu consegui, como o conseguiram muito mais cedo por não terem perdido tempo nestas aventuras ridículas, em busca de nem sei bem o quê.

E como acredito em Deus, acredito no céu, e sei que quando lá chegar, o Senhor me vai chamar à parte, congratular-me por tentar com uma pancadinha nas costas e pedir-me para compreender, e vai dizer que nunca me podia deixar ser feliz para o bem de todos os outros, que não foi nada pessoal, que dei um óptimo espectaculo, e fui divertidissimo de acompanhar, um dos Seus preferidos, mas que ao fim do dia foi tudo uma questão de números, e no grande plano, um sacrifício necessário para o bem maior!
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